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  <title>Canjicas</title>
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  <tagline>Notas do Dr. Porfirio Caetano das Neves, barbeiro</tagline>
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  <copyright>Copyright (c) 2008, Porfirio</copyright>
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    <title>Polêmicas e praças</title>
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    <summary type="text/plain">Como se não bastasse o fato de que o meu tiramissú estava meio azedo, um conhecido me diz, nos finalmente de um jantar medíocre, que o problema do Diogo Mainardi era que ele busca sempre escandalizar os leitores criando alguma...</summary>
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      <![CDATA[<p>Como se não bastasse o fato de que o meu tiramissú estava meio azedo, um conhecido me diz, nos finalmente de um jantar medíocre, que o problema do Diogo Mainardi era que ele busca sempre escandalizar os leitores criando alguma polêmica ou falando mal de alguém. </p>

<p>Eu sempre achei que escritor bom tem que assustar o leitor com idéias bizarras e chocantes, mas que no fundo soem estranhamente razoáveis. Tem que pegar e estapear a moral de classe média, entrar sem licença na empoeirada saleta das suas convicções arrastando cortinas e escancarando janelas. Ou seja, tem de polemizar. Jornais, revistas, sites, TV são lugares de polêmica e, na minha programação ideal, elas deveriam estar repletas de Wildes, Shaws, Chestertons, Montaignes, Russels, Voltaires etc. etc., discutindo entre si e dando opiniões surpreendentes (ocasionalmente também haveria um programa de culinária e um filminho).</p>

<p>Não faz sentido escrever sobre algo que todo mundo concorda: um assunto é tedioso na exata proporção de sua capacidade de gerar consensos. Muitos duvidam da existência de deus e é exatamente por isso que ele é uma figura tão interessante. Se todo mundo tivesse certeza de sua existência, o criador despertaria tanto interesse quanto um patinete motorizado. Por isso costumo dizer que, quanto mais certeza em torno de um assunto, mais desinteressante ele fica, e já está óbvio a esta altura que não há nada mais tedioso do que uma obviedade.</p>

<p>Voltando ao mal fadado jantar, Mainardi está certo em ser polêmico, se é que é isso mesmo que ele pretende. Se uma revista com a tiragem de uma Veja se presta a alguma coisa que não nos dar notícias que já vimos nos jornais dois dias antes, essa coisa é gerar alguma polêmica. Praqueles que gostam de adulações, também existem espaços públicos pra manifestarmos nossa admiração unânime por grandes eventos e personalidades. Eles se chamam praças, costumam ter estátuas no centro, algumas árvores e amplos gramados onde podemos fazer piqueniques e, num dia de sol, ler jornais em busca de uma polêmica interessante.</p>]]>
      
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    <title>Minha opinião sobre a guerra do Iraque</title>
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    <issued>2008-04-23T14:39:32-04:00</issued>
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    <summary type="text/plain">Tem tantos refugiados saindo do Afeganistão que eles deviam mudar o nome do país pra Afeganistavam....</summary>
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      <![CDATA[<p>Tem tantos refugiados saindo do Afeganistão que eles deviam mudar o nome do país pra Afeganistavam.</p>]]>
      
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    <title>Indisposição</title>
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      <![CDATA[<p>Engraçado como hoje as pessoas não ficam mais socialmente indispostas. No passado, fulano era convidado pra um sarau e declinava, porque havia acordado com um ligeira indisposição. Diante de um jantar na casa da avó da esposa ou de uma serenata, você poderia dizer que infelizmente não compareceria porque, pobre coitado, tinha sido acometido de uma súbita indisposição naquela tarde, preferindo ficar em casa de repouso. Falava-se em indisposição e isso era suficiente pra te dispensar do compromisso, sem ofender as suscetibilidades do anfitrião e sem provocar maiores perguntas. </p>

<p>E aí o meu ponto. O interessante da indisposição é que ela se situa em algum lugar indeterminado, numa zona cinzenta entre a simples vontade de não ir (tenho coisa melhor pra fazer) e os infortúnios que nos impedem de ir (como uma doença). Diante de um convite impertinente vindo de alguém que você não quer desagradar, a indisposição seria a justificativa perfeita, pois te poupa de dizer na cara dura que você não vai porque, por exemplo, acha o programa chato. Ao declinar por estar indisposto, você evita maiores explicações e reveste a sua ausência de um verniz de mistério, deixando o anfitrião sem saber se você está com um pé na cova ou se simplesmente prefere ver um documentário sobre a história no número um no Discovery Channel, na agradável companhia do seu buldogue.</p>

<p><br />
O que se tem por estes dias, na melhor das hipóteses, é o genérico "xi, não vai dar, não estou me sentindo bem hoje". O problema é que o seu amigo vai se achar obrigado a perguntar o que está acontecendo, se você já procurou um médico e vai dizer que ele conhece um clínico geral ótimo e baratinho, amigo de um primo etc. etc., até pra mostrar algum interesse no seu estado de saúde. E você vai começar a se sentir incomodado, vai acabar perdendo a paciência e respondendo, como eu costumo fazer, que "não é nada muito grave não; é só uma diarréia forte que me pegou de surpresa, mas, tirando o excesso de flatulência, já está tudo sob controle", colocando um fim abrupto na conversa e ensinando o grosseirão que certas verdades são duras (ou moles) demais pra serem ditas.  </p>

<p>Enfim. Dizer a verdade é uma das formas mais comuns de ofender alguém e, na minha humilde e correta opinião, a sinceridade é quase sempre uma grosseria imperdoável. Mas antes que os pudicos me puxem a orelha, admito que mentir também não é algo agradável, o que nos deixa como única alternativa a boa e velha dissimulação. A desculpa da indisposição é uma forma elegante de dissimulação. Há desculpas esfarrapadas, mas existem também as desculpas elegantemente trajadas, de fraque, cartola e gravata de seda. O fim da indisposição como justificativa plausível pra ausência em um compromisso social é a maior evidência do ocaso das boas maneiras nesses nossos tempos. Hoje em dia, se bobear, somos obrigados a falsificar um exame médico pra escapar da macarronada de domingo na casa de uma tia. Uma lástima.</p>]]>
      
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    <title>Eros uma vez...</title>
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    <modified>2008-05-12T01:51:26Z</modified>
    <issued>2008-02-27T18:35:56-04:00</issued>
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    <summary type="text/plain">Por curiosidade resolvi comprar o livro “Triângulo no ponto”, de autoria de S.Exa. o Min. do STF Eros Grau. Pra quem não conhece (ignorante!), o ministro é professor titular da Universidade de São Paulo, foi indicado para a mais alta...</summary>
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      <![CDATA[<p>Por curiosidade resolvi comprar o livro “Triângulo no ponto”, de autoria de S.Exa. o Min. do STF Eros Grau. Pra quem não conhece (ignorante!), o ministro é professor titular da Universidade de São Paulo, foi indicado para a mais alta corte do país pelo Presidente Lula e o “Triângulo” é seu primeiro romance. Vocês sabem que sou um reles barbeiro com uma quedinha pela literatura e que por isso mesmo, como diria o saudoso cel. Ponciano de Azeredo Furtado, não sou homem de intromitências em assuntos de alta questionação, talqualmente a crítica literária. Mas a leitura do “Triângulo” foi tão impactante na minha vida que não consegui segurar o comichão e acabei anotando algumas observações sobre este livro singular, que gostaria de dividir com vocês.</p>

<p>Seguindo um caminho mais fácil, transcrevi as partes do texto e coloquei meus humildes comentários em seguida. Pros incrédulos e demais discípulos de São Tomé, tomei o cuidado de indicar a página do livro, facilitando a vida de quem quiser consultar os originais pra tirar a coisa a limpo. É tudo verdade. Já o título do post é uma sugestão do FDR e uma homenagem ao Millôr, que, apesar de ser apenas bacharel pela Universidade do Méier (nota “C” no Provão), me serviu de inspiração na sua resenha ao “Marimbondos de fogo”, o livro que quando a gente larga não consegue mais pegar.</p>

<p>***</p>

<p>Pra começar, uma coisa que chama atenção é o fato da narrativa ser marcada por uma constante repetição de palavras. No início me pareceu algum tipo de erro de revisão, mas a gente acaba percebendo que a gagueira é um cacoete de estilo, que o autor deve considerar charmoso. Vejam esse trecho, por exemplo, que introduz na trama a personagem Alexandre: “Um rapaz de vinte e dois, vinte e três anos, bem-feito de corpo, másculo como pode ser um rapaz de vinte e poucos anos. Um rapaz que, embora não sendo o rapaz da terapia, gosta mesmo, como ele, é de ser tocado por outro homem”, pág. 70. Entenderam o que eu quero dizer? E esta penetrante reflexão sobre o terrorismo: “O que é o terror, raiz do terrorismo? O movimento ou a reação ao movimento? O terror que aterrorizava Xavier era o terrorismo da reação”, pág. 55. Deixando de lado o paradoxo tostines (é o terror que causa o terrorismo, ou o terrorismo que causa o terror?), o trecho é praticamente um trava-língua. Repita se for capaz: o terrorismo do terror aterrorizava os terroristas.</p>

<p>Mais? Falando de um quadro do Manet, Olympia: “Há aí três elementos: a nudez, a iluminação e nós que as surpreendemos, nudez e iluminação. Há a nudez e a iluminação que está no lugar mesmo em que nós estamos, de modo que é o nosso olhar que, abrindo-se sobre a nudez de Olympia, a ilumina”, pág. 132. Rocambólico. Parece disco quebrado. Mas a minha preferida é essa passagem em que o autor cria um alter-ego pra escrever a segunda parte do romance, uma coisa meio metalinguista-fróidiano-socrática: “Tentei escrever como ele suporia que eu escrevesse se estivesse a escrever esta parte final do Triângulo no ponto”, pág. 114. É mole?</p>

<p>***</p>

<p>Além da gagueira, outro aspecto divertido são os chavões literários, aquelas frases que você já deve ter lido umas duzentas vezes, só no verão passado. Aos exemplos: “Ainda sinto o cheiro do seu corpo”, pág. 14. Convenhamos que é um comentário digno do Sidney Sheldom ou daqueles Sabrina da vida: ainda sinto o cheiro do seu corpo, após uma tórrida noite de amor ao luar, etc.etc. Ou este: “Aconteceu em um mês de maio”, também da pág. 14. Não é implicância não. É brega para diabo. Parece título de novela na Globo: Aconteceu em um mês de maio, com Cauã Reymond, Marcello Anthony e Grazi (ex-BBB); a nova novela das seis. “Eu era jovem”, pág. 18, e “nós éramos jovens”, pág. 99. Essa é universal e só perde pro “era uma vez” (ou, como dizem os americanos, once upon a time). Meu avô começava todas as suas estórias com essa abertura: eu era jovem e ainda nem tinha casado com a sua avó; bons tempos aqueles...</p>

<p>***</p>

<p>Outro ponto alto do livro são as pérolas de filosofia judiciária, um mistura meio indigesta de axiomas político-filosóficos de botequim e expressões jurídicas: “Amor é posse, sempre temporária, frágil, resolúvel”, pág. 26. Modéstia à parte, já havia pensado numa teoria possessória do amor. Amantes entrando com usucapião e esposas/maridos traídos com reintegração de posse etc.etc. Mas a patente é do ministro, que publicou primeiro. “O futuro é indisponível”, pág. 13, e “o futuro daquele instante era indisponível, como todos os futuros. Costa dispôs do futuro, apostou na liberdade”, pág. 89. Confesso que dessa não sei nem o que falar. Convenhamos que “futuro de um instante” não faz muito sentido. E se o futuro era indisponível, então como é que o Costa dispôs dele em troca da liberdade?! E tem mais: para o tal do Costa, esses intelectuais não passam da “síntese acabada da contrafação da ética da qual se fazem arautos” pág. 103. Se alguém te xinga desse jeito na rua você tem que responder: “é a mãe, filho duma égua!” E, finalmente, pra fechar com chave de ouro: “A globalização é como a primavera ou o inverno”, pág. 98. Lindo isso, não?</p>

<p>***</p>

<p>E, claro, tem as passagens apenas ridículas, as minhas prediletas. “A memória dessa tarde é aprazível”, pág. 12. Aprazível pra mim é nome de remédio: enchi a cara ontem, nego; preciso de um aprazível urgentemente. Que tal essa, sobre o talento poético da personagem Xavier: “Os versos saem metálicos, em proporções acabadas, sem se abrirem para a continuidade do poema. Saem versos surrealistas, tipo ‘se o bonde vier cheio/eu me penduro nos teus seios’”, pág. 60. Bem. Esquecendo o non-sense da tal “abertura para a continuidade do poema”, sorte nossa que pelo menos esse bonde não veio de Portugal, que rima com... enfim, que rima com outras partes penduráveis do corpo humano.</p>

<p>Ou essa: “Xavier cunhou frases significativas, tipo ‘o olho, o ovo e o testículo do touro’, a fim de que quem ouvisse essas palavras pudesse completar algum sentido.”, pág. 68. Pra começar, “a fim de que quem” é cacofonia de doer o ouvido. Uma batida de automóvel soa melhor. Fora que, se a frase ‘o olho, o ovo e o testículo do touro’ já é considerada significativa (do que, <em>data venia</em>, ouso discordar), por que alguém iria completar nela algum sentido?</p>

<p>E o que vocês me dizem dessa passagem: “Antes fantasiava com Sílvia, a fantasia, aliás, fora construída para ser vivida por Sílvia, Olivier e outros nela, dentro dela, fazendo de tudo nela. Sílvia pentapenetrada...”, na sugestiva pág. 69. É brincadeira? Fiquei imaginando como seria possível a pentapenetração se as mulheres normais têm apenas dois buracos e uma boca, até que me lembrei das orelhas e das duas narinas. É isso aí, dona Sílvia! Agora é chamar o Dunga e mandar brasa rumo ao hexa!</p>

<p>***</p>

<p>Não é impagável? Juro que não me divertia assim desde a minha primeira leitura do Pigmaleão de Shaw. Eu poderia fazer anotações no livro inteiro, porque cada parágrafo guarda seus encantos e detalhes. Um exemplo é a página 12, onde me deparei com o seguinte trecho, no qual a personagem Rogério lembra da noite em que foi abandonado pela pentapenetrada Sílvia. Coisa poética, de arrancar lágrimas dos olhos:</p>

<p>“O tempo passa com a lembrança recorrente daquela noite e a convicção, que assumi desde o primeiro instante, naquela noite, de que Sílvia não era dialética. Dialética fosse, a minha Sílvia, e compreenderia que a cada negação do nosso amor o nosso amor estaria sendo suprassumido, hegelianamente, cada vez mais nosso amor. Decididamente, Sílvia carecia de paciência histórica. Manteve alguma, durante certo tempo. Mas não era tal, essa paciência, que pudesse ser qualificada como histórica. E assim foi que, uma noite, Sílvia partiu. A paciência que a notabilizara uma tarde, o mar batendo em nossos pés, ela a perdera. Sílvia perdera a consciência histórica.”</p>

<p>Segue o mesmo trecho com meus comentários entre colchetes:</p>

<p>“O tempo passa [o tempo voa, e a poupança Bamerindus...; péssimo esse lugar comum] com a lembrança recorrente daquela noite e a convicção, que assumi desde o primeiro instante, naquela noite [não entendi essa repetição, mas tudo bem], de que Sílvia não era dialética [e isso é lá adjetivo para se descrever a mulher amada?]. Dialética fosse [inversão xeiquespiriana está fora de moda há uns 200 anos], a minha Sílvia [claro que é sua; eu é que não ia pegar essa baranga], e compreenderia que a cada negação do nosso amor o nosso amor [meio concretista essa parte] estaria sendo suprassumido, hegelianamente [sem comentários...], cada vez mais nosso amor [ele realmente acredita que essas repetições têm algum efeito estilístico...]. Decididamente, Sílvia carecia de paciência histórica [a minha paciência histórica também já vai acabando...]. Manteve alguma, durante certo tempo. Mas não era tal, essa paciência, que pudesse ser qualificada como histórica [afinal, é ou não é histórica?]. E assim foi que, uma noite, Sílvia partiu [já vai tarde...]. A paciência que a notabilizara uma tarde, o mar batendo em nossos pés [bonito isso, hein?], ela a perdera. Sílvia perdera a consciência histórica [e nós o fôlego, ministro].”</p>

<p>***</p>

<p>Pois é. Como eu dizia, poderia fazer anotações no texto todo, mas é claro que essa coisa de comentar dá muito trabalho e eu não tenho tanto tempo de sobra assim, como um ministro do STF, pra gastar com essas bobagens. Mas sem abandonar os merecidos encômios, e já na condição de discípulo literário e profundo admirador do grande romancista, me atrevo a escrever uma singela e humilde homenagem ao autor, no estilo inaugural dessa obra fundamental da literatura pátria, como forma de expressar a minha admiração:</p>

<p>“<em>Inicialmente, deve-se esclarecer que meu coração palpita de emoção irrevogável, irretratável e irreversível, equiparável apenas à felicidade experimentada quando degustei uma taça 'superbes' de Chateux Lafite 75, em Cap d'Antibes. Destarte, a supracitada felicidade me atingiu no peito naquela tarde, quando compulsei seu romance pela primeira vez, o sol reincidente esquentando minha face túmida, o vento intempestivo remexendo meus cabelos sedosos, naquela tarde, enquanto as suas poéticas palavras em meu espírito entravam para não mais sair, salvo com ordem liminar de despejo. Ó êxtase, ó musa da literatura, que dá provimento a tantas poesias e romances, como naquela tarde, cabelos ao vento, face túmida. Termos que, pede-se deferimento. Atenciosamente</em>.”</p>]]>
      
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    <summary type="text/plain">Acabei de voltar do almoço e tive a infelicidade de sentar ao lado de uma mesa cheia de gente feliz. O excesso de felicidade é uma deselegância e a euforia humana uma grosseria imperdoável. Pessoas eufóricas falam alto, esbarram umas...</summary>
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      <![CDATA[<p>Acabei de voltar do almoço e tive a infelicidade de sentar ao lado de uma mesa cheia de gente feliz. O excesso de felicidade é uma deselegância e a euforia humana uma grosseria imperdoável. Pessoas eufóricas falam alto, esbarram umas nas outras e riem de forma descontrolada das maiores bobagens. É uma espécie de embriaguez do espírito, que, como toda embriaguez, só aproveita a quem também está embriagado. A inteligência exige uma certa sobriedade e essa coisa de ser feliz em demasia funciona como um nudismo do espírito. Uma risada alta, por exemplo, é o mesmo que um bundalelê da personalidade.</p>

<p>Nada contra o nudismo, claro, desde que estejamos diante de um belo corpo. O problema é que a alma da maioria das pessoas é deformada, cheia de cicatrizes e amputações. Há almas carecas, peludas, mancas, tortas, caolhas, excessivamente obesas ou excessivamente raquíticas. As almas, por sinal, assim como os corpos, necessitam de dietas rigorosas e treinamentos intensivos. Conheci um professor de literatura que padecia de uma obesidade mórbida, decorrente do consumo excessivo de gorduras saturadas e literatura latino-americana. Não faltam também almas raquíticas andando por aí, cuja anemia é tão intensa que só o fato de permanecerem de pé já é por si só surpreendente. </p>

<p>Cultivar uma alma atlética e bem disposta, que se mantenha dentro do peso. Alimentá-la de forma balanceada e exercitá-la diariamente. Enfeitá-la com belas gravatas de seda, sapatos polidos, e vesti-la adequadamente para cada ocasião. Eis aí um propósito para uma vida.</p>]]>
      
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    <summary type="text/plain">Ser pobre é uma condição social, mas ser classe média é um estado de espírito....</summary>
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      <email>mnunes@carmelonunes.com.br</email>
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      <![CDATA[<p>Ser pobre é uma condição social, mas ser classe média é um estado de espírito.</p>]]>
      
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      <![CDATA[<p>Arte não pode ser engajada e a sua politização é o maior dos crimes lesa-cultura que existe. O único fim da arte é a própria arte. Se ela vem contaminada de ideais não estéticos perde a sua identidade, como uma dessas batatinhas fritas sabor bacon, que não é mais batata frita nem chega a ser bacon. Se eu vou a uma peça de teatro, não me importo com as inclinações políticas do autor e não estou interessado em ouvir sua opinião sobre assuntos cotidianos. Entro ali para ter um contato com uma beleza irresponsável, intangível e abstrata. Não me fale em realidade dentro do teatro. Eu conheço a realidade. Todo dia de manhã eu acordo na realidade, tomo café na realidade, trabalho, janto e durmo na realidade. Arte realista é uma contradição em termos e a única coisa que espero de um artista é que ele me iluda, que ele minta para mim descaradamente.</p>

<p>Encenar uma peça de teatro sobre a realidade é mais ou menos a mesma coisa que organizar um jantar de gala, convidar cinqüenta pessoas e servir arroz com feijão. A platéia come arroz com feijão todo dia e a promessa de um grande banquete cria apetites para pratos imaginários, como uma lagosta taitiana regada a molhos filosóficos espessos, acompanhada de pequenas frases de humor doce e levemente ácido. Arroz com feijão é nutritivo, não nego, saudável, é verdade, e exatamente por isso se come em casa de segunda a sexta, e não em ocasiões especiais. Quando chego ao teatro e me deparo com um texto em que o marido de classe média reclama aos berros da perda de um emprego, aí sim me sinto enganado, exatamente porque ninguém ali teve o cuidado de se preparar para mentir para mim, apresentando um mundo elegante, sofisticado e engraçado. Lá estou eu, acompanhado de minha bela esposa, de terno, gravata e talheres de prata na mão, degustando um impensável mexidinho com farinha.</p>]]>
      
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    <title>Em bosta seca não se cutuca</title>
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      <![CDATA[<p>O ceticismo é a mãe do conservadorismo. Pessoas com afetações revolucionárias são sempre motivadas por uma crença cega em sua própria capacidade de compreender e mudar o mundo. O cético duvida de suas habilidades e não acredita na capacidade humana de compreender o mundo e fazer o bem de maneira voluntária. Daí porque todo cético demonstra uma certa hesitação em aderir a programas reformadores e filosofias revolucionárias, por mais coerentes e verdadeiras que elas possam parecer em um primeiro momento. O conservadorismo é, antes de tudo, uma demonstração de senso de proporção perante as coisas como elas são, enquanto a postura revolucionária nada mais é do que um egocentrismo histriônico.</p>

<p>Afinal, diria o cético: se o mundo é uma merda, melhor não cutucá-lo.</p>]]>
      
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    <title>Loucos somos nós</title>
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    <issued>2006-06-23T20:07:47-04:00</issued>
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      <![CDATA[<p>Tenho pesadelos com alguma freqüência e foi em Siracusa que tive o pior deles. Sonhei que estava em São Paulo, em meu escritório, na frente do computador, como neste exato momento. Ali, naquela hora, para mim era o bastante. Segundo minha mulher, acordei suado, agarrado ao travesseiro e gritando desesperado por socorro. Por isso insisto de novo. Só os loucos toleram a realidade. Para quem vive no Brasil, nada mais sensato do que a alienação.</p>]]>
      
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    <title>Mandinga involuntária</title>
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      <![CDATA[<p>Entrei e saí da Europa fazendo conexão em Madri. Na ida, graças ao atraso da bagagem, o que seriam duas horas acabaram virando cinco, tempo suficiente para tentar ir atrás de um sanduíche de presunto cru ibérico e investigar a adega de uma lojinha na sala de embarque. Já no aeroporto, antes mesmo de sobrevoar a Córsega até Roma, pude constatar que a grandeza de um país se mede por dois fatores: riqueza e tradições.</p>

<p>O maior sinal de riqueza da Espanha é a civilidade do aeroporto de Madri. Também acho que falar em civilidade de um aeroporto é o mesmo que falar na elegância de um matadouro ou na classe de um lava rápido. Mas a graça do aeroporto de Madri é que ele faz de tudo para não parecer um aeroporto. Não há balcão para olhar aviões, tipo de lugar que pressupõe que todos que estão ali nasceram em Birigui e nunca andaram de elevador. Quem olha muito tempo para um avião parado deve sofrer de algum grau de autismo, imagino eu. Outra coisa que chama atenção é o fim daqueles anúncios (atenção senhores passageiros etc. etc.) em alto falante. Todos os corredores têm uma TV de plasma com a programação dos vôos e um aviso de que não há chamada oral para os analfabetos, que, presumo, devem ter sido abolidos do país. </p>

<p>Reina um certo silêncio no aeroporto de Madri, uma calma respeitosa bem adequada aos que, como eu, se sentem face-a-face com a morte antes de embarcar num avião.</p>

<p>Quanto às tradições, entrar numa loja de produtos típicos e encontrar uma bandeja de jamón ibérico de bellota dá uma inveja danada. O jamón ibérico é feito de uma raça de porcos semi-selvagens que tem a pelagem e as unhas dos pés pretas (por isso o nome 'pata negra') e que se alimenta exclusivamente de bellotas, uma espécie de castanha que dá na Estremadura. O teste para saber se um presunto cru é bom é bastante simples. Basta ficar mastigando a fatia sem pressa por alguns minutos. O bom presunto tem pouco sal e vai se dissolvendo até desaparecer. O mau é salgado pra diabo e se transforma numa espécie de chiclete de sebo sem gosto definível, que deve ser ou engolido (para seu desprazer) ou cuspido de volta no prato (para o desprazer da sua acompanhante). Façam um teste com o da Sadia e vocês vão entender do que eu estou falando.</p>

<p>Visitar uma loja de produtos espanhóis e tomar uma taça de Marqués de Murrieta, acompanhada de algumas fatias de jamón ibérico de bellota, foi um contraste intolerável para quem havia passado a manhã anterior no saguão de Cumbica, admirando um impensável tucano esculpido em cristal de rocha. O tucano, talhado em pedra cor-de-rosa, estava ao lado de uma camisa da seleção brasileira e vinha rodeado por seis garrafas de cachaça, numa espécie de mandinga involuntária em favor do hexa na Alemanha. Mesmo sem querer, talvez o arranjo representasse a única coisa realmente típica do brasileiro, a mandinga, uma mistura de superstição ingênua com misticismo oportunista, a analogia perfeita do caráter de um povo condenado à irracionalidade e ao atraso.</p>

<p>Reclinado numa poltrona couro e vendo o sol seco atravessar a meia taça de vinho em minha mão, a única coisa que pude fazer naquele momento foi lamentar profundamente por quem somos, enquanto esperava a fatia do presunto terminar de se dissolver em minha boca.</p>]]>
      
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    <title>Ricci</title>
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    <modified>2008-05-12T01:51:26Z</modified>
    <issued>2006-06-08T17:20:45-04:00</issued>
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      <![CDATA[<p>Faz tanto tempo que eu nem sei bem por onde começar. O que eu posso dizer é que nesses últimos meses continuei meus esforços para me aproximar ainda mais do meu ideal elitista-cético-alienado. Com o mundo do jeito que anda, acho justo alguém querer ser alienado. Nada mais incômodo do que a realidade, um lugar em que sou obrigado a tomar vinhos argentinos ao invés de franceses e, ofensa maior, a comer foie-gras de pato e não de ganso. Só os loucos toleram a realidade.</p>

<p>Enfim. Ganhei algum dinheiro, com todos os inconvenientes e desconfortos inerentes a essa atividade. Em compensação, gastei boa parte dele na Europa em uma interessante pesquisa científica que estou desenvolvendo, com o seguinte título: qual o melhor spaghetti ai ricci da Sicília? Conheci o ricci (ouriço) na culinária japonesa, na forma de sushi, e nunca me ocorreu que ele daria um bom molho de macarrão. Coisa de gênio, tanto que, segundo me disse um barista da Catânia, o molho foi inventado por Leonardo da Vinci, logo após o fracasso do seu modelo de helicóptero.</p>

<p>Como sou um cara legal e muito preocupado com a igualdade de informação neste mundo moderno e globalizado, me adianto e digo a vocês que o melhor ricci é o do Don Camilo, em Siracusa, restaurante impecável construído num pequeno e irretocavelmente reformado palácio do séc. XIV. O dono do Don Camilo tem um Phd em óleo de oliva e sua tábua de queijos foi eleita a melhor da Itália em 1997. Cada um desses títulos isoladamente considerados vale mais do que um Nobel de Literatura e um Pulitzer juntos.</p>

<p>Além do Don Camilo, Siracusa tem outras delícias, como, por exemplo, imaginar Platão sendo vendido como escravo por Dionísio I após cometer diversas cagadas como rei-filósofo. Diz a lenda que os amigos de Platão tiveram de fazer uma vaquinha para comprar o filósofo e garantir sua liberdade. Gosto de pensar nessa história como verdadeira, porque ela é um exemplo eloqüente da distância entre teoria e realidade e um lembrete para apaziguar um pouco as pretensões de alguns intelectuais. Se Platão tivesse inventado algum molho para pasta eu teria mais respeito por ele.</p>

<p>***</p>

<p>A partir de agora pretendo escrever algo pelo menos uma vez por semana, até porque não há meio mais agradável para se alienar do que a literatura. Isso, claro, se não me chegarem às mãos algum lote de trufas ou uma dúzia de escargots.</p>]]>
      
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    <title>Dúbio</title>
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    <modified>2008-05-12T01:51:26Z</modified>
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    <summary type="text/plain">Dúbio era a pessoa mais indecisa do mundo. Dizem que seu parto levou 72 horas, já que ele não decidia se devia mesmo nascer. Enquanto outras crianças choravam porque queriam leite, ou colo, ou um chocalhinho, Dúbio era um nenê...</summary>
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      <![CDATA[<p>Dúbio era a pessoa mais indecisa do mundo. Dizem que seu parto levou 72 horas, já que ele não decidia se devia mesmo nascer. Enquanto outras crianças choravam porque queriam leite, ou colo, ou um chocalhinho, Dúbio era um nenê quieto e contemplativo. Tinha pernas e braços fortes, mas seu caráter padecia de uma poliomielite mental, que o paralisava. </p>

<p>Dúbio cresceu trancado dentro de casa, acuado pelas incertezas. Desde as ordinárias: Quem namorar? Onde comer? Até as filosóficas: Quem sou eu? Qual o sentido da vida? Deus existe? Num campeonato internacional de indecisão, Dúbio tirou primeiro lugar ao ficar em dúvida se deveria mesmo se inscrever. E a vida, como Dúbio percebeu logo, era feita de escolhas, que desfilavam todos os dias em sua frente, minuto a minuto, envenenando seu espírito. Não conseguia decidir nada, por mais que tentasse. Não saia de casa. Não punha os pés nas ruas. </p>

<p>Um dia, porém, cansado do isolamento, Dúbio resolveu sair. Não sabia pra onde, mas pela primeira vez estava decidido a sair. Vestiu sua única roupa, o único paletó, cinza escuro. Amarrou seu par de sapatos e saiu. O dia estava claro e duas nuvens passeavam no céu. Qual era a mais bela? Não conseguia escolher, mas estava feliz, decididamente feliz.</p>

<p>Sempre tinha olhado para as escolhas como enigmas diabólicos, como dilemas infernais insolúveis, como forças destruidoras de futuros alternativos. Agora todo um universo de possibilidades estava à sua espera e ele transpirava de ansiedade e palpitações. Antes viver uma só realidade do que uma infinidade de sonhos. Agarrado nessa certeza fundadora, Dúbio ergueu o queixo e olhou o céu sem medo. Aquela é a nuvem mais bela, pensou. E enquanto atravessava a rua contemplando a beleza da nuvem escolhida foi atropelado por um caminhão de mudanças.</p>

<p>Nas contas finais de uma vida, a única coisa certa para Dúbio foi a morte.</p>]]>
      
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    <title>Ah, esses filósofos</title>
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    <modified>2008-05-12T01:51:26Z</modified>
    <issued>2005-08-17T15:46:43-04:00</issued>
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      <![CDATA[<p>Todas as autoridades acadêmicas vão concordar comigo: nada como uma citação obscura para ganhar uma discussão. Já vi debates serem ganhos com uma só citação em alemão, cujo significado exato nem mesmo o autor da frase deve ter entendido. Por isso, com o nobre objetivo de ajudar vocês, queridos leitores, a confundir seus parentes naquelas discussões no almoço de domingo, preparei uma lista com quatro nomes de pensadores solenemente ignorados pela patuléia-lúmpem em geral.</p>

<p>De lambuja, vai também uma frase ou pensamento marcante de cada um, que resume a visão de mundo desses homens incríveis. Comediantes e filósofos têm em comum, além da falta de dinheiro, a necessidade de punch lines para fazerem sucesso, na linha do <em>penso logo existo</em>, <em>tudo que sei é que nada sei</em>, <em>sobre o que não se pode falar deve-se calar</em> etc. </p>

<p>Tenho uma outra teoria, que diz que para cada frase de filósofo existe um ditado popular com a mesma idéia, só que mais direto e engraçado (por exemplo, <em>sobre o que não se pode falar deve-se calar </em>= <em>em boca fechada não entra mosquito</em>). Mas, sinceramente, não quero falar disso agora.</p>

<p>Hipócritas de Éfeso<br />
Pré-socrático quase esquecido, tinha por hábito andar pelas ruas de sua cidade natal vendendo filosofias em dez vezes sem juros. Inventou um desencaroçador de azeitonas e diversos sistemas filosóficos de enorme sucesso na Grécia antiga, que vendia em sua barraquinha sem direito a troca ou garantia. Criador do bigode falso, da flor que espirra água e da dentadura de vampiro, Hipócritas é lembrado principalmente pelo golpe dado em Diógenes, que, após gastar todo seu dinheiro em uma metafísica que não funcionava, perdeu a crença nos homens de bem e resolveu morar num barril.<br />
Pensamento marcante: "<em>A dogmática é como um travesseiro gostoso e macio. Todo mundo devia ter a sua.</em>"</p>

<p>Ernst von Meistertube<br />
Um dos maiores nomes da filosofia chinesa, foi o primeiro oriental a arriscar uma defesa convicta do ceticismo. Autor da <em>Histólia da dúvida em quatlo ou talvez quem sabe cinco volumes </em>e do <em>Plováveis maioles nomes do ceticismo, né?</em>, Meistertube sofria com as brincadeiras sem graça de seus alunos, que gostavam de puxar seus bigodes de chinês e sair correndo pela porta da sala de aula. Morreu pobre e esquecido, já que seus fiéis discípulos duvidavam de tudo o que ele dizia e se recusaram a ensinar sua doutrina.<br />
Pensamento marcante: "<em>Duvidem de tudo, seus bulos, menos de mim!</em>"</p>

<p>François Marrecaux Vichisoise<br />
Filósofo alemão ligado à escola Liebfraumilch. Seu nome foi uma brincadeira de mau gosto do pai, Karl Blicker, conhecido palhaço beberrão da região de Munique. Durante a segunda guerra foi perseguido na Alemanha, sempre apanhando por ser confundido com um francês. Fugiu para a França, onde levava surras homéricas por ter passaporte alemão. Criou um horóscopo próprio com referências aos 15 diferentes tipos de presunto da Baviera que, acreditava Vichisoise, representavam traços essenciais das personalidades humanas. Depois de tanto levar pancada na cabeça, desenvolveu um curioso sistema filosófico baseado nas propriedades espirituais do nabo forrageiro.<br />
Pensamento marcante: "<em>O na-na-na-bo forrageiro é-é lindo. Dã.</em>"</p>

<p>Abraham John F. Coolfeld Jr<br />
Americano do Texas, quando criança passava a mão na bunda das amiguinhas de escola e encoxava a vó no tanque. Na juventude, se divertia jogando bolotas de estrume nas janelas dos vizinhos e, já adulto, se tornou dono de todos os bordéis do meio-oeste americano. Passou boa parte de sua vida tentando descobrir o significado da letra "F" no seu nome, sem sucesso. Coolfeld Jr. defendia a inexistência de uma realidade palpável, com exceção do traseiro de sua vizinha mexicana Lolly Rodriguez, que era, nas suas palavras, "<em>palpável e beliscável</em>". Na prisão, onde passou 10 anos por porte ilegal de armas, Coolfeld criou as bases da sua Filosofia Moral, tentando desenvolver uma ética baseada na liberdade de cada um fazer o que bem entender da vida.<br />
Pensamento marcante: "<em>Há um sólido equilíbrio em todos os elementos do Universo, que une e dá sentido às coisas. Desde que você não tenha tomado sozinho uma garrafa de Bourbon.</em>"</p>]]>
      
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    <title>Queremos mais escândalos</title>
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    <modified>2008-05-12T01:51:26Z</modified>
    <issued>2005-08-05T19:39:04-04:00</issued>
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    <created>2005-08-05T23:39:04Z</created>
    <summary type="text/plain">Ontem, desci a rua da barbearia até um restaurante japonês. Esse restaurante é um achado e sempre que meu dia permite escapo pra lá atrás dos torôs (uma parte nobre do atum, espécie de filé mignon) e das vieiras (o...</summary>
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      <![CDATA[<p>Ontem, desci a rua da barbearia até um restaurante japonês. Esse restaurante é um achado e sempre que meu dia permite escapo pra lá atrás dos torôs (uma parte nobre do atum, espécie de filé mignon) e das vieiras (o molusco que vive dentro da concha da Shell). O torô é a melhor carne de peixe que existe, sério mesmo. Nos EUA chega a ser tão caro que existem contrabandistas especializados na mercadoria. E as vieiras são pérolas macias e luminosas de comer, com um gosto particular, diferente de tudo que estamos acostumados. Ela não parece carne, não parece peixe, não parece fruto do mar ou vegetal. A vieira é o único alimento do mundo que não permite analogias.</p>

<p>Mas lá descia eu a rua quando me ocorreu uma verdade rodrigueana, dessas que fazem o sujeito levantar o dedo indicador e falar sozinho no ponto de ônibus. A verdade é esta: o maior sinal da decadência da intelectualidade brasileira é a completa ausência de escândalos. Não escândalos de corrupção envolvendo dinheiro público (nisso somos bons), mas escândalos de costumes, escândalos culturais. Também não me refiro ao escândalo padrão Gerald Thomas, em que uma peça monótona tenta se salvar com a entrada no palco de uma velha paralítica de 92 anos pelada. Refiro-me, é bom deixar explicadinho, à Idéia Escandalosa, ao Conceito Escandaloso. Falo daquele ponto de vista que se choca frontalmente com o que as pessoas estão habituadas a pensar, com a <em>middle class morality</em> de Shaw, com a <em>conventional wisdom</em> de Keynes.</p>

<p>Vejam se vocês concordam ou não comigo. Não é trabalho do intelectual ficar repetindo e justificando o que todo mundo já pensa. Quem agrada aos outros é o comerciante, que tem a obrigação de atender o gosto do freguês. O intelectual tem o dever de mostrar o outro lado, de pensar diferente. O intelectual deve perseguir a classe média e ser perseguido por ela. Sua obrigação é escrever livros maledicentes, que façam as pessoas cuspirem no chão após dizer que acham tudo aquilo um absurdo, sem saber explicar exatamente o porquê. Os intelectuais não podem ter partido, agremiação ou clube. Têm que ser expulsos dos jornais, banidos das associações. O intelectual verdadeiro tem o primeiro dever de ser ele próprio. De se exagerar exponencialmente e de banir do seu espírito tudo o que é vulgar e convencional, até chegar a uma singularidade última e definitiva. Não há nada mais chocante e escandaloso do que um indivíduo pleno de si mesmo.</p>

<p>Eu respeitaria mais o Gianotti e o Comparato se, por exemplo, eles fossem flagrados numa suruba com 12 anãs acrobatas. Ou, sei lá, se fossem pegos vestidos em batas roxas, sacrificando cabras em um sítio a 90 km de São Paulo. Se fornicar com 12 anãs não é um sinal inequívoco de brilhantismo intelectual, pelo menos mostra que o homem tem lá suas inclinações pessoais, que não são o resultado monótono e previsível da média da opinião pública. Diogo Mainardi disse que o nosso intelectual padrão, mesmo quando é radical, é radicalmente a favor das obviedades. O Gianotti, por exemplo, é radicalmente a favor do fim da pobreza. Eu não. Gosto de pobres. Acho eles divertidos, especialmente aqueles que cospem fogo nos semáforos. Darcy Ribeiro fazia defesas inflamadas da superioridade da cultura do Brasil, segundo ele a Roma do mundo pós-moderno (detesto essa expressão pós-moderno, que está no meu rol de palavras odiosas como acalentar, destarte e arvorar-se; ignorem-na e troquem por atual ou contemporâneo, ok?). Comparato é radicalmente a favor do fim da exploração do povo brasileiro, que eu, só por birra, acho justa e defendo com unhas e dentes.</p>

<p>Certa ou errada, é impressionante como ninguém aqui é a favor da guerra do Iraque. Ninguém, nenhuma alma penada, acha que a cultura indígena é atrasada e que, ao invés de ganhar reservas, os índios deveriam ser - deixe-me ver como direi isso de uma forma deselegante -, <em>civilizados</em> o mais rápido possível. Ninguém é a favor do estado mínimo ou do Bush. As opiniões dos intelectuais brasileiros são exatamente as mesmas dos pedreiros brasileiros, só que com um vocabulário mais rico. E o máximo que eles conseguem fazer para nos escandalizar é produzir uma peça em que Hamlet é punk e mata Polônio com um lança-chamas.</p>]]>
      
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    <title>Livros</title>
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    <modified>2008-05-12T01:51:26Z</modified>
    <issued>2005-07-29T17:29:06-04:00</issued>
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    <summary type="text/plain">Pilares do tempo, de Stephen Jay Gould (Ed. Rocco): &quot;Não sou um crente. Sou um agnóstico no sentido sábio de T. H. Huxley, que cunhou o termo ao identificar o ceticismo tolerante como a única posição racional porque, na verdade,...</summary>
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      <![CDATA[<p><em>Pilares do tempo</em>, de Stephen Jay Gould (Ed. Rocco):</p>

<p>"<em>Não sou um crente. Sou um agnóstico no sentido sábio de T. H. Huxley, que cunhou o termo ao identificar o ceticismo tolerante como a única posição racional porque, na verdade, não há como saber ao certo. Mesmo assim, afastando-me das opiniões de meus pais (e livre, por minha própria criação, das razões de sua rebelião), tenho grande respeito pela religião. O assunto sempre me fascinou, talvez mais do que todos os outros (com poucas exceções, como a evolução, a paleontologia e o beisebol). Grande parte desse fascínio vem do surpreendente paradoxo histórico de que, ao longo da história ocidental, a religião gerou tanto os horrores mais inomináveis quanto os mais comoventes exemplos de bondade humana em face do perigo</em>".</p>

<p>Acho interessante a idéia de que ciência e religião não precisam disputar espaços. A ciência trata do mundo como ele <em>é</em>. A religião diz como ele <em>deveria ser</em>. A ciência <em>descreve</em>. A religião <em>prescreve</em>. A ciência nos mostra <em>como fazer </em>as coisas. A religião nos diz <em>o que fazer </em>com elas. Simples assim.</p>

<p>***</p>

<p><em>Freakonomics</em>, de Steven Levitt (Ed. Campus). A diversão desse economista é estabelecer correlações e causalidades entre fatos inusitadas. Só para vocês terem uma idéia, Levitt mostra que há menos probabilidade de um bandido ser morto no corredor da morte, onde apenas 2% dos condenados são executados por ano, do que em atividade nas gangues, que sofrem 7% de baixas anuais. Ou seja, ao condenar um bandido à morte estamos de certa forma diminuindo as chances dele ser morto. Tem também um estudo polêmico que relaciona legalização do aborto com queda dos índices de criminalidade, sobre o qual ainda não tenho opinião.</p>

<p>E Steve tem um blog: http://www.freakonomics.com/blog.php</p>

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<p><em>Contos ingleses</em>, de vários autores (Ed. Ediouro). Textos de Wilde, Shaw, Virginia Wolf, Conan Doyle, H. G. Wells, Chesterton, Maugham, Joyce, Huxley, Waugh etc. Traduzidos por Vinicios de Morais, Orígenes Lessa, Marques Rebelo, Sérgio Buarque, Afonso Arinos, Raquel de Queiroz etc. Coordenação: Rubem Braga. Apresentação: Vinicios de Morais.</p>

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<p>Algum desses deve servir pra vocês.</p>]]>
      
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