Engraçado como hoje as pessoas não ficam mais socialmente indispostas. No passado, fulano era convidado pra um sarau e declinava, porque havia acordado com um ligeira indisposição. Diante de um jantar na casa da avó da esposa ou de uma serenata, você poderia dizer que infelizmente não compareceria porque, pobre coitado, tinha sido acometido de uma súbita indisposição naquela tarde, preferindo ficar em casa de repouso. Falava-se em indisposição e isso era suficiente pra te dispensar do compromisso, sem ofender as suscetibilidades do anfitrião e sem provocar maiores perguntas.
E aí o meu ponto. O interessante da indisposição é que ela se situa em algum lugar indeterminado, numa zona cinzenta entre a simples vontade de não ir (tenho coisa melhor pra fazer) e os infortúnios que nos impedem de ir (como uma doença). Diante de um convite impertinente vindo de alguém que você não quer desagradar, a indisposição seria a justificativa perfeita, pois te poupa de dizer na cara dura que você não vai porque, por exemplo, acha o programa chato. Ao declinar por estar indisposto, você evita maiores explicações e reveste a sua ausência de um verniz de mistério, deixando o anfitrião sem saber se você está com um pé na cova ou se simplesmente prefere ver um documentário sobre a história no número um no Discovery Channel, na agradável companhia do seu buldogue.
O que se tem por estes dias, na melhor das hipóteses, é o genérico "xi, não vai dar, não estou me sentindo bem hoje". O problema é que o seu amigo vai se achar obrigado a perguntar o que está acontecendo, se você já procurou um médico e vai dizer que ele conhece um clínico geral ótimo e baratinho, amigo de um primo etc. etc., até pra mostrar algum interesse no seu estado de saúde. E você vai começar a se sentir incomodado, vai acabar perdendo a paciência e respondendo, como eu costumo fazer, que "não é nada muito grave não; é só uma diarréia forte que me pegou de surpresa, mas, tirando o excesso de flatulência, já está tudo sob controle", colocando um fim abrupto na conversa e ensinando o grosseirão que certas verdades são duras (ou moles) demais pra serem ditas.
Enfim. Dizer a verdade é uma das formas mais comuns de ofender alguém e, na minha humilde e correta opinião, a sinceridade é quase sempre uma grosseria imperdoável. Mas antes que os pudicos me puxem a orelha, admito que mentir também não é algo agradável, o que nos deixa como única alternativa a boa e velha dissimulação. A desculpa da indisposição é uma forma elegante de dissimulação. Há desculpas esfarrapadas, mas existem também as desculpas elegantemente trajadas, de fraque, cartola e gravata de seda. O fim da indisposição como justificativa plausível pra ausência em um compromisso social é a maior evidência do ocaso das boas maneiras nesses nossos tempos. Hoje em dia, se bobear, somos obrigados a falsificar um exame médico pra escapar da macarronada de domingo na casa de uma tia. Uma lástima.