janeiro 28, 2004

Antes de ser líder revolucionário e barbeiro, mantive uma movimentada banca de advogados. A advocacia é uma profissão engraçada. São encanadores, mas se vendem como literatos. Para ser advogado não basta um diploma de Direito e a aprovação pela OAB. É também preciso ter escrito má poesia. Todo bom advogado já fez má poesia na vida. Você já escreveu má poesia? Não? Sinto muito, não podemos contratá-lo, foi o que ouvi na minha primeira entrevista de emprego. Daí lá fui eu rimar amor com flor para incluir no meu currículo. Não transcreverei o poema, claro, já que alguns leitores podem não ter um banheiro por perto. Mas o fato é que dias depois estava empregado, graças a dois versinhos de segunda mão.

Mas não é só a poesia que é ruim. A prosa segue de perto e é sofrível. Advogados escrevem do mesmo jeito que nossos avós decoram suas casas. Imaginem o velhinho olhando para o canto da sala empoeirada: Gertrudes, este flamingo de louça ficaria bem ao lado do abajur oriental, não? Não, não ficaria, vovô. Seria um horror. E aquele leão de bronze e a cortina de seda bordada então, se fosse eu tocava fogo. Tão demodê quanto um flamingo de louça ou um leão de bronze é, por exemplo, uma citação em alemão ou francês em uma petição. Não há só línguas mortas. Há também as moribundas, faladas, mas com um pé na cova. Falar francês datou e citar em alemão é uma das coisas mais bregas que um escritor pode fazer, até porque ninguém mais fala nada de inteligente nesses idiomas e a mera intenção de intimidar (cuidado comigo, hein rapaz, que eu falo francês!) fica revelada. Revelar uma intenção é das coisas mais indiscretas e constrangedoras que uma pessoa pode fazer. Por isso, cada vez que lia uma frase francófila em um livro de Direito, minhas bochechas ruborizavam e um forte odor de fungos entrava pelas minhas narinas, como se tivesse em minhas mãos um alfarrábio farelento e amarelado. Um argumento inteiro em francês soava pior ainda. Parecia imediatamente burro, até prova em contrário. Je pense que... Amigo, você não pense coisa nenhuma, entendeu?

Como a casa da maioria dos avós, os textos dos jurisconsultos cheiram a bolor e estão entulhados de quinquilharias, palavras até então esquecidas em gavetas, expressões fora de moda. Ao abrir um desses livros, sentimos aquele constrangimento natural de quem, sem saber o que dizer ao anfitrião, fica inventando desculpas enquanto acha horrorosa uma residência visitada pela primeira vez. Com toda licença. Oh, que beleza essa coleção de conetivos! Uma graça. Todos enfileiradinhos, parágrafo por parágrafo. E essa citação em latim, hein? Combina mesmo com aquele tapete de oncinha. Em muitas oportunidades tentei explicar aos colegas que locuções como outrossim, consoante, dessarte e não obstante não combinam com nada, como o abajur oriental de minha vó Gertrudes. Sem sucesso, claro. Também posei de Aristóteles e tentei explicar que a repetição de um mesmo argumento quatro vezes não o torna mais verdadeiro do que se o explanássemos uma só vez. Em vão. É por essas e outras que os luminares de Estocolmo não entregam um prêmio Nobel do Direito. Eles antecipam, com razão, que nenhum jurista jamais vai dizer nada de verdadeiramente útil para a humanidade. Nem vale a pena criar a premiação. Flamingos de louça, abajures orientais e tapeçarias de oncinha não merecem prêmio Nobel. Merecem, no máximo, os elogios de uma tia velha e senil.

Posted by Porfirio at 5:24 PM

janeiro 26, 2004

Para comemorar o aniversário de São Paulo, nada melhor do que falar mal do Rio de Janeiro. São Paulo é a menos pior das cidades brasileiras. É impessoal, mas é a única em que podemos ter o prazer do completo anonimato por horas. Para quem é tímido, como eu, São Paulo tem uma grande vantagem, já que o tamanho da cidade e a sua feiura natural impedem que conhecidos se esbarrem nas ruas ou em restaurantes. O paulistano prefere ficar em casa a maior parte do tempo, se escondendo da chuva e das vistas desagradáveis. Se sai, se dissolve entre quatro milhões de anônimos que também tiveram a mesma idéia de ir ao shopping ou ao cinema.

Já o Rio de Janeiro é uma espécie de Ribeirão Preto com praia. Todo mundo que mora na Barra, Ipanema/Leblon e Copacabana se conhece. O Rio tem três restaurantes decentes. Se você sai para jantar, pode apostar, vai encontrar uma ex-namorada, um primo chato ou um amigo de faculdade. Não se lembrará do nome, trocará dez minutos de conversa indesejável enquanto pensa numa desculpa para se afastar:

- Porfiro!!! Grande Porfirio!!!!
- Hã? (Sem fazer a menor idéia de quem é o cara) Ah sim, olá.
- Quanto tempo, hein? E a loja?
- (Enrolando) Vai bem, vai bem. Mesmo na crise barba e cabelos continuam crescendo. E você (seja lá quem for)? Como vai o - hã (pense rápido, pense rápido!) - o seu negócio?
- Mal, como você sabe. Mas que saudades, rapaz!
- (Meu Deus do céu, quem é esse homem?) Também, também. E o pessoal (boa tentativa)?
- Batendo aquela bolinha.
- (Batendo aquela bolinha? Ponho a mão no peito e começo a contorcer o rosto) Acho que estou tendo um princípio de infarto. Você poderia me dar licença um minuto?

O Rio, como essas vilas de interior, é uma cidade que exige simpatia. São Paulo está pouco se lixando para quem você é. E nós, em represália, estamos pouco nos lixando para a cidade. É, como dizem na propaganda da Marta, nossa Prefeita biscate, uma relação de amor.

PS.: Leiam o artigo do Diogo Mainardi na última Veja, sobre São Paulo. Impagável.

Posted by Porfirio at 2:20 PM

janeiro 23, 2004

Não sou nenhum Adonis, apesar de já ter feito algum sucesso com o sexo sufrágio (já foi sexo frágil, mas é tanta reivindicação, tanta disposição para dar palpite em tudo, que resolvi mudar o nome). Hoje estou relativamente bem (sairei como destaque na Beija-flor de Nilópolis este ano), mas no passado me sentia decrépito e acabado. Minha condição física era bastante debilitada e por vezes temi pela minha saúde. Não estou exagerando. Para vocês terem uma idéia, cheguei a me contundir gravemente secando o cabelo com uma toalha. Caí no chão com aquela cara de Ronaldo quebrado e rolei sobre o tapetinho até perto do bidê. A toalha recebeu um cartão vermelho e desde então passei a usar secador. Mas esse não foi o fundo do poço. O pior aconteceu quando desloquei uma clavícula me espreguiçando no sofá da sala, o que impôs um dilema: até para ser preguiçoso é preciso algum preparo físico. Diabos.

A solução foi recorrer àquela milenar técnica oriental de exercícios preguiçosos, a yoga. Ou yôga, como me corrige sempre o mestre Mahatma do Nepal Gandhi, um elevado líder espiritual que se refugiou no Brasil atrás de mulatas. A yôga, todos sabem, surgiu na Índia. Foi criada pelos funcionários públicos de Delhi, que não faziam coisa nenhuma o dia todo e, como eu, começaram a se contundir com freqüência. Buscando um equilíbrio perfeito entre a indolência completa e o fazer coisa nenhuma, esses servidores da antiguidade desenvolveram uma seqüência de espreguiçadas que, sem maiores esforços, permitia um relaxamento mais eficaz nos momentos de lazer (ou seja, o dia todo). Além disso, criaram a meditação, uma excelente desculpa para o seu chefe quando ele te pega dormindo durante o expediente. Esses servidores viraram heróis nacionais e a sua cultura foi exportada para o mundo todo, Brasil inclusive e principalmente.

A yôga melhorou muito a minha vida. Além de ter percebido a transitoriedade do homem e a pequenez de nossos problemas diante da beleza do Universo, hoje consigo dançar tcha-tcha-tchá e amarrar os sapatos sozinhos. A prática da yôga também me ensinou a levitar. No inverno, a levitação é muito útil para sair do banho sem pisar no chão molhado e gelado. No verão, quando pratico no quarto, só tenho que tomar cuidado para não esquecer o ventilador de teto ligado, por razões óbvias. Mahatma me disse que, depois do tombo de bicicleta e do atropelamento por elefante, a decapitação por ventiladores de teto é a maior causa de mortes na Índia. E há também o indispensável incenso. Vocês podem achar que é só uma fumacinha fedida para espantar mosquitos, e é mesmo. Antes de usar incenso, minha casa era infestada de pernilongos enlouquecidos por sangue. Depois que iniciei a prática e passei a fazer uso do incenso, todos eles se tornaram vegetarianos e agora só picam os legumes que deixo fora da geladeira.

Vai. Chega disso, Porfirio. E eu que tentei escrever algo sério hoje, sobre Hume e os céticos... Bem, fica pra segunda. Bom fim-de-semana a todos.

Posted by Porfirio at 5:26 PM

janeiro 22, 2004

Sou um obsessivo e volto ao meu único assunto: a falta de uma elite qualificada no país de vocês (já não não é mais meu país; reneguei). O problema dos brasileiros não é a remessa de lucros, os ciclos de monocultura, a saúva, a dívida externa ou o capital volátil. O problema não é a má distribuição de renda, nem acho que é, sinceramente, o Lula. O problema desse país é a falta de uma elite dominante de qualidade. Falta gente usando smoking, bebendo champanhe, ouvindo ópera, comprando quadros. Faltam ricos letrados.

Minha campanha Elite já! é um sonho antigo e, penso eu, o único plano de ação que visa atacar o real problema nacional. Ela busca arrecadar recursos para financiar a formação de uma elite culta e limpinha. Estamos preparando camisetas com vários slogans (e.g. "eu tenho um patrão que lê livros"; "doei dinheiro ao invés de comprar um CD sertanejo") e adesivos automotivos (e.g. "vai estudar vagabundo"; "meu outro carro eu vendi e mandei meus filhos para a Europa"; "aqui só entra PhD"). O dinheiro arrecadado com as vendas vai ser usado para financiar várias ações high-sociais, como cursos de boas maneiras na mesa (módulo básico: falando de boca cheia e a função do guardanapo; módulo avançado: talheres de peixe e taças), distribuição de alta literatura e impressão de folhetos explicativos sobre como escolher, combinar e dar nós em gravatas (four in hand, half Windsor e Windsor). A idéia é atingir primeiro o eixo Rio-São Paulo, começando pelas áreas mais calamitosas como Morumbi, Alpha Ville (SP) e Barra da Tijuca (RJ). Depois a campanha se estenderia por todas as comunidades carentes do Brasil, distribuindo cestas básicas da elite dominante e opressora (vide post de 02 de dezembro). Outro projeto ambicioso é o programa A adega vai até você, em que um ônibus especialmente projetado se deslocaria até os bairros mais necessitados para promover degustações às cegas. Há ainda planos para um trabalho muito bonito com condenados por crimes de colarinho branco. Assistentes socialites visitarão presídios com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, levando CD's do Cole Porter e cópias de um livro de aforismos do Oscar Wilde.

Também aceitamos doações em dinheiro ou bens. Qualquer coisa serve, um pôster de um quadro de Jean-Louis David, uma caneta Cartier, jóias de família etc. Vamos trabalhar juntos e criar uma elite decente para este país. A causa é nobre.

Posted by Porfirio at 10:18 AM

janeiro 19, 2004

Ando estudando física. Assunto fascinante e envolvente. Muita coisa mudou desde que Aristóteles defendeu a cabalística tese de que a terra era o centro do universo e que haveria quarenta e sete ou cinquenta e cinco motores imóveis girando as esferas celestes. Hoje, a mecânica do universo está em outro patamar. Após os sistemas de Ptolomeu, Copérnico, Kepler, Galileu e dois ou três incautos queimados em fogueiras, descobrimos finalmente que a pergunta era idiota, já que tudo é relativo. Ou não. Mas, enfim, o fato é que velhas questões continuam na moda. De onde viemos? Para onde vamos? Qual a origem do universo? O cosmos é um grande cassino? Então onde fica o banheiro mais próximo? E se a humanidade um dia responder a todas essas questões, será que os filósofos pararão de fumar tanto? Bem, como uma cortesia aos meus poucos leitores, procurei resumir as posições defendidas por alguns dos grandes pensadores que tenho em alta conta, diante desses problemas tão fundamentais. Às vezes, vocês encontrarão também as conclusões provisórias a que cheguei, após profunda e detida reflexão. Bom proveito.

1. O universo obedece a leis de causalidade?

Deus não joga dados. (Albert Einstein, físico)
Deus joga dados sim, sua besta. (Werner Heisenberg, físico)
Deus joga dardos. (Max Planck, físico)
Deus joga strip poker todas as quartas-feiras no Fonseca's. (Miranda, filósofo e garçom do Fonseca's)
Deus é um crupiê safado e essa porcaria de roleta está viciada. (Porfirio Caetano das Neves, barbeiro)

2. Qual é a forma do universo?

O universo é um conjunto de esferas concêntricas com a terra no centro e a lua, o sol e as estrelas girando à sua volta . E se algum de vocês me perguntar o que tem depois das estrelas eu me retiro. (Aristóteles, filósofo)
O universo tem a forma de uma rosquinha. (Stephen Hawking, matemático)
O universo tem a forma de uma camisinha. (Miranda, filósofo e garçom do Fonseca's)
Como? Ah, sim. Concordo com qualquer coisa que o Miranda tenha dito. (Porfirio Caetano das Neves, barbeiro)
Depende. A que velocidade? (Albert Einstein, físico)
Hein? (Max Planck, físico)

3. Qual a origem e destino do universo?

Começou com o big bang e o seu destino é o big crunch. (Stephen Hawking, matemático)
Começou com o big mac e o seu destino é uma torta de maçã com recheio infinitamente quente. (Miranda, filósofo e garçom do Fonseca's)
Começou com uma offshore nas Ilhas Jersey e o seu destino, pelo que li nos tablóides, é Grand Cayman. (Porfirio Caetano das Neves, barbeiro)
Depende. A que velocidade? (Albert Einstein, físico)
Hein? (Max Planck, físico)

4. É possível a unificação de todas as teorias físicas?

É possível. (Albert Einstein, físico)
Não é possível. (Werner Heisenberg, físico)
É possível! (Albert Einstein, físico)
Não é possível! (Werner Heisenberg, físico)
É possível sim! (Albert Einstein, físico)
Não é possível não! (Werner Heisenberg, físico)
Ok, ok. Vamos resolver isso de maneira randômica, no par ou ímpar. (Max Planck, físico)
Essa teoria das supercordas deu um nó na minha cabeça. (Paul Dirac, físico)
Pessoal, alguém viu onde eu coloquei minha carteira e as chaves do carro? (Porfirio Caetano das Neves, barbeiro)

Quem quiser se aprofundar ainda mais, escreva. Tenho uma ótima bibliografia.

Posted by Porfirio at 3:49 PM

janeiro 16, 2004

Há essa briga sobre quem inventou o avião, se os irmãos Wilbur e Orville Wright ou Santos Dumont. Os americanos eram fabricantes de bicicleta que trabalhavam dia e noite para obter patentes que os deixasse ricos. Santos Dumont um playboy vida boa, que se divertia em Paris gastando o dinheiro acumulado por sua família com o café. Santos Dumont tinha mais charme, mas os irmãos Wright, além de representarem melhor o espírito de seu tempo, voaram antes. Fico com os últimos.

Falei em patentes e me lembrei de algo que queria dizer. Devemos à guerra a maioria das invenções importantes da humanidade (o acaso vem em segundo lugar). Nossa prosperidade foi conquistada à custa de muito tiro e facada. Isso, claro, até a fase do capitalismo avançado, que é nada mais nada menos que uma guerra por dinheiro conduzida sob condições controladas. O capitalismo é um bom sistema, porque permite liberar o general, o pequeno Rommel, que existe dentro de cada um de nós. Desenvolver estratégias de dominação, perseguir objetivos táticos, invadir e conquistar mercados, pulverizar a concorrência. A coincidência não é só de vocabulário. O espírito capitalista é a versão pós-moderna do ímpeto bárbaro de dominação que herdamos de nossos ancestrais silvícolas. Voltado para o bem comum.

(Um aparte, pois meu pequeno Rommel acaba de tocar a sua corneta. O problema da esquerda é exatamente o de negar essa nossa quedinha pelo barbarismo. Ser de esquerda é enfiar os dedos no ouvido e repetir: o homem é bom, o homem é bom, o homem é bom. Veja, ô sua anta, de boina e pochete: o homem não é bom, entendeu! O homem não é bom! Meu sonho era que a mão invisível do mercado desse uns tapas na bunda desse pessoal...).

Concluindo, porque hoje é sexta e eu quero beber. Capitalismo, livre mercado, patentes. Acho tudo isso ótimo. Só é uma pena não podermos mais catapultar cabeças decepadas para dentro das fortalezas inimigas, nem gritar ao ataque!! antes de entrar em uma reunião de negócios. Nesse mundo moderno, muito da diversão se perdeu, não?

Posted by Porfirio at 4:22 PM

janeiro 15, 2004

Antonio Salieri (1750-1825), compositor da corte do de Viena e contemporâneo de Mozart, é o santo padroeiro dos sem-talento. É o mártir da inveja criativa, o protetor dos escritores prolixos, dos músicos desafinados, dos poetas concretistas, dos pintores abstracionistas e daquele pessoalzinho do teatro. Fiz a minha prece neste começo de ano: São Salieri, por favor, me ajude a escrever textos ao menos razoáveis; afaste os maus leitores e faça com que os bons encontrem o caminho até mim; não permita que as pessoas riam do que escrevi a sério, nem levem a sério o que escrevi brincando; me ajude a não ter muita inveja de quem tem talento e me dê um saco de elefante para tolerar o sucesso dos que não o têm. São Salieri (dando três pulinhos), por favor, me ajude a terminar a minha maldita dissertação de mestrado e, se eu ganhar algum dinheiro com as letras, que eu encontre uma aplicação que me renda 2% ao mês em dólar, amém.

Os incrédulos e hereges dão risada, mas Sandy, Júnior, Wanessa Camargo, Miguel Falabela, Zé Celso, Gerald Thomas, Paulo Coelho e tantos e tantos e tantos outros nomes são devotos fervorosos. Já fiz promessa e vou pagar em dia. Vejo vocês no Prêmio Jabuti.

Posted by Porfirio at 2:38 PM

janeiro 13, 2004

Já falei e repito. Nossas universidades são uma vergonha. A visão de uma USP ou PUC é tão esclarecedora sobre a nossa miséria quanto a da favela de Vigário Geral ou do Morro Dona Marta. Somos uma elite favelada. Somos ricos (relativamente aos nossos pobres, frise-se) carentes e abandonados, largados nas ruas, sem ópera, sem teatro, sem laboratórios, sem bibliotecas, sem artes plásticas. Somos uma elite de pedintes.

Pensando nos jovens ricos abandonados, acordei cedo e resolvi ligar para meu grande amigo Sebastião Salgado, o fotógrafo oficial dos fracos e oprimidos do mundo. Sugeri um novo tema para uma exposição de fotos no Musée d'Orsay. Se chamará: Universidades brasileiras, uma visão desoladora do terceiro mundo. Fará mais sucesso que a Êxodos, sobre os refugiados e migrantes, que a África à deriva, que a Luta pela terra. Imagino as fotos: (1) um aluno da USP, de chinelas e camiseta regata, carrega, com um olhar perdido e sob um sol fustigante, o Dicionário de Filosofia de Abbagnano; (2) o Prof. Alaôr Caffé Alves, solitário, fita o vazio do mundo, em pé em frente à fachada pixada da Faculdade de Direito do Largo São Francisco; (3) detalhe da parede de um dos cubículos do banheiro masculino da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), em que se alternam frases de Karl Marx e representações de vulvas e pênis; (4) o interior do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da PUC-SP, menor e mais desconfortável que o buraco do Saddam; e (5) o prédio da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), ironicamente o mais feio do campus.

A idéia é levantar fundos no exterior para ajudar a nossa pobre elite a ter, ao menos, o direito a uma educação decente. Seria o início da minha campanha Elite já!, um sonho antigo do qual voltarei a falar em outra oportunidade. Tenho certeza que as cenas de nossa miséria acadêmica causarão grande impacto. Eu e Salgado aceitamos sugestões de novas fotos.

Posted by Porfirio at 3:22 PM

janeiro 12, 2004

Quem acompanha este blogue sabe do livro de curiosidades que li recentemente. Lá descobri que foram os Tártaros, e não os Hamburgueses, que inventaram o hambúrguer. Além do hambúrguer, os Tártaros foram também os criadores do molho Tártaro e do steak tartar. Que povo bárbaro! Fiquei tão interessado nessa pré-história da gastronomia, que fiz uma pesquisa mais detalhada sobre esses cozinheiros medievais.

Os Tártaros eram uma tribo de chefs de cozinha nômades que vagava pelo que é hoje a Mongólia, junto à fronteira manchu. Eram temidos por seus hábitos rudes e molhos apimentados, que durante décadas espantaram os poucos que se arriscavam a visitar a região. Além dos Tártaros, outras tribos nômades viviam nas Estepes asiáticas, como os Mongóis, os Keraites, os Naimanes e os Vinagretes. No início do séc. XIII, os Tártaros eram liderados por um guerreiro chamado Temudjin, uma figura histórica que vocês, como se verá, certamente conhecem. A vida desse ilustre personagem teve influência decisiva sobre vários de nossos hábitos modernos. Por isso, aqui vai uma pequena cronologia.

1155 (ou 1156) - Nasce Temudjin, filho de Yasugai, khan (líder) da tribo dos Vinagretes. Ainda criança, seu pai é assassinado e o pequeno Temudjin é adotado por Toghril, khan dos Tártaros. Pelo seu talento na cozinha e habilidade política, Temudjin naturalmente sucede o padrasto no comando do clã.

1204 - Um salmão estragado causa disenteria em Temudjin, que se enfurece e resolve revirar as Estepes atrás de um banheiro decente. A peregrinação obriga à reunião de todas as tribos locais sob um só comando. Surge daí um império de proporções gigantescas e com um cheiro horrível. A reunião das tribos e a desordem intestinal dão a Temudjin a alcunha de khagan (khan dos khans), que, anos depois, justaposta à palavra gengis (ou grande, na língua local), dá o nome a Gengis Khagan, ou, para os íntimos, Gengis Khan.

1206 - O salmão é proibido na Mongólia.

1210 - Gengis Khan avança sobre o império chinês e sitia Pequim. Passados alguns meses, os Tártaros resolvem ir embora depois de experimentar o péssimo suco em pó servido pela dinastia Tang. Partem então para cima do Tibete e acabam com o jejum dos monges locais.

1212 - Ante uma súbita falta de estragão para o molho do peixe, Gengis Khan deixa mais uma vez a Mongólia e invade a Rússia atrás do tempero. Após a vitória, promove um grande banquete em homenagem à sua cavalaria. Ali, serve pela primeira vez um bife a cavalo, que faz enorme sucesso.

1210 - 1218 - Os Tártaros introduzem importantes reformas nas culturas invadidas. Obrigam os monges tibetanos a usar guardanapos e proíbem o rodízio de pizzas em toda a Ásia.

1219 - Não contente com suas inúmeras conquistas, Gengis Khan decide continuar a sua saga de saques e parte atrás de novas receitas. Dessa vez, o alvo escolhido é Kara-Kitai, um Estado turco islâmico na fronteira com a Pérsia. A escolha se dá porque o líder islâmico, Kushluk, além de afirmar aos quatro ventos que era mais khagan que o próprio Gengis, insistia em sentar à mesa sem camisa e não escovava os dentes após as refeições. A batalha que se seguiu foi uma das mais sangrentas de toda a história, com muita carne mal passada e kibe cru servidos aos combatentes.

1220 - Preso pelas linhas turcas inimigas, Gengis Khan sofre torturas brutais, como assistir ao seu steak tartar ser jogado no óleo fervente. Nascia assim o kibe frito.

1223 - Disfarçado de bacalhau, Gengis Khan foge da prisão, se reúne novamente com seus soldados e planeja um novo ataque. A vitória que se segue é avassaladora. Kushluk é preso e obrigado a escovar os dentes com creme dental anti-tártaro (daí o nome) em praça pública, para sua humilhação definitiva.

1224 - Estressado com tanta violência gratuita e preocupado com a educação dos jovens bárbaros, Khan sai de férias e vai para Alemanha. Em Hamburgo, participa de várias festas e recepções sociais, travando contato com as grandes personalidades de seu tempo.

1225 - Descontentes com a presença de Gengis Khan na cidade, jovens universitários hamburgueses ateiam fogo a steaks tartar nas ruas, dando origem, ao mesmo tempo, ao protesto estudantil e ao hambúrguer grelhado.

1227 - Gengis Khan vai embora de Hamburgo e volta para a sua terra natal, intencionado a escrever um livro de poesias bucólicas e uma auto-biografia, cujos direitos já haviam sido vendidos para um editor local. Morre de um ataque cardíaco, causado por suas altíssimas taxas de colesterol. Seu último desejo foi ser cremado em uma grelha de churrasco.

Fascinante, não? É, meus caros. Canjicas também é cultura geral.

Posted by Porfirio at 11:20 AM

janeiro 8, 2004

Li num livro de curiosidades que foram os tártaros que inventaram o hambúrguer. Isso nos leva a concluir, a contrario sensu, que foram os hamburgueses que inventaram o molho tártaro. Em represália, imagino.

Posted by Porfirio at 3:40 PM

Lula tem pretensões hegemônicas para a América Latrina. Bush para o mundo. Lula tem inveja de Bush, porque o americano tem mais poder, mais visibilidade, mais dinheiro. É por isso, por inveja, não por ideais, que o efelentíssimo bate lata e faz tanto barulho. Mas vejam aqui o meu ponto. Pobre é mesmo uma desgraça. Não pode subir num banquinho que já começa a fazer discurso. Quer mandar, gosta de mandar. Mas mandar em quem, pra que? A sonhada liderança no Cone Sul nos faria generais de um exército de Branca Leone. Um exército de maltrapilhos. Como não bato bem da cachola, já coloquei uma panela na cabeça, peguei uma vassoura piaçava e começo a ensaiar os primeiros passos da marcha militar. Estarei pronto e, quando chegar a hora, me juntarei a mi companheiros bolivianos, colombianos e paraguaios para tomar de volta o que nos foi roubado pelos ricos inescrupulosos do Hemisfério Norte. Lutarei até a morte porque, afinal, nas belas e inspiradoras palavras de nosso Branca Leone: "Se não tivermos sucesso, corremos o risco de fracassarmos".

Posted by Porfirio at 3:32 PM

janeiro 6, 2004

Os adultos que gostam de literatura são os poucos sobreviventes do massacre que professores promovem durante os longos sete anos de ginásio e colegial. Nas aulas de português e literatura, quando chegava o temível momento da interpretação do texto, me entrincheirava sob a carteira, tremendo e rezando para que o professor não notasse a minha presença e não executasse à queima roupa os escritores que tanto amava, no paredón das teorias cretinas sobre escolas literárias. Camões foi espancado na minha frente, por uma turba composta pelo narrador onisciente, pelo eu poético e pela Flora, minha professora de português. Desacordado, foi então afogado nas águas mornas do Quinhentismo e nunca mais se levantou (Minto. Outro dia ele deu sinais de vida num livrinho de sonetos, que encontrei largado numa estante R$ 3,99 da Saraiva). Machado e Eça foram reduzidos a fenômenos sociológicos pelo dito Realismo. Eça sofreu uma tentativa covarde de esfaqueamento pelas costas, planejada e executada pela concepção acadêmica do romance de tese, que ainda anda por aí em apostilas de cursinho, solto e serelepe, desfrutando da impunidade que reina neste país. Machado foi atropelado pela narrativa não linear, que perdeu o controle do seu carro e o pegou na calçada da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Os dois se recuperaram rápido, mas sofreram escoriações feias.

Posted by Porfirio at 4:39 PM

Algo que nunca entendi é o porquê de estudarmos os gênios da literatura universal diluindo-os em um momento histórico ou um contexto social, duas das expressões mais odiosas que já se inventou. Penso que os gênios são gênios exatamente porque escaparam do seu momento histórico e contexto social para escrever alguma coisa que ultrapasse essas condicionantes. Até porque, claro, se não tivessem escapado não teriam chegado até nós. Se essas escolas literárias servem para relacionar os gênios com seus colegas menos talentosos ou com o ambiente ordinário de que eles tentaram a todo custo fugir, então elas só dão ênfase ao acidental e negligenciam o essencial das obras.

Um bom curso de literatura faria exatamente o contrário do que se vê por aí. Mandaria os alunos procurarem nos livros os trechos que mais os agradam, não por razões acadêmicas, mas apenas porque são engraçados, poéticos etc. Depois os alunos justificariam suas escolhas de maneira pessoal. O curso desprezaria tudo que fosse contextual e histórico, depuraria os excessos até chegar ao singularíssimo, ao íntimo, ao privativo. O bom escritor fala ao pé do ouvido, confidencia. Muita gente reputada ficaria pelo caminho, dissolvidas em modas literárias e em panfletagem política. Feita a raspagem, os alunos perceberiam que esse singularíssimo não é explicável por teorias ou contextos. É uma questão de gosto, e o curso serviria não para ensinar teoria literária, mas para para ajudar cada um a fazer a sua lista de prediletos.

Posted by Porfirio at 4:37 PM

Escrever não é um ofício fácil, as idéias vivem me escapando. De papel e caneta na mão, me sinto um ornitólogo armando uma arapuca para uma ave rara. Claro que ela nunca vem na hora em que estou pronto. Sempre me pega desprevenido, quando a gaiola não está mais ao meu alcance. Surge do nada, faz um gracejo, exibe as penas coloridos, depois some no meio das brumas dos pequenos e numerosos pensamentos que preenchem nossos dias.

Posted by Porfirio at 4:32 PM

Engraçado como algumas idéias parecem belas quando estão soltas, mas no papel ficam péssimas. Como aqueles pássaros que enjaulados perdem o canto.

Posted by Porfirio at 4:31 PM

janeiro 5, 2004

A praia seria um lugar perfeito, não fosse a areia, o sol escaldante e a água salgada. É verdade que, tirando isso tudo, de bom mesmo só sobra a minha noiva de biquíni.

Posted by Porfirio at 12:50 PM

Pingue-pongue, pebolim e sinuca. Minha hegemonia no triathlon de gordo continua.

Posted by Porfirio at 12:49 PM

Banana boat é uma curiosa atividade de lazer em que doze bananas pagam dez reais cada, montam em uma grande banana de borracha inflável e são rebocados por uma lancha marítima em alta velocidade. A graça da coisa está nos tombos que os bananas, como eu, levam. Para diversão hilariante dos que dividiram comigo essa experiência, escorreguei da engenhoca logo no início, tendo no entanto ficado com o pé preso em uma fita de segurança. Enquanto era arrastado por sobre as ondas e jatos de água salgada inundavam meus olhos e narinas, implorei por minha vida e pelo direito a uma morte misericordiosa. Com a banana ainda em movimento, fui finalmente resgatado por minha noiva, que estendeu sua mão no exato momento em que já perdia a consciência.

Não me lembro bem, mas testemunhas dizem que uma sardinha pulou da minha boca quando recebi a massagem cardíaca.

A banana boat é um perigo nacional. Maior que a saúva, que a remessa de lucros das multinacionias, que a dívida externa, que o capital volátil. É uma atividade de extremo risco, sem regulação alguma. Sou a favor da criação de uma agência nacional para o setor, que, segundo fontes secretas me confidenciaram, movimenta milhões por ano. Seria a ANB - Agência Nacional da Banana, ligada ao Ministério da Justiça. Suspeito inclusive que a banana boat é uma atividade de fachada, utilizada para lavagem de dinheiro do narcotráfico. Todos os envolvidos, do piloto da lancha ao cobrador, fumavam maconha, fato que explica a demora inaceitável no meu salvamento. Eu mesmo esqueci no bolso da bermuda cem reais que, após quinze minutos no mar, foram completamente lavados.

A banana boat também vem sendo utilizada para atividades ilícitas internacionais. Com aviões e carros na mira das autoridades, as banana boats viraram a bola da vez para terroristas. Cheia de explosivos plásticos, uma banana de dinamite boat, na carinhosa expressão de Arafat, tem poder de destruição vinte vezes maior que o de um homem bomba, com a vantagem de permitir a participação de doze mártires de uma só vez. Houve até um incidente recentíssimo, importante de se comentar. A notícia não foi veiculada e nenhum jornal brasileiro a deu (apenas o 'Midia sem máscara', se não me engano), mas árabes tentaram explodir a estátua da Liberdade com uma banana boat durante as festividades de ano novo. A tragédia só foi evitada porque a polícia marítima achou estranho o deslocamento de uma banana inflável conduzida por doze árabes de turbantes naquela área, e torpedeou-os antes de consumada a tragédia.

Posted by Porfirio at 12:45 PM