A convivência com os livros torna as pessoas desinteressantes.
Quando vi o campeão de pingue-pongue receber aos prantos sua medalha, me dei conta do ridículo olímpico. E pingue-pongue lá é esporte? Claro que não. Por definição, nada que eu consiga praticar com alguma habilidade pode ser considerado esporte. Já me disseram que tudo que tenha competição, alguém narrando e prêmio no final é atividade esportiva. Nem de bola precisa. Olhem, não sei. Se prestarmos atenção, nessa definição se enquadra até bingo da terceira idade. Imagino que ninguém aceitaria o bingo da terceira idade como esporte olímpico. Por isso acredito que a prática esportiva não é definida pelas regras, mas pelos participantes. Esporte deve ser praticado por gente burra e musculosa. Quanto mais burro e mais musculoso, mais esportista. Bingo, portanto, não é esporte. Levantamento de peso e boxe são inegáveis exemplos de modalidades desportivas. Burros e musculosos. Preciso anotar isso em algum lugar.
Mas se pingue-pongue é mesmo esporte, então futebol de botão, pebolim e sinuca também deveriam ser. Acho até que poderíamos reunir três deles numa só prova de resistência, o triatlo de boteco. O competidor teria que demonstrar habilidades seqüenciais na sinuca, no pebolim e no pingue-pongue. De preferência meio de pileque e comendo uma porção de torresminho a pururuca. O anti-doping verificaria a presença de álcool e colesterol no sangue dos participantes. Quem não estivesse embriagado e com colesterol elevado estaria fora. Em poucos anos, o triatlo de boteco substituiria o futebol como esporte nacional.
Vôlei de praia é outra modalidade esquisita. Se já tem o vôlei de ginásio, pra que o de praia? Não é a mesma coisa? Daqui a pouco vão inventar o vôlei de grama e de saibro. Outra coisa que não entendo é o vôlei de praia estar nas Olímpíadas e o futebol de areia não. Só por que a gente ia ganhar, diabos... Pra fazer justiça aos países tropicais deveria haver duas Olimpíadas: uma normal e outra na areia. Olhem que idéia fantástica. Todas as modalidades teriam a sua versão de praia. Menos o basquete, claro. Além de ser mais festiva, a Olimpíada de Praia seria dividida em modalidades bem mais divertidas. Teríamos a pegada de jacaré, o caldo sincronizado, o rodeio de banana boat, o frisbee e o concurso da garota camiseta-molhada. Sem esquecer, claro, do ultimate frescobol, esporte inventado pelos antigos gregos, que usavam testículos de carneiro no lugar da bolinha. A olimpíada de praia teria ainda as chamadas modalidades de boteco: arremesso de dardo, arremesso de anão, corrida ao banheiro, touro mecânico, levantamento de pints e o triatlo de gordo.
Ainda estão em discussão a entrada da corrida de sacos e da luta no gel. Veremos.
Azael de Jericó vivia no Vale do Jordão e era pastor de ovelhas. Diz a lenda que era também um cara inoportuno. Cutucava a bunda das pessoas com seu cajado e sempre dizia ter esquecido a carteira na hora de pagar a conta. Todos brigavam com Azael. Cala boca, Azael! Fica quieto, Azael! Tu é uma besta, Azael!! E Azael, como todo sem-noção, ficava chateado.
Um dia, sentado em uma mesa de bar e cansado das aporrinhações, Azael rogou uma praga sobre cinco de seus amigos ali presentes. Estendeu seu cajado de pastor e, invocando poderes ancestrais, disse em aramaico: Vocês se julgam muito espertos, não? Muito espertos! Pois bem, seus manés! Então vocês e seus filhos, e seus netos, e os filhos dos seus netos, e os netos dos bisnetos, e assim até o fim dos dias, serão as pessoas mais sábias do mundo! (risos maquiavélicos)
Dizem que, ao terminar, Azael caiu da cadeira, bêbado como um gambá. Na hora ninguém deu muita bola. Era a quinta vez que Azael, chumbado de vinho, tentava rogar a mesma maldição, sem sucesso. Mas o fato é que daquela vez a coisa tinha funcionado. E, desde então, todos os cinco pobres amigos e seus descendentes, até os dias de hoje, carregam dentro de si um ilimitado saber e passaram para a história conhecidos como "os filhos de Azael".
***
Você, leitor ignorante, pode nunca ter ouvido falar dos filhos de Azael. Mas com certeza conhece um deles.
Uma amiga minha, por exemplo, é filha de Azael. Ela sempre tem razão. Sério, sempre tem. Não importa o assunto, não importa a situação. Uma vez, essa amiga e seu namorado se perderam na ida para uma pizzada. Lá pelas tantas, cansado das voltas, o namorado sugeriu virar à esquerda. Minha amiga disse não, não vai dar certo, com uma certeza metafísica, dessas que só os filósofos, os bêbados e os cônegos têm (tenho uma teoria de que estes últimos nada mais são do que filósofos-bêbados, mas deixem pra lá). Veja. Ela nunca tinha estado naquele lugar antes, nunca pôs os pés em bairros afastados. Mas, claro, ela tinha razão. Viraram à esquerda e caíram numa avenida cheia de borracharias, sem retorno.
Uma outra vez perguntei a essa amiga qual a raiz quadrada de 2.401. Fácil: 49. E qual o nome da lua de Plutão? E ela, sem tirar os olhos da TV: Caronte. O mesmo acontece com nomes de pessoas, datas de aniversário, fatos históricos, pratos do cardápio e afluentes do Amazonas. Não importa a discussão, ela sempre tem razão.
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Outro descendente direto daquela histórica mesa de boteco é o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Além de conhecer epistemologia, retórica, lógica apodíctica, biologia, física quântica, nutrição, veterinária e engenharia aeroespacial, dizem que o homem nunca se perdeu em São Paulo nem jamais errou uma receita de bolo. Ele sempre tem razão. Pergunte e verá. Por que o comunismo deu errado? Qual o conceito de Justiça? Quais as razões da queda de Roma? Qual a posição do homem no universo? Qual o propósito da criação? O que é melhor para fritar um bife à milanesa, manteiga ou azeite? Tudo, o homem sabe tudo na ponta da língua, sem titubear.
Falando assim você, o mesmo leitor ignorante, pode até achar que é algo bom essa coisa de estar sempre certo. A pessoa é vista como inteligente, passa no vestibular etc. Mas não é. Invariavelmente o ser amaldiçoado irrita a todos em sua volta. Sai com pecha de metido, pedante e arrogante. Sofre perseguições e todos os mortais que vez e outra dão suas escorregadas, como eu e você, se remoem de inveja e torcem para que o tal pise na bola uma só vez.
Mas desista, viu. Isso nunca vai acontecer: é a maldição.
Dizem (deve ser mais uma das lendas, imagino) que uma noite Olavo de Carvalho sentou na cama e, logo após arrumar os óculos e fazer sua oração, pensou: minha mulher está me traindo. Por um momento desejou estar errado. Não estava, é claro. Nosso filósofo sempre está certo e o garboso par de chifres lhe era tão infalível quanto a certeza da existência de Deus, do equívoco do darwinismo ou da relação entre as FARC e o governo Lula. Durante a noite, pessoas como minha amiga, o Olavo de Carvalho e um antigo vizinho de minha vó Elza, chamado Stanyslau, todas vítimas desse mal ancestral, choram baixinho, implorando para estarem erradas uma só vez. Naquela noite, o pobre Olavo chorou, amaldiçoou Azael e fez mais uma oração, pedindo a Deus que lhe abençoasse com a mais pura ignorância.
Nunca foi atendido.
Fiz o teste. Sabem o que deu?

French Guard
I'm French! Why do think I have this outrageous
accent, you silly king-a?!
What Monty Python Character are you?
brought to you by Quizilla
English pig dogs! Filthy English types! Tentem que é divertido.
É a velha história do que faríamos se ditadores onipotentes etc. etc. Eu:
1. proibiria o uso decorativo da alface nos pratos feitos de padaria;
2. criaria o dia nacional do feriado, em que todos trabalhariam normalmente, já que no dia do trabalho todo mundo fica em casa à toa;
3. todo guarda-chuva teria que ser preto;
4. onze viraria dezeum, doze dezedois, treze dezetres até dezecinco, para padronizar com o dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove;
5. segunda-feira viraria dialua, terça diamarte, quarta diamercúrio etc., até diassol;
6. criaria o imposto regressivo (quem ganha menos paga mais), como forma de desincentivar a pobreza;
7. proibiria o uso de ternos cáqui com sapatos pretos;
8. tornaria obrigatório o uso de perucas pelos parlamentares do governo, que passariam a ser denominados wigs;
9. proibiria o pão de queijo em couvert, e lingüiça ou frango em churrascaria rodízio;
10. pensando bem, proibiria churrascarias rodízio.
Isso no primeiro dia.
Vi o filme do Michael Moore. Minha opinião? Os EUA podem não saber porque estão batendo, mas o Saddam sabe porque está apanhando.
***
O filme é uma porcaria. Mas tem dois momentos engraçados. Um bom, outro excelente.
Momento bom.
Bush caminha em meio a uma pequena multidão. De repente, uma voz:
- Sr. Presidente! Sr. Presidente! Aqui é o Michael Moore!
Bush olha para o lado e vê mesmo o Michael Moore. Dá uma risada e retruca.
- Meu caro! Vá procurar um emprego de verdade!
Momento ótimo.
Líder do Talibã em viagem a Washington está fazendo um discurso. No meio do evento, uma mulher, americana de meia idade, entra no auditório trajando uma burca, arranca o capuz e grita histericamente:
- Vocês submetem as mulheres a condições humilhantes e desumanas! Fora Talibã!
Sem alterar a expressão facial, o líder responde, em inglês, com aquele sotaque árabe.
- Minha senhora, sinto pena do seu pobre marido.
***
Meu irmão acha que os EUA deviam ter matado o Saddam. Saddam está velho e ao que consta é odiado no Iraque. Seus filhos, que poderiam representar ameaça no futuro, foram despachados no ato. A idéia de julgá-lo me parece boa. Uma vez condenado, a sugestão é exibir o ditador em exposições mundo afora, cuja arrecadação seria revertida para as vítimas da guerra.
Imaginem a manchete. 'Saddam na OCA'. Linha fina: Instalação do artista plástico Tunga mostra Saddam vestido de bailarina ao som do hino americano.
Por essa eu pagava até R$ 100,00 de ingresso.
***
Ao final da exibição do filme, aplausos. Meu estômago vira e um gosto ácido invade a minha boca. Que tipo de gente aplaude de pé propaganda política de um país estrangeiro?