setembro 29, 2004

Minha amiga chique

Assim como o DGR, eu também tenho uma amiga chique. Chama-se Dani e me foi apresentada pela minha (igualmente chique) noiva. Domingo passado tive o privilégio de comparecer à sua festa de aniversário. Festas boas são um problema. Um ótimo espumante servido com abundância tende ao desastre. Dizem que nascemos duas doses abaixo do normal. Pelos meus cálculos, nasci quatorze doses abaixo do normal e o problema é que sempre acabo perdendo a conta no meio do caminho. Nessas festas, a comida e os petiscos também exigem um exagero, coisa que minha protuberância abdominal não anda permitindo. Ontem fiquei em estado de choque quando o porteiro do prédio onde moro sugeriu que eu começasse a malhar um pouquinho, "nem que seja pra ficar mais disposto". Expliquei a ele que o abdômen volumoso é um sinal distintivo de minha posição social, privilegiada com o ócio remunerado, mas o insurgente insinuou que eu ia "acabar tendo um enfarte ou coisa pior". Nos bons tempos da servidão medieval, uma intromissão do gênero seria punida com o banimento. Hoje nada acontece. Culpa do PT, claro.

Outro problema sério é que nas festas boas todo mundo está feliz e dança. E aí sou obrigado a demonstrar publicamente minhas habilidades rítmicas e atender aos insistentes pedidos dos presentes, abismados com alguns dos meus passos e truques (depois você me ensina esse sapateado?; faz aquela pirueta?; imita o Michael Jackson outra vez?). Não e não. Para quem olha parece fácil, só que certos movimentos exigem anos de treino e, porque não dizer, um certo talento inato. Não dá pra sair por aí ensinando, assim sem mais nem menos. Mas faço aqui uma mea culpa. Nunca deveria ter apresentado para um público leigo a minha nova criação, que mistura a pirueta do salto "Dos Santos" com o rebolado de John Travolta nos "Embalos de Sábado a Noite". Se já é difícil usando roupa de ginástica, imaginem então com calça boca de sino e sapato plataforma. Não é pra qualquer um.

Acho que nem todos vocês conhecem a minha campanha "Elite já!", pela criação de uma classe dominante e opressora de bom gosto neste país. Pois é. Estou pensando em convidar a Dani para chefiar o grupo de assistentes socialites, que distribui cestas 'hiper' básicas no Morumbi e em Alpha Ville. Nossa elite chinfrim precisa de um auxílio urgente de pessoas com classe, coisa cada vez mais rara nestas bandas. E isso é o que não falta em minha amiga chique.

Parabéns mais uma vez, Dani.

Posted by Porfirio at 10:03 AM

setembro 27, 2004

Técnicas chinesas para espantar pessoas indesejáveis

Nos EUA a eleição só é assunto no jornal. Não tem sujeira no chão, folheto grudado em poste, carro de som. Na Califórnia, Flórida e Nova Iorque não vi nem outdoor. O máximo de aborrecimento foi a abordagem de um cabo eleitoral do Kerry em Fisherman's Wharf, São Francisco, perguntando se eu não gostaria de me inscrever para votar. É engraçado. A primeira preocupação é que eu vote. Depois vem o candidato. Expliquei para o rapaz que eu não votava lá e que, se pudesse, não votaria nem no meu próprio país. Mas como estava engravatado não convenci. Ante a insistência, coloquei em prática a minha eficaz técnica chinesa de usar opiniões absurdas para espantar pessoas indesejáveis. Suspirei fundo e disse que não só era a favor da invasão do Iraque, como achava que os EUA deveriam assumir a sua posição de xerife do mundo. Emendei que as fotos de tortura da prisão de Abu Ghraib eram montagens baratas e que as armas de destruição em massa do Saddam existiam e estavam agora sendo escondidas por Fidel Castro.

Para minha surpresa, não funcionou. O cabo de Kerry só desistiu quando usei a segunda técnica chinesa de espantar pessoas indesejáveis: o famoso chute shaolin na canela. É uma técnica bastante evoluída, baseada naquele golpe mortal de Daniel San em Karatê Kid. Funciona sempre. Um dia ensino para vocês.

Foi-se o Kerry boy, mancando da perna esquerda. E lá fiquei eu procurando um king crab e um bom Chardonay para o jantar, quando pensei no Brasilzão. Êta país xexelento! O processo democrático é uma sujeira, no sentido literal e figurado, e ainda somos obrigados a participar. Votar em alguém é um direito, não um dever. Dever mesmo, só o moral de se abster de comparecer às urnas, porque gente fina não quer enfiar nem a ponta do dedinho do pé na lama.

O problema é que a penalidade por não participar do processo democrático no nosso país é, vejam só, ser compelido a participar ainda mais do processo democrático. Quem não vota ou justifica vira mesário na eleição seguinte. Na reincidência, vira fiscal de apuração. E já me disseram que na terceira falta o coitado é obrigado a sair candidato a vereador em Carapicuíba, passear pela periferia, beijar criança remelenta e comer comida de boteco.

Por isso, no 03 de outubro cumprirei meu dever de cidadão, votando em branco.

Posted by Porfirio at 8:18 PM

setembro 22, 2004

Relato de viagem

Pois é. Desculpem o sumiço. Foram três semanas viajando a trabalho nos EUA, aquele país canalha que invade nações pelo simples prazer de fazer a guerra. A viagem me tocou fundo e me fez repensar diversos dogmas. Eu era um liberal democrata, mas após rever de perto a mal sucedida experiência americana mudei de idéia. Voltei com meus ideais socialistas revigorados e com a viva intenção de libertar a América Latina do jugo capitalista.

Os EUA são um péssimo país para se viver e a cada dia piora. Sério. É uma nação terrivelmente desigual e por detrás dos sitcoms, do consumo exorbitante e dos parques temáticos há uma população profundamente infeliz, que só não foge com suas lanchas offshore para a Europa porque lá o diesel é mais caro. Um terço da população americana é composta de especuladores inescrupulosos que investem dinheiro em busca do lucro fácil. Outros dois terços são de empregados que trabalham para os especuladores. A exploração é tão descarada que não faltam ofertas de empregos para as pobres vítimas do capital. A cada esquina há uma oportunidade de ser espoliado por um empregador ganancioso, recebendo um salário vil que mal dá para pagar a casa em Beverly Hills e o Rolls Royce conversível, iguais aos do patrão.

Tanta ganância cria enormes diferenças entre classes sociais. Os EUA têm três delas. Há os que vivem bem, os que vivem otimamente bem e os que vivem em uma riqueza inimaginável. Estes últimos são uma minoria de privilegiados, que ganham dinheiro fácil as custas dos que vivem bem e otimamente bem. Tomam banho de leite de cabra todo dia, namoram atrizes de Hollywood, dirigem carros italianos cor de rosa e usam cortes de cabelo extravagantes, como o do Donald Trump. Os que vivem otimamente bem exploram os que vivem bem, custeando com o produto da espoliação suas viagens para a Europa e para a Ásia e seus carros europeus de cores mais tediosas, como preto e prata. Já os que vivem bem, coitados, não têm a quem explorar. São resignados a uma vida de servilismo, com férias de apenas 15 dias na Flórida ou Havaí, ou em ilhas próximas, como Barbados e Jamaica. Pior de tudo, são obrigados a dirigir carros japoneses ou, o que é mais humilhante, carros coreanos com menos de seis cilindros.

Outro golpe é o de que os EUA são o país das oportunidades de riqueza. Sei, sei... Quase todo dinheiro que ganhei em São Francisco com trabalho suado perdi em poucas horas nos cassinos em Las Vegas, nas roletas e nos elásticos das calcinhas das dançarinas de bar. Tentei explicar para a minha noiva que a culpa de minha ruína era do sistema financeiro internacional, e que a tanga de rendas vermelha amarrada na minha cabeça, flagrada numa foto dentro do Venitian, era um sinal de protesto contra o FMI. Cega pela propaganda ianque, ela não se convenceu. Preferiu acreditar na falsificação grosseira de uma certidão de casamento 'drive thru' entre eu e a dançarina Kelly Mary Jones, que, por coincidência, havia me emprestado a tanga da foto.

Em NY fiz questão de explorar a fundo o capitalismo em todas as suas nuances perversas, não importando o quanto isso me custasse. Me hospedei em um hotel na Central Park South, com vista para o Central Park. Caminhei pela Quinta Avenida até a Saks, meca da burguesia, e comprei um par imperialista de gravatas Charvet. Na volta, parei no The Pierre para um chá de maracujá com lima, e provei alguns sanduichinhos de caviar, para matar as saudades da mãe Rússia. No fim da tarde, atravessei o parque pelo reservatório até a Central Park West, com uma passadinha no Met para ver quem faria a Carmen da temporada de óperas que se iniciou no dia 20 último. Tudo isso, claro, por motivações estritamente político-científicas.

Sentado na mureta do chafariz do Met, pensei nos pobres americanos e na vida sofrida das sociedades de consumo. Uma ponta de piedade perfurou meu peito e decidi voltar e contar a todos as atrocidades que presenciei. É triste, tudo é muito triste. Mas, no fundo, ainda há uma esperança de que isso um dia vai mudar.

Posted by Porfirio at 1:25 PM