Todas as autoridades acadêmicas vão concordar comigo: nada como uma citação obscura para ganhar uma discussão. Já vi debates serem ganhos com uma só citação em alemão, cujo significado exato nem mesmo o autor da frase deve ter entendido. Por isso, com o nobre objetivo de ajudar vocês, queridos leitores, a confundir seus parentes naquelas discussões no almoço de domingo, preparei uma lista com quatro nomes de pensadores solenemente ignorados pela patuléia-lúmpem em geral.
De lambuja, vai também uma frase ou pensamento marcante de cada um, que resume a visão de mundo desses homens incríveis. Comediantes e filósofos têm em comum, além da falta de dinheiro, a necessidade de punch lines para fazerem sucesso, na linha do penso logo existo, tudo que sei é que nada sei, sobre o que não se pode falar deve-se calar etc.
Tenho uma outra teoria, que diz que para cada frase de filósofo existe um ditado popular com a mesma idéia, só que mais direto e engraçado (por exemplo, sobre o que não se pode falar deve-se calar = em boca fechada não entra mosquito). Mas, sinceramente, não quero falar disso agora.
Hipócritas de Éfeso
Pré-socrático quase esquecido, tinha por hábito andar pelas ruas de sua cidade natal vendendo filosofias em dez vezes sem juros. Inventou um desencaroçador de azeitonas e diversos sistemas filosóficos de enorme sucesso na Grécia antiga, que vendia em sua barraquinha sem direito a troca ou garantia. Criador do bigode falso, da flor que espirra água e da dentadura de vampiro, Hipócritas é lembrado principalmente pelo golpe dado em Diógenes, que, após gastar todo seu dinheiro em uma metafísica que não funcionava, perdeu a crença nos homens de bem e resolveu morar num barril.
Pensamento marcante: "A dogmática é como um travesseiro gostoso e macio. Todo mundo devia ter a sua."
Ernst von Meistertube
Um dos maiores nomes da filosofia chinesa, foi o primeiro oriental a arriscar uma defesa convicta do ceticismo. Autor da Histólia da dúvida em quatlo ou talvez quem sabe cinco volumes e do Plováveis maioles nomes do ceticismo, né?, Meistertube sofria com as brincadeiras sem graça de seus alunos, que gostavam de puxar seus bigodes de chinês e sair correndo pela porta da sala de aula. Morreu pobre e esquecido, já que seus fiéis discípulos duvidavam de tudo o que ele dizia e se recusaram a ensinar sua doutrina.
Pensamento marcante: "Duvidem de tudo, seus bulos, menos de mim!"
François Marrecaux Vichisoise
Filósofo alemão ligado à escola Liebfraumilch. Seu nome foi uma brincadeira de mau gosto do pai, Karl Blicker, conhecido palhaço beberrão da região de Munique. Durante a segunda guerra foi perseguido na Alemanha, sempre apanhando por ser confundido com um francês. Fugiu para a França, onde levava surras homéricas por ter passaporte alemão. Criou um horóscopo próprio com referências aos 15 diferentes tipos de presunto da Baviera que, acreditava Vichisoise, representavam traços essenciais das personalidades humanas. Depois de tanto levar pancada na cabeça, desenvolveu um curioso sistema filosófico baseado nas propriedades espirituais do nabo forrageiro.
Pensamento marcante: "O na-na-na-bo forrageiro é-é lindo. Dã."
Abraham John F. Coolfeld Jr
Americano do Texas, quando criança passava a mão na bunda das amiguinhas de escola e encoxava a vó no tanque. Na juventude, se divertia jogando bolotas de estrume nas janelas dos vizinhos e, já adulto, se tornou dono de todos os bordéis do meio-oeste americano. Passou boa parte de sua vida tentando descobrir o significado da letra "F" no seu nome, sem sucesso. Coolfeld Jr. defendia a inexistência de uma realidade palpável, com exceção do traseiro de sua vizinha mexicana Lolly Rodriguez, que era, nas suas palavras, "palpável e beliscável". Na prisão, onde passou 10 anos por porte ilegal de armas, Coolfeld criou as bases da sua Filosofia Moral, tentando desenvolver uma ética baseada na liberdade de cada um fazer o que bem entender da vida.
Pensamento marcante: "Há um sólido equilíbrio em todos os elementos do Universo, que une e dá sentido às coisas. Desde que você não tenha tomado sozinho uma garrafa de Bourbon."
Ontem, desci a rua da barbearia até um restaurante japonês. Esse restaurante é um achado e sempre que meu dia permite escapo pra lá atrás dos torôs (uma parte nobre do atum, espécie de filé mignon) e das vieiras (o molusco que vive dentro da concha da Shell). O torô é a melhor carne de peixe que existe, sério mesmo. Nos EUA chega a ser tão caro que existem contrabandistas especializados na mercadoria. E as vieiras são pérolas macias e luminosas de comer, com um gosto particular, diferente de tudo que estamos acostumados. Ela não parece carne, não parece peixe, não parece fruto do mar ou vegetal. A vieira é o único alimento do mundo que não permite analogias.
Mas lá descia eu a rua quando me ocorreu uma verdade rodrigueana, dessas que fazem o sujeito levantar o dedo indicador e falar sozinho no ponto de ônibus. A verdade é esta: o maior sinal da decadência da intelectualidade brasileira é a completa ausência de escândalos. Não escândalos de corrupção envolvendo dinheiro público (nisso somos bons), mas escândalos de costumes, escândalos culturais. Também não me refiro ao escândalo padrão Gerald Thomas, em que uma peça monótona tenta se salvar com a entrada no palco de uma velha paralítica de 92 anos pelada. Refiro-me, é bom deixar explicadinho, à Idéia Escandalosa, ao Conceito Escandaloso. Falo daquele ponto de vista que se choca frontalmente com o que as pessoas estão habituadas a pensar, com a middle class morality de Shaw, com a conventional wisdom de Keynes.
Vejam se vocês concordam ou não comigo. Não é trabalho do intelectual ficar repetindo e justificando o que todo mundo já pensa. Quem agrada aos outros é o comerciante, que tem a obrigação de atender o gosto do freguês. O intelectual tem o dever de mostrar o outro lado, de pensar diferente. O intelectual deve perseguir a classe média e ser perseguido por ela. Sua obrigação é escrever livros maledicentes, que façam as pessoas cuspirem no chão após dizer que acham tudo aquilo um absurdo, sem saber explicar exatamente o porquê. Os intelectuais não podem ter partido, agremiação ou clube. Têm que ser expulsos dos jornais, banidos das associações. O intelectual verdadeiro tem o primeiro dever de ser ele próprio. De se exagerar exponencialmente e de banir do seu espírito tudo o que é vulgar e convencional, até chegar a uma singularidade última e definitiva. Não há nada mais chocante e escandaloso do que um indivíduo pleno de si mesmo.
Eu respeitaria mais o Gianotti e o Comparato se, por exemplo, eles fossem flagrados numa suruba com 12 anãs acrobatas. Ou, sei lá, se fossem pegos vestidos em batas roxas, sacrificando cabras em um sítio a 90 km de São Paulo. Se fornicar com 12 anãs não é um sinal inequívoco de brilhantismo intelectual, pelo menos mostra que o homem tem lá suas inclinações pessoais, que não são o resultado monótono e previsível da média da opinião pública. Diogo Mainardi disse que o nosso intelectual padrão, mesmo quando é radical, é radicalmente a favor das obviedades. O Gianotti, por exemplo, é radicalmente a favor do fim da pobreza. Eu não. Gosto de pobres. Acho eles divertidos, especialmente aqueles que cospem fogo nos semáforos. Darcy Ribeiro fazia defesas inflamadas da superioridade da cultura do Brasil, segundo ele a Roma do mundo pós-moderno (detesto essa expressão pós-moderno, que está no meu rol de palavras odiosas como acalentar, destarte e arvorar-se; ignorem-na e troquem por atual ou contemporâneo, ok?). Comparato é radicalmente a favor do fim da exploração do povo brasileiro, que eu, só por birra, acho justa e defendo com unhas e dentes.
Certa ou errada, é impressionante como ninguém aqui é a favor da guerra do Iraque. Ninguém, nenhuma alma penada, acha que a cultura indígena é atrasada e que, ao invés de ganhar reservas, os índios deveriam ser - deixe-me ver como direi isso de uma forma deselegante -, civilizados o mais rápido possível. Ninguém é a favor do estado mínimo ou do Bush. As opiniões dos intelectuais brasileiros são exatamente as mesmas dos pedreiros brasileiros, só que com um vocabulário mais rico. E o máximo que eles conseguem fazer para nos escandalizar é produzir uma peça em que Hamlet é punk e mata Polônio com um lança-chamas.