fevereiro 27, 2004

Neste feriado realizei um antigo sonho. Contratei um mordomo e comprei um daqueles sininhos de mesa banhados em prata. Apesar de seu nome de batismo ser Cleverson da Silva, em minha casa ele agora responde pela alcunha de Phipps e é o responsável pelos afazeres domésticos e pela organização do meu dia a dia.

Phipps é um senhor de meia idade extremamente gentil e polido. De estatura mediana, seus cabelos brancos combinam com as luvas e com a casaca feita sob medida. Ao simples soar do sininho, Phipps já aparece impoluto em minha porta, pronto para receber instruções. Logo pela manhã me traz os jornais e as cartas sobre uma bandeja, juntamente de um chá verde natural e de uma porção de pãezinhos com geléia e manteiga. Me avisa também de todos os compromissos do dia. Organizei com Phipps uma lista de compromissos sociais, relacionados em ordem decrescente de desagradabilidade (por outras palavras, do mais ao menos chato). No topo da lista estão as festas de formatura de faculdades, seguidas das festas de quinze anos, casamentos, batizados, teatro, velórios, cinema e reuniões profissionais. Os velórios aparecem em sexto lugar, mas dependendo do falecido podem descer ainda mais no ranking, tornando-se um passeio mais agradável do que uma ida ao cinema. Ao entregar a lista Phipps já me avisa se há compromissos com índice de desagradabilidade demasiadamente elevados no dia, de forma que eu possa desmarcá-los em cima da hora, o que considero muito charmoso.

Estou espantadíssimo com a eficiência de Phipps e custo acreditar que sobrevivi até hoje sem ele. Phipps escova meus paletós, limpa minhas gravatas, prepara meus chás, passa a ferro meus jornais, recebe convidados e troca diariamente as flores de casa, sempre variando as cores. Além de tudo, é um senhor bastante razoável e de boa prosa. Phipps é religioso e já tivemos algumas interessantes discussões sobre teologia e epistemologia, enquanto ele engraxava com fervorosa dedicação meus sapatos de caminhada.

Como algumas almas conseguem viver sem mordomos é uma pergunta que anda me ocorrendo.

Posted by Porfirio at 6:07 PM

Quarto de dormir. Porfirio está deitado na sua cama, enrolado em lençóis de algodão egípcio e abraçado a um travesseiro de penas de ganso, que imagina ser a sua noiva. Acorda com fome e estica o braço até a pequena mesa de canto.

- (Tocando o sininho freneticamente) Phipps! Phipps! Traga meu chá e os pãezinhos!
- (Phipps entra com a bandeja, os jornais e um estranho papel) Senhor.
- Obrigado, obrigado. (Com o papel na mão) O que é isso?
- Um artigo, senhor. Imprimi esta manhã do site o indivíduo.
- Indivíduo? Já não te disse para largar dessas bobagens?
- Achei que o senhor gostaria. É bastante interessante. Fala da fé, da razão e de como a ciência se tornou uma religião moderna, em que as pessoas acreditam cegamente. Como os antigos devotos da Idade Média acreditavam no catolicismo.
- (Esfregando os olhos) Oh sei, sei. Religião moderna... Sabe, Phipps. Não há nada mais deselegante do que alguém que tenta aumentar seu próprio conceito rebaixando os que estão à sua volta. Essa sua explicação basta para que eu nem toque nesse papelucho barato. Religião moderna? Não diria tanto. Você já encontrou algum cientista entoando cânticos em louvor à teoria da relatividade? Ou construindo catedrais em homenagem às supercordas?
- Não, senhor.
- Pois então. Até onde sei bons cientistas não idolatram suas teorias. Apenas as discutem. Se estiverem certas, muito bom, se estiverem erradas, lata do lixo. Dizer que um comportamento assim equivale à fé religiosa é um despautério, principalmente para aqueles que têm mesmo uma fé religiosa.
- Me permite uma palavra, senhor.
- À vontade, meu caro.
- O que está dito aqui é que as pessoas vão ao dermatologista porque acreditam que ali encontrarão a cura de que precisam. Apesar de não entenderem nada de dermatologia, eles crêem que um dermatologista é capaz de mostrar o caminho da salvação. Isso é fé, uma fé, se me permite, tão "cega" quanto a dos clérigos, senhor.
- (Rindo) Fascinante, Phipps! Segundo o papelucho a dermatologia virou religião! E o que os dermatologistas idolatram? As frieiras de Deus? (Pega um pãozinho com geléia) Mas me diga uma coisa. Quando aparece uma brotoeja em um lugar, digamos, inadequado, esse seu colega, você e até mesmo os padres, que andam cada vez mais suscetíveis a esse tipo de infortúnio, preferem ir ao dermatologista do que à Igreja, não?
- Parece que sim, senhor.
- Mas se é tudo a mesma coisa, pergunto então a vocês o porquê da escolha. Particularmente, imagino que não tenha nada a ver com fé, mas sim com a pomada Canestem e seus efeitos milagrosos (risos). Sabe, Phipps. É compreensível um certo misticismo nas classes baixas, até porque eles não têm dinheiro para pagar dermatologistas e vivem cheios de frieiras e coisas piores. No entanto, acho profundamente herético uma pessoa de posses freqüentar a Igreja. Um rico na Igreja é uma aberração. Viola ao mesmo tempo os princípios católicos e materialistas.
- Os ricos também têm direito à salvação, senhor.
- Ricos não precisam ser salvos, Phipps. A não ser de suas ex-mulheres e de seus advogados.
- Tem razão, senhor. Mais chá?

Posted by Porfirio at 6:07 PM

fevereiro 20, 2004

Michael Moore sugere em seu novo livro, Dude, where's my country?, a vulgarização do casamento entre brancos e negros para acabar com o racismo nos EUA. Claro que aí você acaba com as raças, não com o racismo. Um bom nome para essa teoria seria mulatismo. Mulatizar os EUA é o objetivo de Michael Moore.

A brilhante idéia de Moore me lembrou uma antiga campanha defendida nos tempos de faculdade a favor da poligamia. Chamava-se Poligamia já! (mas com a mulher dos outros). Aperfeiçoada, poderíamos dar à idéia ares pós-modernos, defendendo a poligamia como um meio de se acabar com o racismo. Cada homem seria obrigado por lei (e se não tivesse condições receberia auxílio do governo) a se casar e ter filhos com uma negra, uma caucasiana, uma indiana e uma japonesa/chinesa.

Em três gerações não haveria mais raças nem, portanto, racismo. E os casamentos talvez durassem mais tempo.

Posted by Porfirio at 1:55 PM

Estava na rua ontem, por volta de quatro da tarde. Em cinco minutos o céu ficou negro e um dilúvio desabou, alagando a cidade. O vento derrubou árvores e do céu caíram pedras de gelo do tamanho do dedão do meu pé.

Isso não é normal. Deus não gosta de São Paulo.

Posted by Porfirio at 1:53 PM

Pensando melhor, nosso Deus cristão não deve gostar é da Perfeita. Divorciada, sexóloga, comunista e atéia. Vejam vocês o que acontece nesta cidade. Enchente e seca, alagamento e racionamento ao mesmo tempo. O paulistano toma chuva até em casa e quando chega não tem água pro banho. Pra mim é tudo culpa da Marta Suplicy. Se chover sapos, culpa da Marta. Praga de gafanhotos? Culpa da Marta. Morte dos primogênitos? Culpa da Marta. Sete anos de seca, furacão, maremoto? Culpa da Perfeita biscate.

Sabem? Estou começando a gostar dessa coisa de oposição.

Abraços a todos e até depois do carnaval.

Posted by Porfirio at 1:53 PM

fevereiro 18, 2004

A crônica de futebol é o gênero literário do brasileiro. Os alemães inventaram a dissertação filosófica e os franceses o ensaio? Pois bem. Nós somos os gloriosos inventores da crônica futebolística. Se fazer arte é mentir, então os cronistas de futebol são os maiores artistas que existem, insuperáveis no ofício de transformar uma situação inacreditavelmente desagradável em uma lorota, em uma balela com ares de poesia rasteira. É um gênero medíocre? Sim, claro, como tudo por aqui. Imaginem se o maior gênero literário da Inglaterra fosse a crônica de rugby? O mundo seria um lugar pior, seria como o Brasil.

Digo isso porque compareci a um jogo de futebol neste último domingo. São Paulo 1 X Corinthians 0. Fui de fraque e cartola, acompanhado de minha hipnótica noiva (em seu longo vestido negro), meu parkerson-maraolo nos pés e girando graciosamente minha bengala predileta. Minha família se orgulha de não praticar qualquer tipo de esporte ou atividade física pelas últimas quatro gerações. Ostentamos na sala nossas polainas e travesseiros, gastos de tanta inatividade, como troféus conquistados a duras penas (de ganso). Tenho um irmão de treze anos que é fanático por futebol e pediu, no seu décimo aniversário, um par de chuteiras de presente. A surpresa foi tanta que mandamos fazer um exame de DNA no menino, para confirmar a paternidade. Com o positivo na mão, demos o presente e hoje frequento ocasionalmente alguns jogos, só para agradar aos pequenos. Vocês que estão acostumados com Nelson Rodrigues, Juca Kfouri e Armando Nogueira falando das cabeçadas fulgurantes, dos passes angelicais, dos dribles desconcertantes e das bicicletadas atléticas, preparem-se. Esta será a primeira crônica futebolística que narrará a verdade. De maneira poética, como toda a crônica, mas a Verdade.

***

O jogo começava quatro da tarde. Duas horas antes uma fina garoa já cobria o estádio. Na chegada, os sinais de paz no futebol e diga não à violência indicavam que aquele lugar fora palco de inúmeras batalhas campais, em que visigodos e ostrogodos se enfrentaram para defender suas bandeiras e a honra de onze pessoas que ganham a vida correndo atrás de uma bola. O aroma doce de churrasquinho de gato inebriava os torcedores e o som constante de um carro de som protestando contra o aumento do preço do ingresso preenchia o ambiente. Enquanto desviava dos carrinhos de lanche, dos musculosos cavalos da polícia montada e do esterco que espalhavam pela calçada, fui abordado por um esbelto cambista, que tentou me vender por quinze reais ingressos que pude comprar por dez, cinco minutos depois na bilheteria. Evitei-o por instinto, como quem desvia por puro reflexo da canelada de um rápido adversário.

Compramos os ingressos e nos aproximamos felizes e sorridentes da entrada do estádio. Após passar por uma revista com detectores de metal e ser apalpado em minhas partes íntimas por um robusto negão de dois metros, eu, minha elegante noiva e meus irmãos entramos no estádio, com o peito cheio daquela esperança que só o verdadeiro e fanático torcedor tem. Fomos logo procurar um lugar e sentamos ao lado de um cândido senhor, de bermuda jeans e sem camisa, que logo nos informou ser da Mooca. A candura daqueles cabelos logo explodiu em pura energia, no exato momento em que o juiz entrou em campo. A partir de então, eu e meus irmãos (de treze e onze anos) tivemos uma fascinante aula de proctologia e anatomia, enquanto o velhinho sugeria ao bandeirinha diversos lugares em que ele poderia introduzir o seu instrumento de trabalho. Mas o melhor estava por vir. A torcida só começa seu espetáculo de massa, de uma calorosa euforia coletiva, quando o jogo se inicia. Aí vem o balé das cusparadas, que passam fulgurantes por sobre nossas cabeças, como estrelas cadentes em direção ao descampado adversário, logo abaixo. As cusparadas cintilantes foram seguidas por uma saraivada de sacos de mijo, arremessadas com sincronia e arranjo tão perfeitos, que fariam Sir George Solti ter pipocos de inveja. Flutuando no ar, os dourados sacos de mijo atravessavam o espaço aéreo, criando a ilusão de que aquele era outro planeta, um planeta com dezenas de sóis amarelos, um planeta singular, o planeta futebol.

E o jogo, ah o jogo. A grama verde sendo revirada pelos vigorosos chutes. As ágeis caneladas, os elásticos puxões de camisa e os sempre surpreendentes tapas na cara, dados pelas costas do juiz. O que expressa melhor a índole do brasileiro do que as pequenas deslealdades que festejamos todas as quartas e domingos no futebol? Sim, porque é um jogo de deslealdades acrobáticas, de safadezas discretas, em que cada jogador trapaceia à sua maneira e, o que é mais belo, em que os jogadores, unidos em busca da vitória a qualquer custo, trapaceiam coletivamente. No início do confronto os dois times se enfrentaram como soldados destemidos, mas, assim que um gol é feito, começam os tombos. Uma atrás da outra vêm as simulações de falta e as teatrais quedas. Na primeira, na segunda vez a gente olha tocado, acreditando piamente que o atacante teve a tíbia esmigalhada na última dividida. Eu realmente acreditei, a ponto de tirar do bolso meu lencinho de seda e secar as lágrimas que escorriam em homenagem à carreira do jovem atleta, cujo fim prematuro acontecia ali, bem na minha frente. Cinco minutos depois, quando o mesmo jogador, após ser retirado de maca em pura agonia pelos para-médicos, voltou ao campo todo serelepe, percebi que a beleza da coisa não está só nas jogadas, mas também nas "jogadas" que perfazem o árduo caminho para a tão sonhada vitória.

Quando o jogo acaba o espetáculo continua. O time visitante teve de ser escoltado pela polícia até a entrada do vestiário, desviando de toda a sorte de detritos arremessados pelas duas torcidas. O velhinho da Mooca continuava lá, destilando a sua insatisfação pela derrota em um sãopaulino da arquibancada inferior, que devia pesar algo em torno de 150 quilos. O tamanho avantajado fez com que torcida corinthiana lhe desse o carinhoso apelido de saco de merda, apelido que o hilário velhinho fez questão de gritar incansavelmente durante uns vinte minutos, até a saída do estádio. Lá fora, os cavaleiros da polícia montada ainda nos aguardavam, provavelmente para impedir que o saco de merda fosse espancado pelos ostrogodos em meio ao esterco da calçada. E tudo mais continuava lá: o cheiro de churrasquinho de gato, o protesto pelo preço do ingresso, o carro de som ensurdecedor, os cambistas, os carrinhos de lanche, os sinais de paz no futebol e diga não à violência etc., etc.

***

Isso é o futebol, meus caros. E as crônicas desse esporte são o gênero literário mais rasteiro já inventado.

Posted by Porfirio at 11:21 AM

fevereiro 12, 2004

O que é uma buzina? Numa definição ingênua, é um dispositivo de aviso urgente instalado em veículos automotores. A buzina é para ser usada em momentos de perigo iminente. É um sinal de alerta, um último e desesperado recurso para chamar a atenção de outros veículos ou transeuntes que se encontrem em rota de colisão.

Isso, claro, no resto do mundo. No Brasil, a buzina não tem nada a ver com segurança, com colisão, com transeunte, com perigo iminente. A buzina é o grande veículo nacional de expressão de sentimentos. O brasileiro vê na buzina um meio de manifestar publicamente sua felicidade, suas aflições pessoais, seu descontentamento com o resultado de uma eleição, com o seu salário, com um jogo de futebol e, também, com a dona de casa que parou em fila dupla na frente da escola do filho. Buzinamos quando estamos felizes e quando estamos tristes. Buzinamos em apoio e em protesto, em comemoração e em desagravo. Buzinamos para dizer olá, para cortejar uma moçoila, para chamar a namorada, para avisar o porteiro de nossa chegada e para pedir para abrir o portão. Na verdade a gente buzina pra tudo, menos para avisar um desconhecido de um perigo iminente, como um assaltante. Daí nós saímos de fininho, porque ninguém é trouxa nem louco. De dispositivo de segurança, a buzina no Brasil foi transformada em um meio de expressão.

Fenômeno interessante é o buzinaço. O buzinaço, como a coxinha, o pastel de pizza e o abadá, é também uma criação genuinamente brasileira. Consiste num surto coletivo em que vários motoristas saem de carro buzinando pela cidade, em prol de alguma causa qualquer. Nunca ouvi falar de um buzinaço em Londres, contra a adesão ao Euro, ou em Bagdá, protestando contra a permanência das tropas americanas. Já no Brasil, tudo é pretexto. Já vi buzinaço contra o mosquito da denge, em defesa dos perueiros, contra o imposto de renda e em favor dos anjos (!?). Um buzinaço pode ser planejado, mas muitos surgem espontaneamente. Algumas pessoas só de ouvir uma buzina tocar já tocam pavlovianamente a sua própria, disparando uma reação em cadeia que avança até limites ignorados. Há relatos de um rapaz em São Paulo que num sábado buzinou para um amigo na rua, e acabou involuntariamente disparando um buzinaço que só terminou na manhã da segunda-feira seguinte.

Eu tenho lá minhas teorias sobre a função catártica da buzina. Acho que ela desempenha um papel psiquiátrico neste país. Posso dar exemplos. Um conhecido de um conhecido meu entrou em depressão dias depois da buzina de seu carro ter quebrado. A leve depressão rapidamente se transformou em tendência suicida e em seguida adquiriu traços de um marcado comportamento psicótico. Procurou um terapeuta. No início, nem paciente nem doutor tinham associado a quebra do equipamento sonoro aos sintomas. Isso, até que o coitado avançou desesperado sobre um taxista que o levava para casa, só para apertar a buzina do carro. A buzina, me disseram, tocava o hino do Vasco da Gama. Depois dessa foi internado. Vocês não sabem, mas há uma clínica em Guaratinguetá para os buzinômanos anônimos. A clínica fica afastada da cidade, para evitar que os internos ouçam o tráfego. Ali é proibida expressamente a entrada de veículos porque, dois anos depois da fundação, um caminhão de suprimentos buzinou em frente ao portão, causando um surto coletivo em que os internos atearam fogo aos colchões. Quando os bombeiros chegaram, os buzinômanos roubaram os carros pipa, ligaram as sirenes e começaram a buzinar por todo local, enquanto a clínica ardia em chamas. Foi uma noite dos infernos, que só acabou com a chegada da tropa de choque da Polícia Militar, munida de tapa-ouvidos especialmente desenvolvidos para esse tipo de operação.

Por isso, meus caros, todo cuidado é pouco. Quando você der aquela buzinadinha inocente, só para aborrecer o motorista da frente, pensando que é isso?, eu paro a hora que eu quiser, lembre-se de que: (i) você pode involuntariamente desencadear um buzinaço de dimensões catastróficas; (ii) você já pode ser um buzinômano em estado terminal; e (iii) ninguém mais na rua é responsável pelo seu problema pessoal com o motorista da frente; deixe as pessoas em paz.

Posted by Porfirio at 10:47 AM

fevereiro 6, 2004

Sempre que vejo a Marta Suplicy ela está dando um chilique. A penúltima vez foi no programa do Jô Soares, dois anos atrás. A mulher esperneava porque o entrevistador havia perguntado que cor de calcinha ela gostava:

- Isso é um absurdo! Só porque eu sou mulher! Se fosse um homem, um político, você não perguntaria a cor da cueca dele!
- Perguntaria sim.
- Não perguntaria!
- Perguntaria. E também não ia achar ruim se me perguntassem a cor da minha cueca. Quer ver? Me pergunta.
- Pergunta o quê?
- A cor da minha cueca.
- Não vou perguntar uma coisa dessas!
- Pergunta. Pergunta a cor da minha cueca.
- Não vou.
- Vamos, Marta. Pergunta.
- ... Tá bom... (olhando para o outro lado) Qual é a cor da sua cueca? (Jô vai para longe da mesa após um leve empurrãozinho na cadeira de rodinhas, deixando à vista o enorme diâmetro de sua cintura; a calça, gigantesca, cheia de vincos, reentrâncias, volumes flácidos, aparece em cadeia nacional)
- Eu não uso cueca, Marta (e ficou rindo, enquanto esticava os suspensórios com os dois polegares).

É engraçado. Nossa Perfeita (acho que ela prefere ser chamada assim) se irrita com tudo, até com uma pergunta sobre a cor de sua lingerie. Mas não admite que uma dentista classe-baixa que teve seu consultório alagado pelo córrego do Pirajuçara demonstre algum tipo de indignação com a sua administração. A odontóloga teve a audácia de reclamar dos R$ 5.000,00 de IPTU que paga e de se indignar com o fato da Prefeitura gastar dinheiro plantando coqueiros no Itaim Bibi, enquanto a periferia chafurda na lama, literalmente. A resposta, como esperado, foi brilhante.

- No Itaim eles pagam R$ 20.000,00!

Vejam vocês. Eu moro no Itaim e sou um dos idiotas que paga R$ 20.000,00 por um coqueiro-anão. É um despautério, mas ainda assim, convenhamos, é melhor do que pagar R$ 5.000,00 por uma enchente. Havia, segundo as minhas contas, 467 respostas adequadas para serem dadas à dentista naquela ocasião (estamos fazendo o possível; não temos dinheiro; São Paulo é muito grande etc. etc.), e uma só inadequada. Nossa Perfeita conseguiu escolher a única resposta errada disponível, dentre cinco centenas de opções. Alguém que erra assim de maneira tão grotesca não pode assumir cargos de responsabilidade. Isso demonstra ou um completo desequilíbrio mental ou uma estupidez digna da perplexidade da população de nossa cidade.

Em suma: Essa mulher não pode ser reeleita de jeito nenhum.

Posted by Porfirio at 1:39 PM

fevereiro 3, 2004

Tento todo dia ser um rapaz tolerante. Me esforço de verdade. Mas às vezes não dá. Na capa de um jornal desta semana lia-se a notícia de que 244 fiéis foram pisoteados até a morte durante o haj, uma peregrinação anual muçulmana a Meca. Vejam bem, 244 mortos e, estava lá, o mesmo número de feridos. Aí alguém me pergunta: mas o que é esse haj? Olhem, não sei bem. Só ouvi que o ponto culminante foi o apedrejamento de pilares (!?) que representam o diabo (!!??) por mais de dois milhões de fiéis (!!!!). Lida a matéria a gente fica imaginando a cena. Dois milhões de muçulmanos atacando pedras em uma colunata que representa o capeta. Claro que boa coisa não ia dar.

A notícia me causou um certo inconformismo, ainda mais depois de ler a declaração do Ministro Saudita para Assuntos de Peregrinação (não é piada) e Apedrejamentos (é piada), Iyad bin Amin Madani. Todas as precauções foram tomadas para evitar um incidente desse tipo, mas esse é o desejo de Deus. Precauções foram tomadas? Que tipo de precauções podem ser tomadas numa situação dessas? Filas com senhas para um apedrejamento civilizado do capeta? Estilingues com protetores e mira laser? Capacetes nos fiéis das primeiras filas? Pedras emborrachadas? E outra coisa que não me entra na cabeça. Se era o desejo de Deus matar 244 fiéis naquela tarde, de que adiantariam os dispositivos seculares de proteção providenciados por bin Amim? Imaginem a bizarra situação. Deus sentado na cadeira assistindo ao haj enquanto come pipocas.

Agora vai. Vai, pisa na cabeça dele! Vai!! Ué? Mas o que é aquilo? Droga, um capacete!!

Discutir se era mesmo o desejo de Deus pisar na cabeça de 244 incautos, que, por sua vez, tiveram a excelente idéia de se juntar a outros 1.999.756 iluminados para atacar pedras no capeta, não é ponto. Entrar em uma tal discussão me faria tão biruta quanto os próprios. O ponto aqui é imaginar o Ministro para Assuntos de Peregrinação, bin Amin, tomando precauções para evitar que a vontade de Deus seja atendida. Eu não entendo bem isso. Como é que um sacerdote pode adotar providências para que a vontade de Deus não se realize? Se era um desejo Divino, evitar o pisoteamento de inocentes não seria pecado?

Sim, sim, seria pecado. Mas aí vem o outro e diz: bin Amin tentou mas não conseguiu; Deus é onipotente. Bem. Na minha humilde e correta opinião, essa coisa de livre arbítrio e onipotência não parece funcionar nas religiões. Se Deus é onipotente, então não temos arbítrio algum, muito menos para pecar. Se não é onipotente, então não é Deus. É no máximo um subgerente encarregado da supervisão do departamento de seres irracionais e fenômenos geológicos do Universo. A resposta padrão a essa crítica é que Deus é onipotente, mas nos deu o livre arbítrio. Ou seja, Ele quis que nós não nos submetêssemos à Sua vontade. Pra que? Apenas para nos punir quando nós não nos submetêssemos à Sua vontade.

Enfim, vai entender...

Posted by Porfirio at 7:49 PM

fevereiro 2, 2004

You may grind their souls in the self-same mill,
You may bind them, heart an brow;
But the poet will follow the rainbow still,
and his brother will follow the plow.

(John Boyle O'Reilly - The Rainbow's Treasure)

Uma tradução:

Você pode moer suas almas em um mesmo moinho
Pode uni-las, corações e mentes lado a lado
Mesmo assim o poeta seguirá o arco-íris
E o seu irmão seguirá o arado.

Num post relativamente recente defendi a tese de que os cursos de literatura deveriam ser mais intimistas e menos teóricos. Convido os leitores a darem sua interpretação pessoal desse poema. A minha é a seguinte. O poeta passa o dia seguindo o arco-íris, o que indica, além da falta de um objetivo definido na vida, uma enorme vontade de soltar a franga e entrar para o grupo de atores do Zé Celso. Enquanto isso, seu irmão dá duro no arado para pôr comida na mesa. O poema é conformista. Não adianta tentar obrigar o poeta a trabalhar ou o agricultor a soltar a franga. Nas inesquecíveis palavras de Bezerra, malandro é malandro, mané é mané. O problema consiste em identificarmos quem é o maladro e quem é o mané. Como o poema nos oferece o ponto de vista do poeta, e não o do irmão que dá duro, há uma certa tendenciosidade em favor do estilo de vida do primeiro, ao comparar a perseguição de um belo e colorido arco-íris com a de um desajeitado arado. Porém, o que a vida nos mostra é que o poeta virará um ator bicha e o seu irmão se tornará um magnata da soja.

Se o irmão tivesse um mínimo talento literário, responderia com o seguinte verso:

Você pode brigar com o vagabundo
Suspender a mesada e oferecer-lhe um salário
Mesmo assim o malandro se largará no mundo
E o seu irmão se tornará um milionário.

E aí, meus caros? Alguma outra interpretação?

Posted by Porfirio at 2:37 PM