Vou contar um segredinho para vocês. Fim-de-semana passado estive no Rio, incógnito com minha noiva. Na sexta-feira jantamos no Cipriani, restaurante do Copacabana Palace. De entrada, dividimos um creme de lentilhas com ovas. De secondo escolhi codorna com ameixas. Ela, lasanha de lula. O Cipriani é o restaurante mais belo do Brasil, um dos mais charmosos do mundo. No seu salão retangular, as mesas se estendem ao longo de uma ampla janela de vidro, com vista para a piscina e os chafarizes. O maître, delicadíssimo, educadíssimo. Não fosse o Ricardinho Mansur tagarelando na mesa ao lado (e, além de tudo, desacompanhado da bela Luana), o jantar teria saído perfeito.
Jorginho Guinle foi velado no Copa. Também quero. Ou melhor. Como bom paulistano, quero ser velado no Fasano. Deitado no sarcófago, tentarei escutar pela última vez as conversas de meus grandes amigos, o tilintar das taças e talheres, as risadas, os violinos ao fundo. Ficarei quietinho ouvindo as fofocas (não se preocupem, levarei os segredos para o túmulo, literalmente) e tentarei aspirar o aroma das trufas e dos perfumes femininos.
No meu velório, por gentileza sorriam, inclusive você, minha noivinha linda. E façam um delicioso brinde, todos com as taças cheias de vinho tinto, em meu nome. E, por favor, não rezem. Nunca fui de nepotismos e não pretendo que minha alma chegue no céu por recomendações de terceiros. Não sou um modelo de santidade, mas também nunca meti os pés pelas mãos. Se Deus existir, faço questão de acertar contas pessoalmente com ele, digo, Ele. O que eu diria? Bem. Primeiro, que eu realmente, no fundo no fundo, não acreditava. Afinal, que Deus é esse capaz de criar coisas tão repulsivas quanto a peste negra, os terremotos e o churrasquinho grego? E essa história do pecado original? Por que logo uma maçã, redondinha, vermelhinha? Se Sua Magnanimitude tivesse escolhido uma jaca, as coisas talvez tivessem saído diferentes.
Claro que Deus puxaria uma lista de todos os pecados que cometi, desdaquela vez em que olhei a empregada trocar de roupa pelo buraco da fechadura (conterei a risadinha quando Ele tocar no assunto), até a véspera da minha morte, quando toquei a buzina do carro no estacionamento do Pão de Açúcar, só pra ver a velhinha derrubar o pacote de compras.
***
Agora imaginem se Deus me saísse com essa:
- (Risos) Fui Eu!
- Como?
- (Risos) É! Fui Eu quem fez a velhinha passar ali bem na hora! Sabia que você ia aprontar! (Risos). E o buraco da fechadura? Você realmente acreditou que a moça ia tirar o sutiã bem ali na frente, por puro acaso? (Risos) Esses detalhes têm o Meu toque pessoal. Um temperinho, entende? Dei todas as dicas para você acreditar em Mim. Você é que não queria!
- Sua Magnanimitude só pode estar brincando.
- Brincando? (Risos) O tempo todo! (Risos e mais risos, já meio ensandecido)
- Mas e essas calamidades, essas tragédias? Muita gente morre à toa.
- (As risadas diminuem rapidamente) Olha. A peste negra fiz num dia em que acordei de mau humor. Acho que Me excedi um pouco, é verdade. Mas churrasquinho grego é uma delícia! Você já experimentou um que tem lá na Praça da República?
Aí tudo ficaria claro pra mim. Um Criador piadista que gosta de churrasco grego. Nesse eu consigo acreditar.
Porfirio está de pé na sala de estar. Sua noiva e seu pai estão sentados em um sofá de couro capitonê. A noiva segura nas mãos uma almofada de veludo vermelho como se fosse um bebê de colo.
- Quando você vai arrumar um emprego decente? Já conversei com sócios de diversas bancas da cidade. Todos mostraram-se interessados em contratá-lo.
- Pra que o trabalho, pai? O trabalho denigre. Distorce a moral, deforma o caráter. Transforma a todos em contadores. Além do que, já tenho o dinheiro de que preciso e já conquistei a mais bela mulher. (Acena para noiva e dá um sorrisinho) Não é pra conquistar mulheres que as pessoas vão atrás de dinheiro? E não é pra ganhar dinheiro que as pessoas trabalham? Pois então. Não faz sentido algum pegar uma estrada para se chegar em um lugar em que você já se encontra.
- Detesto esse seu jeito de falar. Diz as maiores bobagens com ares de verdade absoluta. Mas a verdade é sempre a verdade, não importa como seja dita. E a mentira sempre será mentira, mesmo revestida das palavras mais belas.
- Excelente, pai! Essa mentira foi dita com tão belas palavras que quase me convenceu de sua verdade. Meus parabéns. Mas veja. Eu acredito apenas na verdade da beleza. E como a beleza é inconstante e subjetiva, a verdade também é. A verdade reluzente de hoje empalidece no dia seguinte. E uma mentirinha opaca às vezes resplandece em uma verdade incontestável. E o melhor é que a verdade é também democrática. Como a bunda, todo mundo tem a sua. Eu tenho uma, você tem outra, cada qual feliz e satisfeito. Se a verdade fosse uma só, o mundo seria um lugar mais triste. Alguns poucos andariam garbosos de suas certezas, seguidos por multidões de indecisos, pedintes de uma esmola de convicção.
- Não é possível que você acredite nisso!
- Claro que acredito. Pelo menos até esta manhã. Só não digo que se trata de uma verdade absoluta por que estaria me contradizendo. Por isso, acho que amanhã vou mudar de idéia apenas para continuar tendo razão (risos). É verdade que não existem verdades? Talvez sim, talvez não. Mas o fato é que sempre há os que querem ser donos da sabedoria, legítimos proprietários da virtude. Eu não. Faço o contrário. Digo a cada um o que querem ouvir, que têm razão, que estão certos. E assim distribuo a verdade em porções iguais e sem cobrar nada, contribuindo para a justiça social deste país.
- (Com ar de indignação) Despeitado!
- Tem razão, pai.
- (Olha feio para Porfirio e começa a remexer nos bolsos) Andei conversando com dois ou três deputados.
- (Com os olhos arregalados) Do Parlamento?!
- (Tira um cachimbo de um dos bolsos e começa a colocar fumo de pêssego) Sim, do Parlamento. Se esse seu talento para o falatório vazio tem alguma utilidade, deve ser ali.
- (Visivelmente desesperado; a barbatana da camisa espetada para fora da gola) Eu não suportaria, pai! Seria a morte! Você não está falando sério! (Olhando para a noiva) Viu! Não falei que ele era cruel! (Volta-se para o pai) Tantos anos de estudos para acabar no Parlamento! Você sabe que mandar um filho para o Parlamento é o mesmo que admitir o fracasso de sua educação. Você não está preparado para admitir que fracassou comigo, está?
- (Acende o cachimbo e dá umas baforadas) Acho que sim. Você começa a acreditar que fracassou com um filho quando ele abandona a moral, os bons costumes, se recusa a trabalhar, gasta perdulariamente o dinheiro arrecado pelo trabalho árduo de três gerações e só fala de frugalidades.
- A filosofia não é uma frugalidade, pai. (Vira-se para a noiva e fala em tom de confidência) Mas o resto é verdade.
- Realmente a filosofia não é uma das frugalidade. É só a mãe de todas elas. Mas como disse, andei falando com dois ou três parlamentares sobre você. Convenci-os de que seria um excelente assessor. Sua função será escrever discursos, participar de reuniões e comícios, orientar debates. Seu dom para o palavreado inútil será de grande utilidade.
- Ah não, pai. Tenha piedade desta pobre alma soberba. O Parlamento é um lugar inóspito para espíritos como o meu. Não me importo com mentiras até por que não acredito em verdades, mas o mau gosto é intolerável. Nobres colegas, ao menos mintam com classe é o que eu diria em meus discursos. E, por favor, chega de falar em soberania ou igualdade social. Ninguém agüenta mais. Pelo menos eu não agüento mais. Além disso, parlamentares são propositadamente confusos. Dizem que disseram o que não foi dito. E desdizem o que disseram e não poderiam ter dito. Desdizer o que foi dito e dizer o que não foi dito é o trabalho do parlamentar. Num lugar assim você nem sabe como discordar de alguém. Não, não. Eu não toleraria trabalhar em um lugar em que não se consegue nem mesmo discordar dos outros com alguma propriedade.
- (Risos) Apesar de tudo, ainda te acho engraçado, filho. Mais uma razão para acreditar na sua carreira como parlamentar. Você vai ver que lá todos são muito engraçados. Às vezes, as diferenças entre parlamentares e comediantes são tão sutis, que não sei se estou assistindo ao Comedy Channel ou à TV Senado. Sempre me confundo...
- É fácil, pai. No Comedy Channel as gravatas são menos coloridas.
- (Risos)
Intelectuais adoram falar mal de quem corre atrás de dinheiro, de quem é fútil, de quem não lê. Numa mesa de boteco, um crítico literário, um literato criticável, um jornalista e um fotógrafo. Todos tiram um falso sarro da pobre alma que passa em seu Porsche, acompanhada de uma belíssima morena.
- (Intelectual 1 dá um trago no cigarro) O pobre coitado não aproveita a vida.
- (Intelectual 2 com a latinha de cerveja na mão) Nunca leu um livro!
- (Intelectual 3 comendo um ovo roxo) Nunca foi ao teatro!
- (Intelectuais 1, 2, 3 e 4, em coro) É um burro! É um burro!!
No Brasil, intelectual não pode gostar de dinheiro. Mas vejam isso. Tenho a possibilidade de freqüentar os dois lados e garanto que nunca ouvi uma roda de yuppies parar para falar mal de intelectuais. Playboys não tomam conhecimento da intelectualidade. Entre uma e outra taça de vinho australiano, conversam sobre charutos, viagens, mulheres e futebol. Nem todos são estúpidos, garanto, e a maioria aparenta estar muito mais satisfeita com sua condição do que os intelectuais com a sua própria. Quando descobrem que um amigo entrou para um grupo de teatro, pedem notícias e se perguntam em silêncio como alguém pode viver sem a costeleta de vitela à milanesa do Fasano. Há um ar de condolências, mas não de raiva ou ressentimento. Já os intelectuais não. Estes vêm nos playboys uma ameaça à Paz Mundial e à Democracia. Eles têm raiva de playboys, falam mal, xingam, ridicularizam. Demonstram asco por dinheiro, nojo das futilidades e ficam fazendo planos sobre como transformar essas pessoas em algo que preste, como por exemplo um político ativo no parlamento, um bom escritor, um cientista, um padre.
Minha opinião? Pura inveja.
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Mas o que seria uma pessoa que presta? É dessas que só falam de assuntos grandiloquentes, ou seja, mais um intelectual. E o que é um assunto grandiloquente? Assuntos grandiloquentes são aqueles que se escrevem com letras maiúsculas: o Futuro da Democracia; a Literatura Moderna Brasileira; o Fenômeno Lula; a História do Cristianismo Ocidental; Filosofia e Racionalismo; Conflitos entre Oriente e Ocidente etc. Tudo tão chato quanto pretensioso, convenhamos. São outros os assuntos verdadeiramente legais, que escrevemos com minúsculas mas que mereceriam maiúsculas: o Vestido Novo da Noiva; o Pato com Laranja do Freddy; Charutos; Licores, Vinhos e Vinhos de Sobremesa, o Sonho Erótico que Tive essa Noite etc.
Ah, sim. E o intelectual não fala bem de nada. Ele reclama. Rebaixa tudo que está a sua volta. Aponta na cara de cada um e diz como é baixo, como é fútil. Se fala bem de alguém, é para comparar com o resto e se lamentar "da atual situação das coisas". E então acender um cigarrinho.
Fico feliz que dê câncer.
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Vou insistir ainda mais.
Intelectuais são muito chatos. Muito chatos. Minha vontade é bater neles, de óculos e tudo. Eu também dou minhas resmungadas e gosto de gente que fala de Literatura, ou que me recomende um bom livro, uma boa peça, um pintor que não conheço. Mas não faço do resmungar meu passatempo predileto. Meu novo lema desta semana é: Chega de lamentos, intelectual! Os escritores são ruins? Deixe que escrevam mal! Ignore! Graças a Gutenberg já se publicaram livros bons o suficiente para que possamos passar o resto da vida lendo, sem repetir uma só linha. Os outros são burros e você é assim tão inteligente? Não é possível que o nosso Albert Einstein de botequim não tenha encontrado umas duas ou três almas com quem possa trocar idéias. O Brasil está perdido, o mundo está afundando no materialismo-comunista, no moralismo-capitalista? Jura mesmo é? Primeiro, não acho. Para mim, você está querendo chamar a atenção. Toma um copo d'água, senta um pouquinho que isso vai passar. E segundo, mesmo se for verdade, não acredito que algo possa ser feito. Um homem contra a História é um lambari nadando contra o curso do rio. Tanto mais idiota quanto maior o esforço.
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Criei meu mundinho particular, feito de pedacinhos que encontrei de um lado e de outro: vinho australiano, Oscar Wilde, charutos, Vermeer, Shaw, carros esporte e, no centro de tudo, minha noiva. Sou o que chamo de intelectoboy, ou playbectual. Um autista do bom gosto, um viciado em pequenos prazeres. Reúno o melhor de cada lado, e quando me refiro ao melhor, quero dizer o menos sério: Não levo dinheiro a sério, a ponto de passar a minha vida trancado em um escritório, mas também não levo a arte a sério, a ponto de virar mais um insuportável crítico. Compro livros e carros com o mesmo intuito: me divertir. Conduzo os dois sem pretensão de chegar a qualquer lugar. Quero só aproveitar o trajeto e no final encontrar lugares bonitos. Nesse sentido sou burro. Mas um burro feliz e, quero acreditar, um burro que sabe mais da vida do que a maioria.
Closet. Porfirio está de pé em frente ao espelho, terminando de se arrumar. Dirige toda a sua atenção ao nó da gravata, que após três tentativas insiste em sair torto. No chão, diversas gravatas e pares de sapatos espalhados. Sua noiva está sentada na ponta da cama do casal se divertindo com a leitura de Major Barbara. Ao seu lado, um pequeno bar com garrafas de conhaque e licor sobre uma bandeja de prata.
- (Porfirio) As gravatas de um homem são um resumo de sua personalidade. Donde podemos concluir que um homem sem gravatas é um homem sem personalidade. Minhas gravatas são todas vivas, sofisticadas e alegres. Mas são também bastante rebeldes e se recusam a fazer o nó como quero.
- (Phipps) Os jornais, senhor.
- (Porfirio aponta para a poltrona Luis XV, onde os matutinos devem ser largados, enquanto termina o nó) Não há nada mais tedioso do que as novidades que lemos nos jornais, Phipps. Tudo que acontece é tão previsível. Detesto jornais. Além do que, só falam de política e economia, dois assuntos extremamente indiscretos. (Olhando para a sua noiva) Esta flor combina com a gravata, amor?
- (Levantando os olhos do livro) Combina tão bem quanto nós dois.
- Ah! Então devo estar impecável. Gosto de andar impecável. Como não tenho grandes idéias, preciso impressionar com as roupas. (Olhando para Phipps) Onde está meu Porto? É intolerável trazer os jornais desacompanhados de algo para se embriagar. Quer estragar o meu dia?
Phipps vai até o bar e despeja o tawny em uma pequena taça de cristal tcheco. Porfirio termina o seu nó da gravata e espeta a flor em sua lapela.
- Perfeito! (Pega a taça e vira num só gole) Obrigado, Phipps, agora estou pronto para a leitura. (Senta na poltrona com um dos jornais nas mãos, começa a sussurrar enquanto vira as folhas) Esquerda, direita. Direita, esquerda. Quanto mais leio mais me convenço que a melhor qualidade de um político é ser ambidestro. Mas onde estão as fofocas? Oh, sim, aqui. Veja, Phipps, finalmente um assunto digno de uma roda de cavalheiros: o casamento gay. O que você acha disso?
- Não sei o que pensar, senhor. Me parece um assunto delicado.
- (Cheirando a flor em sua lapela) Sem dúvida, Phipps. É delicadérrrrimo (risos). Brincadeira, brincadeira. Você sabe que sou preconceituoso e, pior, que tenho orgulho dos meus poucos preconceitos. Uma pessoa sem preconceitos é uma pessoa sem defesas. Com os gays não é diferente, sou cheio de preconceitos. Se um restaurante é freqüentado por gays, já gosto sem nem mesmo ter ido visitá-lo. Quase sempre a comida é excelente, o serviço ótimo e, melhor de tudo, nunca há crianças. As festas também são as melhores. Melhor bebida, melhor comida, melhor música. Imagine então as festas dos casamentos gays. Talvez sejam as únicas dignas de serem freqüentadas.
- Mas o senhor é a favor das festas ou dos casamentos?
- Sem casamentos não haverá festas, correto?
- Correto.
- Então sou a favor dos casamentos. Ser contra um casamento por razões morais é um tanto contraditório. Um casamento é assunto doméstico, não público. É algo de uma insensatez tão grande, que só duas pessoas completamente apaixonadas estariam dispostas. Por que não permiti-lo? Que cada um aprenda com seus próprios erros, não? Escute o que te digo, Phipps. Esses liberais que se dizem contra o casamento em breve vão querer determinar a cor de minhas cuecas.
- E a adoção, senhor?
- Eles querem adotar crianças?
- É o movimento natural. Casar, ter filhos...
- Mas isso estragaria tudo! Gays são muito inexperientes com crianças, alguém precisa avisá-los. Os restaurantes, as festas. Esses eventos custam muito dinheiro, o mesmo dinheiro que será perdido com fraldas sujas, pomadas e educação de qualidade. Educação de qualidade... Que desperdício! (Olhando para a noiva) Nós decidimos não ter filhos e gastar tudo em champanhe e caviar, não é meu bem?
- (Revirando os belos olhos negros na direção de Porfirio) Se for Beluga, não me oporei nem um pouquinho, amor (faz um biquinho e manda um beijo doce).
- Beluga, claro. Servir caviar finlandês é praticamente uma ofensa pessoal. E os pobres meninos? Pense, Phipps. Se com uma mãe já é difícil, imagine duas! É isso. Sou a favor dos casamentos, mas contra a adoção.
- Não há aí uma incoerência, senhor.
- Talvez. Mas a incoerência é um pecadilho permitido a dois tipos de gente: aos grandes homens e aos advogados. Eu, infelizmente, me enquadro na segunda categoria.
- É uma afirmação injusta. Tenho muita admiração pelo senhor.
- É para isso que eu lhe pago bem, Phipps.
O Seu Mauro tem 85 anos, 68 de casado e 3 filhos. É há 60 ascensorista de elevador. Do mesmo elevador. Vai todo domingo à Igreja, reza com a mulher e os filhos, se confessa, paga as penitências e o dízimo. Não reclama do salário, da rotina (e que rotina!), da saúde e da vida. Acha que o que lhe deram é mais do que merecia. Acha que a graça de viver está nas coisas simples. Acha que ajudar aos mais pobres é gratificante. E acha que todos os homens são bons e os que parecem ser maus estão, na verdade, desorientados e precisam de ajuda. O Seu Mauro é personificação da bondade católica. Se há um paraíso (a gente nunca sabe) e se há um Criador com um mínimo senso de gratidão para com quem acreditou na Sua existência (mesmo sem nenhuma evidência), ele sem dúvida deve ter o Seu Mauro na mais alta conta. Quando morrer, o Seu Mauro com certeza será recebido no Paraíso com honras de Estado e será nomeado ministro, embaixador, um figurão importante. Passará a ser chamado de São Mauro.
Já eu sou do tipo que todas as religiões condenam, sem titubear, a vagar pelo limbo eterno, remoendo o bagaço da incredulidade. Se Deus existir e for tão exigente como dizem, Ele certamente me reservará um destino nada agradável, pior que o do pai do Hamlet. Só creio no que vejo (sou fervoroso discípulo do São Tomé da primeira fase) e no que a razão é capaz de demonstrar. Não acredito na bondade das pessoas. Elas são todas iguais, preocupadas com a sobrevivência, facilmente irritáveis, relativamente egoístas, bastante ciumentas e um pouco medrosas. Antes de dar esmola sempre penso no que de bom eu poderia comprar com aquele dinheiro. Por isso nunca dou esmolas. Gosto de quem gosta de mim, com exceção de uma vizinha loira recém chegada em meu prédio, que não me dá bola. Me divirto com algumas coisas simples da vida, porém aprecio ainda mais as sofisticadas: entre minha fazenda no interior de SP e Veneza ou misto quente e magret de canard, fico com os últimos. Acho que dinheiro é bom, que é mais provável o mundo ser dos espertos do que dos escolhidos e às vezes, confesso, tenho raiva de mendigos impertinentes e mal cheirosos. Não acredito em vida após a morte, em poder da mente, em espíritos, em anjos da guarda e não acredito que a caridade seja capaz de fazer os homens mais felizes.
Segundo a maioria das religiões, preciso ser exorcizado imediatamente, antes que comece a beber o sangue de virgens loiras em rituais satânicos à meia noite.
Um Sonho Ruim 1
Mas e se eu estiver errado? E se houver vida após a morte? Essa semana tive um sonho ruim sobre o assunto.
Me vi morto, andando em direção a um portal dourado cercado de pequenas nuvens brancas, surpreso com tudo o que estava acontecendo. Mas não é que era verdade? Quando estava por entrar no paraíso, o anjo Gabriel esticou o braço e disse:
- Meia volta, rapaz, você não falava que era tudo uma bobagem, que religião era coisa de gente ignorante?
Por mais que eu tentasse me explicar, saindo com aquela do Bertrand Russell, que reclamou da falta de evidências para se chegar a qualquer conclusão, o anjo Gabriel permaneceu irredutível:
- É tudo uma questão de fé. É aquela história: felizes dos que acreditam sem ver. Agora a coisa está preta para o seu lado.
Ainda tentei convencê-lo de que esse espírito vingativo e ressentido não condizia com uma religião que prega o perdão e a fraternidade, que eu merecia mais uma chance e que eu ia melhorar (juro! juro!). Mas, diabos, o anjo não cedia um centímetro:
- Não. Depois de morto não vale.
Numa última tentativa, argumentei que o Seu Mauro tinha sido um grande conhecido meu, lá na terra.
- O Seu Mauro?
- Sim. O Seu Mauro, em pessoa.
O anjo Gabriel olhou desconfiado, franzindo as sobrancelhas.
- O que era ascensorista na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio?
- Não é do meu feitio sair por aí me exibindo, mas... esse mesmo. Ele foi ascensorista de um prédio onde trabalhei. Nos falávamos todo dia.
- Qual é o seu nome, rapaz?
Porfirio Caetano das Neves, eu disse, já olhando impaciente o relógio ("esse anjo idiota vai ver só quando o Seu Mauro souber o que está acontecendo por aqui"). Após uma rápida ligação (no Paraíso o celular pega em qualquer lugar), o anjo Gabriel me pediu para esperar um momento. Dez minutos depois, uma enorme carruagem de fogo parou ao lado dele. A porta se abriu e o Seu Mauro desceu. Fiquei de longe, só observando.
O anjo disse alguma coisa e o Seu Mauro respondeu no ato. O anjo coçou o queixo e balançou a cabeça desaprovando. O Seu Mauro insistiu: abriu a Bíblia e leu um ou dois versículos, que falavam da importância do perdão. O anjo parou, pensou um pouco, pegou a Bíblia das mãos do Seu Mauro, abriu em outra página e leu outro versículo, que descrevia as penitências que os hereges devem sofrer.
- Se eu liberar por aqui, disse o anjo, o pessoal lá embaixo vai começar a aprontar todas.
O Seu Mauro ouviu compenetrado por alguns minutos, até balançar a cabeça, concordando. Sem dizer mais nada, entrou de novo na carruagem. Antes, porém, de fechar a porta, olhou para mim e acenou pela última vez, com um ar desolado.
Nem o Seu Mauro tinha dado jeito. Eu estava condenado à danação eterna. Desesperado, dei meia volta e, após uma tentativa mal sucedida de pular o muro, fui conduzido resignado em direção às escadas do Inferno. Num derradeiro esforço, pedi ao anjo para falar com um advogado. Rindo, ele disse:
- Advogados? Dentro em breve você estará cercado deles.
Um Sonho Ruim 2
Religiões existem para todos os gostos. As que adoram dinheiro (para adular os ricos), as que o repudiam (para consolar os pobres). As que fazem apologia ao uso de drogas, as que abominam o uso de drogas. Algumas são divertidas e alegres (como a que cultua Elvis Presley), mais adequadas às personalidades expansivas, outras são mais fúnebres, para agradar aos mais compenetrados e introspectivos.
Mas uma me assusta especialmente. Não sei em que parte do Oriente, tem um povo que afirma que cada um vai para o Paraíso em que acredita. É só mentalizar e concentrar todo o fluxo dos seus poderosíssimos pensamentos num só ponto de convergência, que seu sonho se tornará realidade. Agora, imaginem só: segundo esta religião, eu, que não acredito em nada, vou simplesmente deixar de existir, enquanto todo o pessoal vai estar na maior farra com dezenas de virgens safadas.
Seria muito azar...