julho 30, 2004

Ridículos, todos vocês são ridículos

Tenho o que os ingleses chamam de mocking spirit (numa tradução livre, leve e solta: espírito zombeteiro). Um tirador de sarros que sempre vê o lado ridículo de tudo, porque tudo tem um lado ridículo. Se você me coloca numa mesa com oito pessoas, eu vou imediatamente ficar sério e fechar a boca. Por dentro, porém, estarei observando atentamente o ridículo de cada um, medindo os exageros, computando as tolices, contabilizando as bobagens, tudo anotado no meu bloquinho mental.

O moralista é ridículo, o relativista é ridículo. O católico é ridículo, o protestante, o mormom e, claro, os ateus são ridículos. O executivo, o jornalista, o escritor e o advogado são ridículos. O cientista é ridículo e o filósofo também. O filósofo é prato cheio, está repleto de detalhes ridículos. O cigarro no canto da boca. O cabelo desgrenhado. As pausas entre os discursos (como quem diz preparem-se para uma grande verdade) e, óbvio, os próprios discursos são todos, sem exceção, ridículos. O poeta então é um ser de um ridículo absoluto. Tem exatamente os mesmos detalhes do filosofo (que já é o que há de ridículo) e as mesmas preocupações, só que ainda por cima faz rimas.

***

Confessem. Não há nada mais ridículo do que algo pretensamente sério que tenha um lado ridículo. A ridicularidade da coisa contrasta com a parte dita séria, tornando o conjunto todo ainda mais ridículo. E o pior é que as únicas coisas que não têm um lado ridículo são aquelas que são ridículas por inteiro, como na comédia. Aí o ridículo fica sem graça, porque não há contrastes e não há a patetice de tentar ser sério e acabar sendo ridículo. O cara assumidamente ridículo, como eu, chega e diz: eu sou ridículo. Faz uma piadinha, tropeça num degrau, cai sentado e ponto final. Como você ri de uma coisa dessas? Se pensar bem, é até um pouco trágico. Às vezes me dá até vontade de chorar.

Pois é. Esse é o nosso mundo, gente: a comédia é trágica e a tragédia é engraçada. Um mundo patético.

Posted by Porfirio at 10:33 AM

julho 29, 2004

Entrevista exclusiva com FDR

Ontem saí para jantar com meu grande amigo FDR e consegui essa entrevista exclusiva. Entre um e outro chopp e um sanduíche de costelinha de porco, o futuro membro da Academia Brasileira de Letras falou sobre o sentido da vida, sobre o novo livro 'Todas as festas felizes demais' e sobre a feiúra de um casal de japoneses albinos sentado na mesa ao lado.

Abaixo, os melhores momentos.

PCN: Quais as suas maiores influências?
FDR: Billy Idol e Sartre. Nesta ordem.

PCN: E as menores?
FDR: Nelson Ned e Zacarias (in memorian).

PCN: Qual o sentido da vida?
FDR: Bairro-centro. Só que eu ando na contra-mão.

PCN: É verdade que você bebe muito?
FDR: Olhe. Eu bebo pouco. Mas o pouco que eu bebo me transforma em outra pessoa, que bebe pra cacete.

PCN: Você é gay? Você é gay que eu sei?
FDR: Isso não é da sua conta. E que piada idiota.

PCN: É verdade que você considera a Idade Média a melhor época da humanidade para se viver?
FDR: Com certeza foi. Desde que, claro, você não pisasse num prego enferrujado ou pegasse gonorréia.

PCN: E o novo livro? O que ele tem de melhor que os outros?
FDR: Acho que o fato de não ter que dividir a grana em 11.

PCN: E o título? Veio de onde?
FDR: Eu queria que se chamasse "Obras completas de FDR, volume 1". Mas não aceitaram. Aí foi esse mesmo.

PCN: O que você acha do modernismo nas artes?
FDR: Se por modernismo você quer dizer atrizes de teatro peladas, acho bom.

PCN: Você é a favor da globalização?
FDR: Sou contra a globalização. E contra os terremotos, também, como o Voltaire.

PCN: E esse casal de japoneses albinos aí do lado? Você viu?
FDR: Nossa!! Que absurdo!!

Posted by Porfirio at 2:16 PM

julho 28, 2004

Promoção hedonista American Express - Parte 3

A dúvida cutucou-o mais uma vez. Será? Mas com a mesma rapidez que veio, o pensamento se foi.

- ¿Pessoa mais miserável do mundo? Vocês tão brincando comigo! Eu sou um rabudo filho duma mãe!

Sentado na varanda, o narrador espoca a sua milésima garrafa de Cristal, com um sorrisinho maroto no canto da boca. Viveu 92 anos como um rei. E morreu esquecido, como todos nós.

Imoral da história:

A vida é um produto descartável e perecível. Verifique o prazo de validade, agite bastante e consuma rápido, antes que apodreça.

[Fim]

Posted by Porfirio at 9:34 AM

julho 27, 2004

Promoção hedonista American Express - Parte 2

Passam-se os meses, os anos. Não recebe nenhuma carta. Não escreve nenhuma carta. Começa a ler nas horas vagas, ou seja, o tempo todo. Shaw, Wilde, Swift, Berlin, Goiaba. Tolstoi, Soares Silva, Huxley, Pound, FDR. No seu quarto de hotel, saraus com Shakespeare. Cada soneto, cada peça. Participa de corridas de carros na costa Amalfitana. Vai a exposições. Vai a teatros. Pula de pára-quedas (uma vez e quase tem um enfarto). No verão, o champagne é sempre gelado e o fois gras familiar. No inverno, o melhor Hennessy na frente de belas lareiras. Os anos continuam passando. A variedade de gravatas no mundo o impressiona: já se foram seis translações e todo dia uma diferente.

E então, numa tarde ensolarada, sentado em uma das varandas da Villa San Michele em Capri, uma ponta de tristeza cutuca as certezas do narrador. Estava esquecido, largado no mundo, como aqueles soldados de elite, jogados com um cantil e um canivete no meio da Floresta Amazônica (tudo bem, tudo bem, não foi uma boa comparação...). Tanto dinheiro gasto com efemeridades! Uma vida inteira de aparências! A busca cega do prazer material! De tudo que é apenas belo, do luxo vazio e existencialmente despretensioso! Todas essas quinquilharias em troca da única chance que o Universo nos deu de realizar algo!

A felicidade do narrador estava abalada pela primeira vez. ¿Aquilo tudo valeria mesmo a pena? ¿Será que, na verdade, e bem lá no fundo, ele não seria a pessoa mais triste e mais miserável do mundo?

[Continua...]

Posted by Porfirio at 9:44 AM

julho 26, 2004

Promoção hedonista American Express - Parte 1

Pensei num conto com o título desse post. Seria dividido em três partes, pra ver se aumenta a audiência do blog. Não está acabado, mas é pra ser mais ou menos assim:

A American Express lança uma promoção hedonista. Um sorteio em escala mundial vai escolher o ganhador de um cartão de crédito vitalício, sem limites. O vencedor terá direito a gastos pessoais ilimitados pela vida toda. Qualquer restaurante, qualquer carro, qualquer hotel, qualquer boate, qualquer mulher, qualquer coisa que aceite cartão.

Isso (como tudo na vida) com algumas exigências. Os gastos são exclusivamente pessoais. Nada de pagar a conta dos outros, com exceção de amantes para uma só noite. O vencedor não pode acumular riquezas (comprar 4 carros iguais e trocar por um apartamento, por exemplo). Só dormirá em hotéis o resto da vida. Não pode casar, nem ter filhos, nem escrever um diário, ou memórias, ou cartões postais. Nada de pintar, compor ou o que quer que seja que tenha o mínimo risco de durar no tempo. A idéia da promoção é dar ao ganhador uma felicidade instantânea, dia após dia até a morte, que será seguida da certeza do esquecimento. Nenhum registro, nenhuma sobra, nenhuma lembrança.

O narrador do texto, claro, ganha a promoção e recebe o cartão. Viaja para a Europa, logo após dois dias no The Pierre em NY. Chega em Mônaco, compra um Maserati conversível. Primeiro prateado. Troca por um vermelho e finalmente o amarelo (o verão permite certos exageros). Seus cafés-da-manhã são a base de caviar e blinis. De manhã nada em uma piscina romana. A tarde caminha nas praias e vê, todo dia, o sol se pôr. De carro, viaja para Gênova. Vai a todas as Óperas, vai a Bayreuth. Nos intervalos, tulipas de champagne. E mais caviar.

Em Paris, tem mesa cativa no La Tour d'argent. Em Milão, consome estoques de trufas brancas, que arremessa para cima e engole como amendoins. Compra caixas de Chateaux Margaux e se embriaga seguidamente. Usa um costume por dia, uma gravata por ocasião. Manda fazer perfumes exclusivos e toda tarde é massageado dos pés à cabeça. Sai com mulheres belíssimas, filas e filas de loiras, morenas e ruivas. Cada amante ganha um vestido de seda e uma bela jóia. Para serem usados no jantar.

Um único jantar, uma só noite.

[Continua...]

Posted by Porfirio at 11:10 AM

julho 22, 2004

Pretinho básico

João Magueijo, físico e matemático português, ficou famoso por desafiar Einstein e afirmar que o Universo não é elegante. Ah, vá. Mesmo sem estudar aritmética, nem física quântica, nem a teoria das supercordas, eu já sabia disso. É só dar um pulo na 25 de março ou no saldão das Lojas Renner para ver que o Universo é tudo, tudo menos elegante.

Minha nova e revolucionária teoria é que o universo é brega e Deus uma espécie de Falcão (o cantor) que deu certo. Deus deve usar calça xadrez, paletó amarelo de listras azuis três números maior e uma flor de plástico na lapela, daquelas que espirram água. Todo mundo que chega Ele chama de my boy ou my darling, com um vozeirão meio Faustão meio Tim Maia. E espirra água na cara. Um saco.

Dizem que a criação foi tensa. Deus queria um Universo lilás com elefantes rosas girando livremente pelo espaço. Convence-Lo a usar o pretinho básico, que, convenhamos, combina mais com o vácuo absoluto, não foi fácil. Depois o Criador cismou que as galáxias tinham que se agrupar de 7 em 7, por recomendação de um numerólogo (o Walter Ligue Djá Mercado), e que as órbitas deveriam ser quadradas, com um incenso em cada canto (influências do feng shui e aromaterapia). Ninguém aceitou, claro, mas ainda assim sobrou muita coisa brega. Por exemplo, as tais Anãs Brancas. Não tenho preconceito, mas sinceramente prefiro as morenas altas. E esse monte de buracos negros de fora, com as coisas aparecendo. Uma total falta de recato cosmológico.

Isso para não falar em nosso sistema solar. Saturno tem mais anéis que a Narcisa Tamborindeguy. Tudo bijuteria, já me disseram. Urano, se não fosse a intervenção dos anjos, seria cercado de miçangas. Júpiter tem excesso de gases (ninguém agüenta ficar por perto) e a Lua bem que poderia fazer um tratamento para acne. No centro de tudo, um sol enorme e escandaloso fazendo a iluminação direta.

Por mim colocava só um abajur no canto e uma lareira.

Posted by Porfirio at 11:36 AM

julho 19, 2004

Fimes de ação (judicial)

Num jantar no fim-de-semana me perguntaram por que não havia filmes de tribunal no Brasil (aqueles com um julgamento, escritórios de advogados etc.). Olhem, não sei. Mas desconfio que:

1. O filme levaria 8 horas até esgotar todas as instâncias, recursos, embargos, apelações e agravos.

2. Ninguém acreditaria no Tony Ramos vestido de juiz, com aquela peruca de cachinhos brancos, batendo com um martelinho na mesa e gritando ordem no Tribunal! Ordem no Tribunal!

3. A cada 15 minutos de filme o juiz seria promovido, sairia de férias ou desistiria da carreira, e seria substituído por outro (dessa vez o Tarcísio Meira de peruca...).

4. A cada 30 minutos o Judiciário inteiro entraria em greve.

5. Toda a discussão do processo giraria em torno da falta de uma guia de custas ou do significado de uma vírgula numa alínea de um parágrafo de um artigo do Código Penal.

6. As alegações dos advogados seriam recheadas de expressões do tipo outrossim, destarte, encômio, prolegômeno, nobres causídicos, ilustres membros desta casa do saber jurídico etc.

7. Os juízes dormiriam ou conversariam entre si durante as sustentações orais.

8. E ao final, depois de 8 horas de palavrório inútil, o bandido seria inocentado em um Tribunal de Brasília e entraria com uma ação de danos morais contra os seus acusadores.

Posted by Porfirio at 2:30 PM

julho 15, 2004

Nova lei universal da física

Na natureza nada se cria, nada se transforma: tudo se perde.
(Claude Lavoisier, irmão depressivo de Antoine, logo após levar um fora da mulher amada)

Posted by Porfirio at 12:23 PM

julho 13, 2004

Deus não dá asa pra cobra

Novela é um troço engraçado. Ninguém, mas ninguém soa natural. O Ewan MacGregor vestido de cavaleiro jedi é mais verossímil do que o Tony Ramos interpretando um pai de família classe média carioca (exatamente o que ele é na vida real). Vejam vocês. O personagem não é um cavaleiro das cruzadas, ou um soldado em plena I Guerra entrincheirado ao lado de cadáveres agonizantes, ou um guerreiro interestelar lutando por uma causa intergalática. Não, não. É só um pai de classe média (diabos), como todos os 400 que você e eu conhecemos. E ainda assim o nosso galã não consegue imitar um. Isso, claro, até sair debaixo dos holofotes. Nesse exato momento, Tony Ramos vira Tony Ramos de novo e se transforma no personagem que ele tentava sem sucesso interpretar um minuto antes. Mas aí as luzes já estão desligadas e não tem mais ninguém filmando...

Por isso a minha conclusão, perfeitamente lógica: Tony Ramos é um grande ator quando não tem ninguém filmando.

***

Outra.

Já imaginaram o Tony Ramos no papel de Obi-Wan-Kenobi, com as roupas, capuz na cabeça e segurando um sabre de luz? E a Vera Verão (que deus a tenha) como Conde Dooku (ops)? Obi-Wan chamando Luke Skywalker e gritando onde estão as jóias? Darth Vader levando um tiro no peito no último episódio? Luke Skywalker ... ah, deixa pra lá vai.

***

Convenhamos, esses atores merecem um esculhambo. Acho que foi o Alexandre S.S. (vou chamá-lo de SS agora, em homenagem a ultra-direita-radical) que escreveu que em novela das 8 o cara não consegue nem dar marcha-ré no carro de maneira convincente. Pois é. Ontem não sei quem na novela pediu a conta num bar de uma forma inacreditavelmente canastrona. Repito: o pobre coitado não consegue nem interpretar alguém pedindo uma conta num bar. Se eu fosse o diretor mandava tomar vergonha na cara. Melhor. Mandava tomar umas no bar. Para cada drinque, uma conta. Até aprender.

E só volte aqui trançando as pernas, moleque!

***

Eu pediria a conta com mais naturalidade. Mais ou menos assim: Ô chefia, the willian, please. E a saideira!

Que tal?

***

E os modelos, deus do céu.... Gente bonita tem cara de burro. Quanto mais belos, mais aparentam idiotice. Eu, por exemplo, tenho uma incontida estupidez estampada na face. Claro que, se além de lindo eu fosse também ininteligente o mundo já estaria a meus pés. Mas como deus não dá asa pra cobra...

Posted by Porfirio at 11:41 AM

julho 12, 2004

Definição

Burro, s.m.: pessoa que não faz perguntas.

Posted by Porfirio at 12:41 PM

julho 8, 2004

Circularidades

O verdadeiro cético duvida até do próprio ceticismo.

Posted by Porfirio at 4:14 PM

julho 5, 2004

Quem tem o supérfluo não precisa do essencial

A filosofia é inútil por definição: qualquer descoberta com alguma aplicação prática deixa de ser filosofia para virar ciência.

Posted by Porfirio at 10:53 AM

julho 1, 2004

Atiçador

Estou lendo "O atiçador de Wittgenstein" e encontrei a seguinte frase.

"As pessoas ficam dizendo que a filosofia realmente não avança, que ainda estamos às voltas com os mesmos problemas filosóficos que preocupavam os gregos. Mas quem diz isso não entende por que tem de ser assim. É porque nossa linguagem continua sendo a mesma e fica nos seduzindo para fazermos sempre as mesmas perguntas."

É uma bela resposta para quem afirma que toda a história da filosofia é uma nota de rodapé a Aristóteles. Não acham?

Posted by Porfirio at 11:46 AM