"Partilho da idéia dos senhores de que uma economia socialista possui vantagens que contrabalançam inquestionavelmente suas desvantagens, sempre que a administração alcance, pelo menos em certa medida, padrões adequados. Sem dúvida, virá o dia em que todas as nações serão gratas à Rússia por ter demonstrado pela primeira vez, mediante uma ação vigorosa, a possibilidade prática de uma economia planejada, a despeito de dificuldades extraordinariamente grandes. Acredito também que o capitalismo, ou antes, o sistema da livre iniciativa, se provará incapaz de controlar o desemprego, que se tornará crônico cada vez mais em decorrência do progresso técnico, e incapaz de manter um equilíbrio saudável entre a produção e o poder de compra da população." (Albert Einstein, em resposta a uma carta aberta de Sergei Vavilov, A. N. Frumkin A. F. Jofee e N. N. Semyonov, destacados cientistas da antiga União Soviética)
Se isso é ser gênio, prefiro a minha destacada mediocridade.
- Sabe que o senhor às vezes é genial.
- Eu?!! (Porfirio, visivelmente insatisfeito com o comentário, tenta arrumar o cabelo e ajustar o nó da gravata) Genial?? Como assim?? (olha no espelho procurando algum defeito) Phipps! Eu sou saudável e belo demais para ser um gênio!
- Não quis dizer isso, senhor. Quis apenas elogiar o seu senso de humor, sem ofende-lo é claro.
- Mas acabou ofendendo, Phipps. Acabou ofendendo. (arruma o cabelo e ajusta a gravata mais uma vez) Gênio... O que você está insinuando? Já sei! São essas novas gravatas italianas! São tão feias assim? (desfaz o nó e tira a gravata)
- Não, senhor.
- (Porfirio olha feio enquanto procura uma nova gravata) Á! É o novo corte de cabelo!
- Não não, senhor. Cabelos curtos combinam com o verão.
- Então eu não entendo... Qual a razão desse comentário desagradável?
- Nenhuma em especial, senhor. Eu apenas quis (...) me permite uma pergunta, senhor?
- Sim, mas cuidado com o que vai dizer...
- Os gênios não podem ser belos e saudáveis?
- (Porfirio explode em risos) Phipps! (risos) Belos e saudáveis! (risos e mais risos)
- Não compreendo, senhor.
- (risos) Á, Phipps. (enxuga lágrimas dos olhos com um lencinho) Os gênios são sempre feios, meu amigo. Sempre. São horrorosos, descabelados e mal vestidos. Não usam gravatas de seda, nem sapatos italianos. Não dirigem conversíveis, nem comem ostras. E são, além de tudo, uns grosseirões. Um gênio é uma figura oposta à de um gentleman. Se não for, há algo de muito errado ou com a sua genialidade ou com a sua sofisticação. Um gênio é invariavelmente um ser mal-educado e indiscreto. E ter um arroubo de genialidade é a maior gafe que se pode cometer na vida. Sabe de uma coisa, Phipps? A genialidade não me atrai em nada. Na verdade na verdade, evito a todo custo ser brilhante.
- Mas, se me permite, ao que me consta o senhor admira os grandes homens. Ontem mesmo o senhor não estava cantarolando Mozart, imitando Papageno aos pulinhos na varanda da sala?
- (intrigado com a bisbilhotice) Estava sim. Por sinal, onde estão os meus sininhos?
- Na terceira gaveta à direita, senhor. E anteontem mesmo não o flagrei às gargalhadas com o Marido Ideal, lá na biblioteca.
- Não era o Marido Ideal. Era o Burgeois Gentilhomme.
- Sim, Burgeois Gentilhomme. Agora me diga, senhor, com sinceridade. Esses pulinhos e gargalhadas não são sinais de uma admiração verdadeira?
- Com sinceridade, Phipps? Tem certeza? Você sabe que todos os grandes crimes foram cometidos por pessoas que resolveram ser sinceras, não?
- Sei, senhor. Mas são ou não sinais de admiração?
- São claros sinais de admiração. Admiração pelas obras, não pelos autores. Quanto mais grandiosa a obra, mais desprezível o autor. O problema é o seguinte, Phipps. Todo grande gênio sofre de uma disfunção ótico-mental: sua excelente visão para as distâncias do tempo o impede de enxergar as coisas mais imediatas. O pobre coitado escreve romances atemporais, mas não consegue pagar a conta de luz. Cria sistemas filosóficos inteiros, mas não inventa uma boa cantada para conquistar a mulher amada. Os gênios são assim, hipermétropes intelectuais. São capazes de contemplar paisagens inalcançáveis, mas passam a vida de canelas roxas, tropeçando desajeitadamente em degraus, tapetes e mesinhas de centro. De que adianta ter um binóculo, se a humanidade vive dentro de uma quitinete?
- (risos contidos) Mas e a tentação de produzir grandes obras para a posteridade, senhor? De ser lembrado pelas gerações futuras?
- (faz uma careta e começa a colocar uma outra gravata) Pra que desperdiçar a sua vida criando obras que só serão compreendidas um século depois, quando já vamos ter batido as botas? (com o dedo indicador balançando no ar) Esse é o problema. Por ser incompreendido, o gênio ganha pouco, come mal e bebe pior ainda. As mulheres os desprezam, já que a mulher é o animal mais pragmático que existe e o gênio o seu oposto: um ser desprendido de tudo o que realmente importa na vida. O gênio sacrifica o seu presente em prol de uma posteridade que ele não vai conhecer. Em prol de completos desconhecidos. E a posteridade é uma multidão anônima, que fica exigindo antecipadamente invenções para facilitar as suas vidas, livros para se divertirem e quadros para decorarem suas casas. Um bando de insolentes preguiçosos, isso sim, essa tal posteridade. (termina o nó da gravata)
Entra a noiva de vestido longo.
- Estamos atrasados, amor. Que demora é essa? Resmungando sobre a posteridade de novo?
- (manda um beijinho para a noiva) Veja você, minha querida. Eu não trabalho nem para ajudar meus melhores amigos, mas o velho Phipps quer me convencer a trabalhar para a posteridade!!! (risos)
- Não foi isso, senhor...
- A última coisa que quero é ser brilhante. Toda vez que tenho uma grande idéia, finjo que nada aconteceu. Guardo o pensamento só para mim, ao lado das meias Gallo, ali, na segunda gaveta, logo abaixo dos meus sininhos de Papageno. Depois disfarço e saio assobiando. Posteridade... Vai saber quem serão essas pessoas? E se forem um bando de nazistas truculentos? E se virarmos uma civilização de vagabundos, racistas ou maníacos pedófilos?
- Vamos embora, amor?
- Onde está minha cartola? (coloca a cartola) Adeus, Phipps. E se alguém da posteridade ligar, diga que saí para desperdiçar meu tempo com coisas fúteis.
Era um grupo de guerrilha revolucionária, conhecido por GL (Grupo da Liberdade). O objetivo era implantar o liberalismo na América Latina. Tinham se conhecido no dia seguinte à vitória do Lula para a Presidência. Quando souberam do resultado, os 7 membros fundadores tiveram a mesma idéia: correr até o Empório Santa Maria para defendê-lo da invasão comunista. O Santa Maria, para quem não sabe, é o melhor mercado de São Paulo, um empório de iguarias importadas freqüentado por quem tem muito bom gosto e algum apetite (além de dinheiro). O Santa Maria seria, nas palavras de um deles, o último bastião de resistência da elite capitalista do Brasil:
- Você acha mesmo que eles virão?
- Podem até tentar, mas não vão conseguir. O empório está cheio de armadilhas.
- Armadilhas?
- Espalhamos pistache na porta principal. Quem entrar por ali vai escorregar e cair de cabeça no chão. Aí os soterraremos com pacotes de 3 quilos de polenta italiana. Temos tudo planejado.
- E o que você está fazendo deitado no chão, com esse salmão na cabeça?
- É camuflagem.
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O empório não foi invadido, mas o grupo que lá nasceu continuou a se reunir. O líder usava o codinome Miltão, em homenagem a Milton Friedman, o economista. Todas as reuniões eram realizadas na sede do movimento, um iate de 80 pés atracado em alguma das ilhas de Angra dos Reis. O nome da ilha nunca foi revelado, dizem, por medo de represálias do Governo Federal. As esposas dos rebelados, no entanto, desconfiavam que o esconderijo se prestasse a outras práticas menos nobres, como estripetizes e bebedeiras. Mas o fato é que os 7 compareciam mensalmente à sede para discutir as formas de ação do grupo, o futuro do liberalismo e para pegar um solzinho, se desse tempo.
Antes do início de cada reunião, Miltão, de sunga e copo de uísque na mão, gritava o lema do movimento ("liberdade, nem que seja na marra!!"), que era repetido por todos em um entusiástico coro, inclusive pelas meninas de topless que vez e outra apareciam. A composição do grupo era heterogênia e os membros só se conheciam pelos codinomes. Além das meninas, tinha o Miltão, que era economista formado em Chicago, dono de uma consultoria para investidores estrangeiros. Marcos, Leo e Campos (este em homenagem ao Roberto) eram advogados, donos de grandes escritórios. Cacique e Bilão (únicos que tinham uma relação fora do grupo) eram sócios em um fundo de ações e o Mauro, podem acreditar, era jornalista. Todos - com exceção do jornalista, claro, e das meninas de topless - eram ricos e ganhavam dinheiro graças ao livre mercado.
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O grupo logo começou a enfrentar problemas. Um dos que apareceu foi o do financiamento.
Como conseguir dinheiro para a causa? No início pensaram em assaltar algum banco. Mas o problema é que os donos de todos eles eram amigos ou conhecidos de alguém do grupo. Não dava para assaltar um conhecido, além do que o movimento simpatizava com a atividade bancária, essencial para o bom funcionamento do mercado. Ia ser um tiro no pé. Pensaram também em seqüestrar um embaixador qualquer e mantê-lo em cativeiro até o pagamento de um resgate substancial. Mas o Cacique observou que não era muito coerente para um movimento que defende a liberdade manter alguém preso em cativeiro em nome da causa. Mesmo que esse cativeiro, como sugeriram, fosse uma suite-master do Renaissance.
Bilão, que trabalhava no mercado financeiro, deu a idéia de transformar o grupo em uma S/A, abrir o capital e emitir ações no mercado mobiliário. Assim o movimento poderia se sustentar daquilo que ele mesmo defende, o livre mercado, pagando pelas atividades libertárias e ainda por cima dando um exemplo prático de sucesso empresarial. A idéia foi bem recebida no começo, mas foi logo abandonada por causa do nome. O GL teria que virar GLS/A e poderia ser confundido com alguma entidade ativista gay, o que, definitivamente, não era o caso. Além disso, para emitir ações na bolsa o GLS/A teria que informar o endereço de sua sede em Angra e publicar balanços anuais, o que impediria as despesas com as meninas e o uísque, unanimemente reconhecidas como essenciais para a causa libertária.
A solução encontrada foi provisória. Dividiriam as despesas na proporção do poder aquisitivo de cada um. O Miltão cederia o iate e o Marcos pagaria o diesel. O Cacique e o Bilão trariam as meninas, sem sutiã, para economizar. O Leo e o Campos entrariam com o uísque 15 anos. E o Mauro ficaria encarregado do amendoim japonês.
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Mas o grande problema foi identificar o tipo de ação terrorista compatível com a causa libertária.
Da mesma forma que não dava para seqüestrar ninguém em nome do capitalismo-liberal, também não dava para roubar, invadir propriedades, extorquir ou matar em nome da liberdade. Toda e qualquer atitude terrorista seria uma contradição aos ideais do grupo. Essa incompatibilidade afastou a maioria das propostas, como uma do Campos, que tinha conquistado a simpatia do grupo, de colocar bombas nos prédios projetados pelo Niemeyer. São feios, mas têm dono, dizia o Leo. Miltão, o único solteiro (na verdade divorciado), pensou numa inofensiva passeata com trezentas mulheres de topless na Av. Paulista, pedindo a autonomia do Banco Central e a entrada do Brasil na ALCA. Os demais membros, todos bem casados, não aceitaram por razões óbvias.
Dizem que para converter um país ao comunismo é necessário prender metade de seus cidadãos e explodir um terço dos seus prédios. Para convertê-lo ao capitalismo, basta espocar uma champagne. Inspirados por essa frase anônima (que está pendurada na sede do grupo), hoje os membros do GL resumem suas atividades basicamente a sair no iate do Miltão, tomar sol e beber uísque 15 anos cercados de belas garotas. Pode parecer pouco, mas essas ações angariaram mais adeptos à causa do capitalismo-liberal do que os homens-bomba conseguiram para a causa palestina. O que, cá entre nós, era mais do que esperado. Afinal, mais vale uma safada na mão do que 12 virgens no paraíso.