No Estado de São Paulo de ontem, Caderno Aliás (pp. J4 e J5), entrevista com Eduardo Giannetti da Fonseca. Na chamada, o jornal de cara distorce a principal afirmação do economista, atribuindo a ele a declaração de que "justo, lucro nenhum é" (p. J1). Quem lê a coisa meio desavisado, acha que o entrevistado estaria afirmando que todo lucro é injusto, na linha de um pensamento marxista ligado à idéia de mais-valia, exploração da classe trabalhadora etc. Um erro grosseiro, claro. Giannetti, defensor do mercado, evidentemente não pensa assim, e a chamada diz o oposto geométrico, a antítese do que se lê na entrevista.
Já na primeira resposta, Giannetti diz que "não existe uma idéia de lucro justo". Ou seja: o lucro não deve ser julgado com base em um conceito de justiça, mas sim conforme o procedimento de sua formação. O que há é uma diferença entre lucro legítimo (obtido com base nas leis de um mercado organizado) e o ilegítimo (obtido através de meios fraudulentos). Entre afirmar que 'a idéia de justiça não se aplica ao conceito de lucro' e que 'todo lucro é injusto' vai uma distância enorme, tão grande quanto aquela que separa o nosso jornalismo pastel de algo minimamente decente.
Não dá pra saber se é burrice ou canalhice d'O Estado de São Paulo. Talvez o problema seja o nome do jornal. Que tal mudar para O Mercado de São Paulo?
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Amostras da entrevista.
Sobre o papel do Estado
"A ordem de mercado existe justamente para impedir que a convivência econômica se torne uma guerra de todos contra todos. Países que tiveram dificuldade em construir isso institucionalmente viveram conflitos enormes. Veja o caso da Rússia, que é uma malsucedida transição do planejamento central para o mercado. Descambou em uma selva, onde as máfias dominam, em estreita ligação com o Estado. Mas esse modelo não tem nada a ver com uma economia de mercado - isso nós vamos encontrar, por exemplo, no Canadá, onde a pessoa, para ganhar a vida, tem um mercado organizado, o direito de propriedade assegurado, a legislação respeitada. É todo um arcabouço de normas para que o mercado funcione de acordo."
Sobre a intelectualidade (marxista) brasileira
"Em nenhum país do mundo a intelectualidade é muito amistosa com o mercado e com a disciplina que ele impõe. Porque o mercado, quando funciona, nos obriga a uma coisa muito simples: se você quer ter uma renda e viver bem, tem de oferecer algo em troca, cujo valor a sociedade reconheça voluntariamente. Isso, para um intelectual, é muitas vezes complicado, especialmente no Brasil. Até porque muito da intelectualidade brasileira sempre vive à sombra do Estado, em um parasitismo vergonhoso, com muitas sinecuras e facilidades mal explicadas. Muitos artistas e intelectuais acham que o Estado lhes deve uma mesada."
Sobre os lucros das empresas
"É lógico que a empresa tem de ser rentável. Se não for assim, está fazendo algo errado, porque os recursos nela aplicados não estão encontrando eleitores que os legitimem. Numa ordem de mercado, a conquista desses eleitores se dá pela eficiência que consegue baratear preços, ou pela inovação. Assim, esse mercado estimula milhões de cérebros a ser mais eficientes e mais inovadores - e premia isso com lucro. Esse estímulo poderoso levou um operário moderno a ter acesso a bens de consumo que deixariam um aristocrata em Versalhes babando de inveja. Os nobres tinham dores de dente infernais. Não havia anestesia, escova, nem pasta de dentes. Hoje, qualquer cidadão comum tem acesso a isso. O mercado gerou uma máquina imbatível de solucionar problemas."
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Frase para a posteridade, que pensei no banheiro:
O Estado é uma máfia.
O brasileiro é um socialista de fachada. Somos a favor de políticas sociais e distributivas, mas sonegamos desavergonhadamente impostos. Como meu vizinho, o Dr. Clélio. O Dr. Clélio é médico e deve pesar uns 150 quilos, por baixo. Com voz de barítono, esbraveja em defesa das minorias oprimidas, blasfema os ricos, propagandeia a caridade. Da porta do consultório pra fora, é petista. Defensor das causas sociais. A favor de um Estado atuante, que limite os excessos do mercado. Da porta pra dentro, não emite uma nota fiscal, não declara a própria renda, não registra os funcionários. É um fora-da-lei fiscal. Ele e sua família vivem de um clandestino, porém polpudo e obeso caixa dois. Dr. Clélio é o socialista sonegador, uma figura paradoxal e hipócrita, que exige do Estado uma missão e ao mesmo tempo nega os meios para que ele a cumpra.
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No passado, vivíamos a famigerada inflação. Todos concordam que a inflação é algo pernicioso. Todos, menos o brilhante professor e jurista (sempre eles) Fábio Konder Comparato, cuja emérita inteligência vê na desordem monetária uma causa de desenvolvimento (vide artigo da pág. 02 de domingo do Estadão; no próximo post vou falar disso). A inflação é a manifestação externa de nossa hipocrisia. Sem dinheiro no caixa pra pagar as contas, o Governo se utilizava a saída ilusionista de inventar riqueza. Todo mês pulava um coelho branco da cartola orçamentária da União, pagando jetons aos passantes. Saída imediatista e estelionatária, a inflação ainda assim era considerada solução melhor do que o corte de despesas públicas ou, algo trágico, pôr fiscais na rua cobrando impostos. Sim, porque o verdadeiro brasileiro socialista, como o Dr. Clélio, não paga impostos. O socialista brasileiro, ao mesmo tempo que pede investimentos no social, sonega até o seu último centavo de real, sem um pingo de remorso. E assim seguia a hipocrisia do nacional. O brasileiro fingindo que pagava impostos, o Governo fingindo que gastava dinheiro de verdade.
Após chegarmos a uma inflação de 40% ao mês, que nos obrigava a comprar pão francês com cheque, decidimos parar com a brincadeira. Sem a inflação, o coelho e a cartola, o Governo passou a buscar recursos onde eles de fato existem, ou seja, no nosso bolso. Só no ano passado, o número de autos de infração da Receita Federal (espécie de notificação de cobrança com multa para quem é pego sonegando) cresceu 40%. Este ano, dizem, a coisa vai piorar. Além de cobrar o passado inadimplido, novos impostos estão sendo criados e velhos impostos estão sendo majorados. Confrontado com a óbvia realidade, de que socialismo se faz não com boa intenção, mas com o meu, o seu, o nosso dinheirinho, o brasileiro se vê num dilema. É a favor do Estado, mas contra os impostos. Aos poucos, esse ser bifronte começa a perceber que a brincadeira custa caro e, para valer a pena, tem que apresentar resultados. E os resultados do Estado são greves, pontes rodoviárias desabando, corrupção endêmica etc.
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Sempre disse: cobre imposto de um socialista e ele mostrará a sua verdadeira cara. No jornal, vejo artistas de TV fazendo manifestações públicas contra a carga tributária. Mil entidades de classe se reuniram em São Paulo, não para reclamar da pobreza, da desigualdade, da violência, do imperialismo americano, ou para dizer que um outro mundo - de magia, sonho e fantasia -, é possível. Atores e entidades se reuniram para dar um basta na carga tributária, ou seja, em português claro, para dar um basta no Estado. Para mim, esta é a notícia mais impressionante dos últimos anos, muito mais que a eleição de um outro clientelista nordestino para a presidência da Câmara Federal. Nunca vi algo assim. O liberalismo nunca encontrou espaço no Brasil. O brasileiro liberal sempre foi a verdadeira e única minoria deste país. Discriminada, humilhada, ridicularizada, perseguida. Conheço multidões que se declaram a favor do casamento gay. Filas e filas intermináveis de simpatizantes do comunismo e da raça negra. Agora, me mostre um liberal convicto, ache alguém que seja contra políticas assistencialistas e a favor de um Estado mínimo. Esses praticamente não existem. Eu mesmo só conheci dois gatos pingados, que na faculdade não podiam abrir a boca sem serem repreendidos por colegas e professores.
Repito: os liberais são a única minoria deste país. Eles, sim, merecem um dia do orgulho liberal, uma passeata do orgulho liberal, um grupo de defesa do orgulho liberal.
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Mas o fato é que a conta do Estado está chegando, na forma de medidas provisórias e autos de infração. Eu, você e nem mesmo o socialista brasileiro querem pagá-la. Se, para desgosto do prof. Comparato, a inflação não voltar, a única saída será reduzir o tamanho do Estado, o que me leva a acreditar que, talvez, o futuro reserve mais espaço para os liberais. E nesse dia, o Dr. Clélio, até então socialista sonegador, poderá finalmente ‘liberar’ a franga, sair do armário e dar um belo dum pontapé no traseiro do fiscal da receita que baterá na sua porta.
Por que trabalho? Pra juntar dinheiro e parar de trabalhar. Me esforço em nome da indolência. Me dedico em prol do sossego. Invisto pesado na preguiça. Trabalho duro pra, um dia, virar vagabundo.
Contradição 1 - E o PT vai mesmo tirar o Fórum Social de Porto Alegre. Vingancinha baixa contra uma população inteira, que ousou não votar no Partidão. A desculpa, parece piada, é que o Fórum precisa se espalhar pelo mundo. Ou seja: o PT quer globalizar o Fórum antiglobalização. Pode?
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Contradição 2 - Outra boa é o 'txai', moeda criada para intermediar as trocas durante o Fórum. Ninguém falou mais nada e queria saber qual foi o saldo da experiência. Se o Fórum colocar em prática suas idéias socialistas, o 'txai' já estará inflacionado no encontro do ano que vem. A organização terá de cortar três zeros e criar o 'txado', nova moeda forte. Depois virá o 'txado novo' e finalmente o 'txado real'.
Para piorar a situação, investidores ligados a Davos promoveriam ataques especulativos, obrigando a organização do Fórum a criar um Banco Central independente, que faria uso de políticas monetaristas ortodoxas, cortando gastos e aumentando juros para proteger o 'txai' da má influência capitalista.
Tudo, claro, em nome do socialismo utópico.
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Contradição 3 - Dizem também que, apesar de ser anticapitalista, o Fórum é um excelente negócio. Uma espécie de Disney comunista, em que os idiotas, ao invés de usarem chapeuzinho do Mickey, saem com camisetas de Che Guevara. O evento movimenta uma fortuna e Porto Alegre, ao festejar o ideal socialista, acaba sem querer fazendo uma pequena festa capitalista. Capitalismo é assim mesmo, sai sem a gente perceber. Já comunismo é uma desgraça, ninguém pratica nem sob ameaça de morte.
Nos painéis de debate, os participantes do Fórum defendem o fim do mercado, a falência do capitalismo, a abolição da propriedade privada e o confisco de grandes fortunas. No intervalo, aproveitam para tomar uma coca-cola (diet), comer um x-burguer (capricha no catchup) e, se bobear, pegar um cineminha. Um do Walter Salles, que mostre, com fotografia impecável, gente miserável e sofrida.
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Contradição 4 - E me pego neste segundo pensando onde comunistas gastam seu dinheiro. Nunca contei a vocês, mas no período que passei na Fefelixo (vulgo FFLCH - USP) iniciei um estudo sobre os hábitos de consumo comunista. Além de comida, transporte e estadia (42%), parte era gasta em chinelas havaianas (8%), batas (6%), incenso (2%) e camisetas de protesto (7%).
De surpreendente, dois resultados. Primeiro, nem um centavo para instituições de caridade, creches, asilos. Ou seja: comunista quer fazer caridade com o chapéu alheio. Segundo, 35% do orçamento iam para maconha.
O resultado da pesquisa virou a minha tese "O maconhunismo: drogas e movimentos sociais" (2000, 260 pgs), que prova por "a" mais "b" que a sobrevivência do pensamento marxista no mundo se deve apenas ao consumo da 'cannabis'. Sério. Acabe com a maconha e o comunismo vai junto. Todo comunista que conheci até hoje era um belo dum maconheiro, um dependente químico de movimentos sociais.
Já viram os olhinhos apertados do Lula? E os dedos amarelos do Zé Dirceu? E as FARC?
Acreditem: os caras estão, literalmente, viajando.