Já disse aqui que a diferença entre alguém burro e alguém inteligente é que o inteligente faz perguntas e fala pouco. Gente burra não pergunta nada e ainda por cima fala pelos cotovelos. Não sei se você, leitor, já notou, mas a Natureza fez questão conjugar à pouca inteligência uma enorme disposição em falar. Uma combinação, para dizer o mínimo, infeliz. Na minha humilde e sempre correta opinião, gente que fala demais é o maior problema do mundo, seguido da fome e do buraco na camada de ozônio.
Mas eu tenho um segredo pra contar pra vocês. Desenvolvi uma técnica infalível para lidar com gente que fala demais. Sério, infalível. Com algum treinamento mental, o iniciado nesse revolucionário método consegue fingir, de maneira imperceptível aos leigos, que está participando ativamente de uma conversa insuportável, mesmo sem prestar quase nenhuma atenção. A teoria é de uma simplicidade assustadora, mas é necessário algum treino para colocá-la em prática.
A idéia é simples. Você sorri, cumprimenta a vítima de logorréia naturalmente e espera que ela desembeste a falar. Toda a vez que houver uma pausa no monólogo (denominadas "pausas estratégicas para intervenção interlocutória"), você repete a última frase que ela disse. Só isso. É só repetir a última frase, às vezes com alguma mudança de entonação, pra não dar na cara, e você cria a ilusão de que está participando da conversa. A aparente simplicidade embute um elevado nível de autocontrole: ao mesmo tempo em que entorpecemos a mente e começamos a pensar em outros assuntos mais relevantes (criacionismo, o sentido da vida ou o cardápio do jantar), precisamos prestar uma atenção mínima à diarréia verbal, para percebermos o momento exato de soltar a frase (ou "teaser" no jargão técnico).
Vejam o exemplo abaixo.
INTERLOCUTOR
- Ô Porfirio! Saudades, rapaz! Faz tempo, hein? E as coisas? (dá um desagradável tapa nas costas)
PORFIRIO
- Tudo tranqüilo. E a família?
INTERLOCUTOR
- A família vai bem! Muito bem! Ontem cheguei em casa e Fulaninha (irmã) estava dormindo no sofá, e meu cachorro latiu por que o vizinho fez barulho na varanda. Minha irmã é um saco. Todo dia ela acorda 5 da manhã pra ir no banheiro e deixa tudo molhado, o tapetinho fica parecendo um pano de chão e (...depois 15 minutos de fala ininterrupta, já perdendo o fôlego..) daí chegou o encanador com aquele macacão ridículo, sabe?, por que o cano estava furado mesmo. (pausa estratégica para intervenção interlocutória)
PORFIRIO (lendo uma revista escondida embaixo da mesa)
- O cano estava furado mesmo.
(Percebam aqui como o "teaser" não diz nada, mas cria a ilusão de uma participação ativa.)
INTERLOCUTOR
- Todo furado! E o cara queria me cobrar os olhos da cara por que a água já estava chegando no vizinho de baixo com todas aquelas goteiras e manchas e (...depois de mais 15 minutos de fala ininterrupta, já meio sôfrego...), bem, aí tive que vender o diabo do carro, todo batido, do jeito que estava. (pausa estratégica para intervenção interlocutória)
PORFIRIO (terminando a leitura de Ascensão e queda do império romano, também escondido embaixo da mesa)
- Todo batido, do jeito que estava...
INTERLOCUTOR
- Ce vê só! Do jeitinho que estava! Claro que o preço foi baixo e o safado do motorista do táxi (...e assim vai...).
Tentem, por que funciona. Juro a vocês que minha vida mudou depois de descobrir a revolucionária técnica. Tenho mais disposição para festas, casamentos e reuniões de família. Tentem, tentem.
O trabalho embrutece. Enquanto somos crianças vivemos de favores e doações, e por isso acreditamos na caridade humana, apesar de não sermos, enquanto crianças, nada caridosos. Depois que ficamos mais velhos descobrimos que a prosperidade vem da oportunidade e que o homem próspero é, por definição, um oportunista. Também descobrimos que vida deve ser bem gerenciada, e que o cálculo preciso dos custos e receitas está na raiz da riqueza e da felicidade. Assim, descobrimos que o homem próspero e feliz, além de oportunista, é também um calculista, e dos frios.
Amadurecer é começar a trabalhar e a grande, talvez única, diferença entre um adulto e uma criança é que o primeiro depende de seus próprios meios para viver e o segundo vive da generosidade dos outros. O adulto vive do amor próprio e a criança vive do amor alheio. Em diferentes proporções e com diferentes graus, amadurecer significa sair de um estágio de ingenuidade contemplativa para uma nova posição, em que a caridade e o altruísmo desempenham um papel quase irrelevante, solapados pelas necessidades prementes e pelas cotoveladas que damos e levamos em busca de algum espaço. Essas cotoveladas são o trabalho da vida adulta. E é uma pena termos que trabalhar para conseguir dinheiro. Sim, por que o dinheiro, principalmente o dinheiro fácil, ganho sem muito esforço, abre o espírito, refina os modos e financia educação. Mas o dinheiro ganho com trabalho duro é amaldiçoado. Vem contaminado com ganância e avareza, é o produto do embrutecimento de nosso espírito e o prêmio final pelo consumo de todo nosso precioso tempo.
Foi Fernando Pessoa (me corrijam os literatos) quem criou o banqueiro anarquista. Acusado de ser uma contradição ambulante - não há nada menos anárquico do que ter um banco - o banqueiro anarquista se defendia dizendo que o dinheiro escraviza o homem e que a única forma de se libertar dessa obsessão era possuindo-o em grandes quantidades. O que em parte coincide com a lição de meu herói predileto, o velho Alfred P. Doolittle, que em My fair lady tentou negociar por dinheiro a sua própria filha. Diante da proposta vil, o Prof. Henry Higgins pergunta se o velho Doolittle não tinha alguma moral. "Moral? I can't afford it!". Nesta última frase, quatro palavras que valem um tratado sobre o ceticismo.
O dinheiro é uma espécie de lixa bem fina, que em mãos erradas arranha coisas belas, mas nas mãos certas apara as arestas de nossa educação e reduz as imperfeições de nosso caráter. O problema é que as pessoas desperdiçam a maior parte do seu tempo atrás de riquezas, e se esquecem de aprender como gastá-las.
Sofisticação exige muito dinheiro e pouco trabalho, eis a última das contradições de nosso tempo.
Na sala do chá, Porfírio está sentado à mesa do café, aguardando o serviço. Sobre as largas tábuas de carvalho, dois belos tapetes persas vermelhos estão estendidos em paralelo, as franjas douradas se tocando. Ao lado da lareira apagada, duas almofadas de veludo. Sobre uma delas descansa Tião, o buldogue da família. Phipps entra com uma bandeja de prata. Carrega dois bules, um jogo de xícara e dois delicados pratos de porcelana.
- Bom dia, senhor.
- Bom dia, Phipps. Você viu? Mais uma manhã de sol, dessas que imploram para não irmos ao trabalho.
- Mas o senhor não trabalha.
- Claro, exatamente porque nesta terra faz muito sol. Climas tropicais não são adequados ao trabalho. Apenas ao relaxamento e à indolência inconseqüente e improdutiva. Este país nasceu como uma colônia penal, mas nossa vocação sempre foi a de colônia de férias.
- Mas quando estávamos em Londres o senhor se recusava a trabalhar por causa do frio.
- Que também é inadequado ao trabalho. É engraçado como o trabalho é inadequado para quase tudo. É indiscreto e inoportuno. As pessoas falam em oportunidade de trabalho, mas temos aí uma das mais divertidas contradições em termos. O trabalho é sempre inoportuno. É o tipo de coisa que não combina com nada. Na verdade, trabalho só combina com cavalos. Não com os de raça, é claro. Não acha, Phipps?
- Claro, senhor.
- Ótimo, adoro que concordem comigo logo pela manhã. A tarde é mais adequada para as discórdias. Trouxe as torradas e o queijo chèvre?
Phipps coloca o prato, o copo e a xícara, dois garfos, duas facas e uma espátula de patê à frente de Porfírio. Serve as torradas, o queijo chèvre e o chá de frutas vermelhas. Porfírio esfrega as mãos.
- A comida sempre melhora meu humor (dá um gole na xícara de chá). Mas mudando de assunto, ontem compareci a mais uma das festas da Teresa.
- A bela ruiva?
- Sim, a bela ruiva. A bela ruiva e suas tediosas festas. É engraçado como as pessoas gostam de parecer íntimas umas das outras em ocasiões sociais. Abraçam estranhos. Beijam desconhecidos. Se Stalin chegasse naquela recepção, ganharia imediatamente um apelido (Tatá), uma taça de porto, e sentaria na sala de charutos para ouvir piadas. Nessas festas as pessoas tornam-se íntimas de qualquer um que apareça, o que nos dá um novo exemplo divertido de contradição em termos: a intimidade pública.
- Mas a intimidade pode ser boa quando oferecida às pessoas certas.
- Como? (Porfírio morde uma torrada com chèvre)
- Eu disse que alguma intimidade, para com as pessoas certas, pode ser boa. Não sei se o senhor concorda mas...
- Phipps, Phipps. A intimidade quase nunca é algo bom. Ter intimidade é se sentir à vontade, é se mostrar. É (fazendo trejeitos de uma pessoa estúpida) a liberdade de ser quem a gente é. Não vejo vantagem alguma em ser quem a gente é o tempo inteiro. Às vezes me canso de mim mesmo e procuro me evitar a todo custo. Nem sempre gosto de quem sou e a idéia de sair por aí me exibindo, ainda mais para pessoas que admiro, é desagradável (dá mais um gole de chá). Você costuma se despir na frente de pessoas estranhas?
- Não, senhor.
- E na frente dos amigos?
- Só quando estritamente necessário.
- Então. As formalidades são as vestes do caráter. Você não pode simplesmente sair por aí arrancando as calças de sua personalidade na frente dos outros. A não ser que seja estritamente necessário.
- Mas quando quer, o senhor consegue se soltar um pouco.
- Quando quero ser inconveniente, Phipps. Entenda uma coisa. As formalidades são delicados mecanismos desenvolvidos após séculos de convívio social, com o fim exclusivo de nos proteger uns dos outros. Quando pedimos licença, evitamos um esbarrão. Quando convidamos uma garota para jantar, a poupamos de um assédio. Quando vestimos uma gravata, demonstramos respeito e consideração para com os outros. Só as gravatas salvaram mais vidas neste mundo do que todos os pacifistas juntos. Por isso tudo, quanto mais gostamos de alguém, mais cuidadosos e formais temos que ser. Já com as pessoas que desgostamos, estas sim merecem conhecer nossos defeitos, excessos e caprichos, ou seja, merecem toda a nossa intimidade.
Se nós não tentássemos ser tão bons, poderíamos nos tornar muito melhores.