Como bem me lembrou Bentinho, afável leitor e também personagem machadiano, o Governo afirmou que o novo Brasil não troca princípios por mercadorias. Eu, figurinha tarimbada dos círculos céticos, só fiz isso até hoje. Com 04 anos, entreguei ao meu pai as duas coisas pelas quais tinha mais amor nessa vida, em troca de um trenzinho elétrico e de um Falcon mergulhador: minha chupeta e minha fraldinha de dormir. Aos 16 abri mão de meus princípios comunistas por uma bicicleta nova, mountain bike, com garupa e pintura metálica. Aos 18, troquei os meus princípios socialistas por um carro zero quilômetro.
E querem saber? Acho que fiz excelentes negócios. Coisas de pai para filho. Assim como os meus, os princípios do efelentíssimo, do Celso Amorim e dos demais companheiros não valem dez mangos. Se trocassem por um Lada usado sairiam ganhando. Eles e, principalmente, nós.
Depois de trocar ou vender todos os meus princípios por bens materiais semi-duráveis (quando não descartáveis), expliquei para a minha noiva que tenho apenas duas lições a dar para um futuro filho, se ele um dia vier: como dar um nó de gravata Windsor e como pegar nos talheres. O resto, infelizmente, será só com ele.
Ah, sim. Há uma terceira lição: nunca votar em gente de lingua plesa.
Bom ano novo a todos e até a volta.
Instalem um bafômetro no Alvorada.
(Sua sugestão de medida para o Governo adotar em 2004, no Manhattan Connection - GNT)
Discutir preço do suco de laranja é coisa de dona-de-casa.
(Comentando a posição do Governo sobre a ALCA, de novo no Manhattan Connection - GNT)
As minhas letras são todas autobiográficas. Até as que não são, são.
(Caetano, em um momento freudiano, explicando a origem e fonte inesgotável de suas músicas, na abertura do livro Sobre as letras, da ed. Cia das letras)
Ele faz isso de propósito...
Há 100 anos, dois países podiam se dizer democráticos: EUA e Inglaterra. Hoje 62% ou mais das nações desfrutam desse regime. Países tão improváveis como Alemanha, Japão e Rússia, de tradições imperialistas centenárias, hoje têm governos rotacionais de eleições periódicas. O Japão é um belo exemplo. Até 60 anos atrás, combatentes nipônicos se atiravam com avião e tudo sobre encouraçados americanos. Algo tão oriental e tão suicida como os atuais homens bomba palestinos. Cinco décadas foram suficientes para vesti-los de terno e gravata e transformar esse povo no maior consumidor de Gucci e Prada do mundo civilizado.
Por que digo isso? Porque talvez W. Bush não seja tão idiota quanto o pintam. Talvez a invasão gere frutos, não seja uma guerra perdida. Quem sabe a Palestina, daqui a cinqüenta anos, possa se tornar um lugar de veraneio, com butiques, cafés e malls, ao contrário de toda nossa míope expectativa? Quem sabe eu não possa passar minha lua de mel em Jerusalém?
Lula quer fazer piquete ao lado de Kadafi e Castro em Washington. Sua complexa política externa pode ser definida assim, em três palavras: contra hegemonia americana. Todos os movimentos do Lula cheiram a pequenas provocações, traquinagens, quase piadinhas de mal gosto dirigidas a Bush. Como um moleque, que mostra a língua e sai correndo. Lula tem sede de poder e inveja de quem tem mais poder que ele.
Se vivêssemos hoje às vésperas da II Guerra, nosso presidente estaria com viagem marcada para Berlim. Vistaria a sede do National Sozialistische Deutsche Arbeiter Partei - N.S.D.A.P, apertaria a mão do seu líder de massas, e firmaria um acordo de cooperação comercial com a Alemanha. Nossa sorte é que não há no mundo nenhum grande ditador disponível para visitas. Só os nanicos de sempre.
Vergonha, vergonha.
Mas o que me assusta é o oportunismo desavergonhado. O Brasil e mais uns e outros, depois de criticarem a guerra, de chamarem o Bush de estúpido e assassino, querem "ajudar na reconstrução do Iraque". Querem uma bocadinha das licitações. É algo como ser contra a prática de um crime mas, na hora de dividir o produto do roubo, entrar na fila. Não dá.
Quem exige moral, deve estar pronto para se comportar segundo ela. Por isso, só países que foram a favor da invasão poderiam se candidatar a essas licitações. Não pelo dinheiro (até porque a coisa lá não vai ser fácil), mas por acreditarem nos valores que motivaram a guerra. Lula não acredita nesses valores. Então, que vá passar a sacolinha em outras bandas.
Capitalismo pode existir sem democracia, mas não há democracia sem capitalismo. Se eu fosse um aristocrata do séc. XVIII, riria das aspirações de um governo do povo. Quem a Creide, faxineira, elege? Celso Russomano, Ratinho, Babá, Arnold Schwarzenegger etc. Cantores, apresentadores de TV, atores pornográficos, falastrões, mitômanos. Impensável imaginar as principais instituições de um país dependendo do discernimento desses indivíduos. Hoje, o Conde Porfirio Caetano das Neves observa estupefato que o sistema funciona, não por um acaso nos melhores lugares que há para se viver. Qual o segredo? Acho que a democracia só dá certo onde o Governo não é importante, onde a máquina pública é coadjuvante. Mais. Ela dá certo porque faz os Governos desimportantes. Eleições periódicas e sufrágio universal exigem a redução do Estado porque, de merda em merda, de tropicão em tropicão, a população se cansa dos idiotas que ela própria elege.
O segredo da democracia está em dar ao povo o poder de eleger um Governo que não tem poder algum.
A máquina pública não precisa ser nenhuma Brastemp, mas tem que ser Enxuta.
Li um artigo de um dos colaboradores d'O Indivíduo. Pra quem não sabe, é aquele site que prega o valor do pensamento individual repetindo tudo o que o Olavo de Carvalho diz. O artigo trata desse assunto pegajoso denominado "estado democrático de direito". É de autoria de um certo Marcello Tostes, se chama "Liberalismo clássico: uma crítica", e parece defender o inverso do que acabo de dizer. Segundo Tostes, a noção de Estado democrático limitado é autocontraditória, porque Estado democrático pressupõe uma tendência expansionista ilimitada.
Vou tentar resumir, da forma mais honesta possível. O artigo diz que nas democracias as pessoas entram no aparato estatal através de eleições periódicas, que são um veículo de escambo de privilégios por votos. Esse escambo cria um círculo vicioso: o eleitor recebe benefícios (direito gratuito a creche, comida, hospital, escola etc.) em troca de votos; os votos dão o poder ao eleito para gerar mais benefícios para o eleitor; o eleitor recebe os novos benefícios em troca de novos votos. De eleição em eleição, mais benefícios são criados às custas da espoliação da classe privada produtiva, para serem trocados por mais votos e assim por diante. O resultado é que a democracia tende a uma expansão ilimitada do perverso Estado (e seus consumidores de tributos) em prejuízo das angelicais forças capitalistas de mercado (os pagadores de tributos).
1. O título deveria ser outro. Sugiro "Estado democrático: uma crítica", já que o nome original diz exatamente o contrário do que o artigo prega. O liberalismo é que é idolatrado e a Democracia é a criticada. Se eu escrevesse um artigo intitulado "Karl Marx: uma crítica" e o concluísse dizendo que os comunistas precisam defender melhor os ideais essenciais de O Capital, aposto que me chamariam de safado, com toda razão, diga-se. Essa discrepância entre título e conteúdo é uma técnica discursiva bastante criticada por O. de C. quando utilizada pela esquerda jornalística, mas o discípulo parece ter ignorado essa lição.
2. O argumento do Tostes nada mais é do que um negativo, uma cópia invertida do argumento de Marx para demonstrar porque as perversas forças capitalistas sucumbiriam ante as angelicais pretensões proletárias. Para Marx, eram os capitalistas que se apropriavam injustamente de parcelas da renda da classe trabalhadora através da mais valia. Essa transferência criaria uma crescente concentração de renda, até o ponto em que a autocontradição e a miséria lumpem fariam o capitalismo ceder ao seu próprio peso. Tostes diz a mesma coisa, segue a mesma direção só que em sentido inverso. A constante expropriação por impostos criaria um fluxo de renda no sentido de expandir o Estado até um ponto indeterminado, oprimindo a iniciativa privada. O artigo só não diz se essa expansão avançaria ilimitadamente ou se ela seria um período de gestação de uma Revolução dos Contribuintes, em que a classe empresarial oprimida pegaria em armas para lutar contra a turba de burocratas.
3. Tostes, como Marx, subestima capacidade das pessoas ditas comuns em escolher o que é melhor para si. Da mesma forma que no capitalismo de Marx a superestrutura (moral, religião, direito) ocultava das pessoas a realidade da espoliação capitalista, na democracia de Tostes mitômanos, demagogos e charlatões enganam os eleitores com promessas de curto prazo. Marx e Tostes, duas inteligências visivelmente superiores, escaparam dessa armadilha e conseguiram ver além das brumas que tapam a visão da patuléia deseducada.
4. Também como Marx, Tostes faz críticas detalhadas ao sistema democrático, mas não é nada bom em oferecer alternativas viáveis. Se a democracia é assim tão ruim, o que fazemos? Anarquia, monarquia, suicídio coletivo em Waco? Acho no mínimo deselegante alguém acionar o alarme de incêndio sem indicar a saída de emergência.
Tostes odeia Marx mas, coitado, erra pelas mesmas razões. Simplificação grosseira da realidade, reductio ad absurdum, tomada da parte pelo todo, histeria. Na minha humilde e correta opinião, esse alarmismo adolescente não ajuda muito. É verdade que existe uma tensão entre Estado e iniciativa privada, mas nada indica que essa tensão vá acabar em ruptura. Se há quem receba benefícios em troca de votos, há também quem financia esses benefícios e que votará em candidatos que tributem menos. Impostos podem ser aumentados até um limite, em que o número de satisfeitos com benesses será inferior ao de insatisfeitos com tributos. Num momento assim, um candidato que defenda a expansão da máquina estatal deixa de ser eleito. Esse ponto ideal não existe em Governos que detém poder vitalício e/ou hereditário e que não dependem da chancela periódica de seu povo. Esses podem aumentar indefinidamente seu poder, sem se preocupar com as opiniões dos súditos deseducados. Castro, Khadafi, Hosni Mubarak, Robert Mugabe, Tito, Suharto são figuras que concordariam com muitas das idéias de Tostes.
Ninguém sério idolatra a democracia. Mas ninguém sério a dispensa. A esquerda brasileira é anacrônica, manquitola, débil, caricata. Infelizmente, parece que a nossa parca direita, por vias opostas, toma o mesmo caminho, o do ridículo absoluto. Pobre de nós.
Coq au vin. O melhor é o do Freddy. Jantei lá na sexta, mais uma vez na companhia de minha estonteante e moreníssima noiva. Enquanto destrinchava a coxa do galo e aspirava o aroma de vinho tinto e cebola doce, uma idéia me ocorreu. Free range chicken. Esse é o segredo do prato. O galo é caipira, não de granja. É criado solto, come milho, minhoca, corre riscos, sobe em árvores, briga, ganha, perde. A carne é mais magra, mais firme, mais escura, aromática. O frango de granja é criado preso, alimentado na boca, cercado por galinhas insossas e pouco sensuais, anabolizado, hormonizado. A carne é pálida, flácida, adiposa. Imprestável para um prato decente.
Intelectuais também são de granja ou caipiras. A USP e a PUC são duas grandes granjas, em que os professores são criados separados do mundo, cercados por semelhantes, alimentados com ração socialista. Os intelectuais de granja, como as galinhas, também são adiposos, flácidos, insossos. Não há diferenças entre eles, quem experimentou um conhece o sabor de todos. Anabolizados, têm os seus egos inchados além do que seria o natural, caso vivessem soltos no mundo, com as porradas que lhe são peculiares. Os excessos adiposos se acumulam em livros e teses insípidas, inodoras e incolores. E da mesma forma que são criados, são consumidos e esquecidos.
Quase não há mais intelectuais caipiras, free range, neste país. Gente que cresce sozinha, que sai do galinheiro e dá uma volta pelo sítio, ciscando atrás das novidades. Quem cisca e se arrisca precisa de um certo preparo, de uma musculatura rígida, de pouca gordura, de disposição. Mas o resultado do esforço são idéias firmes, magras e saborosas, dignas de um coq au vin.
Gente da cidade, quando vai à fazenda, costuma estranhar frango caipira. Cheiro, gosto e cor muito fortes. Preferem, de livre e espontânea vontade, o frango e o ovo de granja. As mesmas pessoas que acham Diogo Mainardi, O. de C. ou Paulo Francis exagerados.
Olavo de Carvalho e Alaôr Caffé: colocaram um galo de rinha para pegar um frango de granja. Claro que ia dar no que deu...
Tenho primos em Brasília. Filhos de funcionários públicos. Vieram passar férias em SP. Um deles passava tardes inteiras no telefone, em ligações que recebia de amigos e da mãe. Falar em "tardes inteiras" não é exagero. Se o dia estava chuvoso, eram horas e horas desperdiçadas em conversas tolas até a medula. Sábado, entre os cafés de visitas, chamei o garoto:
- Meu caro, larga disso. Quanto você paga de conta de telefone?
- Quanto eu pago? É quanto você paga, primo. Para interurbanos nós usamos um celular corporativo, que minha mãe ganha do Governo.
E riu. Eu também dei uma risadinha, por reflexo. Mas a vontade era a de lhe dar uma coça...
Outra. Um cliente meu, ex-engenheiro da Embraer, formado pelo ITA, bradando em minha sala contra a reforma da previdência. Perguntei, com minha usual paciência com aqueles que me dão dinheiro no fim do mês:
- Mas você não acha que aposentadoria integral com o último salário é um exagero? Quando na ativa, um salário desses servia para sustentar a família inteira, com três filhos na escola, gastos com gasolina, mercado etc. Não é muito para um casal de idosos, com os filhos já emancipados?
- (com ar enfurecido) Meu sogro é desembargador e trabalhou 20 anos até se aposentar. Hoje ele tem o Direito de ir a Paris uma vez por ano.
Este foi o ápice do Jusnaturalismo. O Direito Natural de ir a Paris uma vez por ano. Fico imaginando o que Marx acharia disso.
Além da viagem anual a Paris e de um CD com a truta de Schubert, conteria: três latas de caviar Sueco; duas garrafas de Cava; duas latas de patê de fígado de pato; três quilos de arroz selvagem; dois de feijão branco; dez ciabatas grandes; coalhada fresca; muslie; uma garrafa de Porto Tawny 10 anos; cinco saquinhos de amendoim japonês; três arenques defumados; duas latas de creme de leite; frutas variadas; verduras hidropônicas; sal; açúcar; e sete garrafas de 1 litro de água Perrier.
Um mínimo para se oprimir com dignidade.
São aquelas plantadas na água por japoneses: hidro (água) + nipônicos (japoneses) = hidropônicos. Nunca estudaram radicais gregos e latinos?
O Governo é de uma incompetência ímpar. Não consegue fabricar nem palitos de dente. E ainda assim vejo pretensos liberais que se dizem a favor da pena de morte. Como funciona isso? O Governo não pode interferir na vida das pessoas, mas pode decidir quem deve ou não viver? Me parece um contra-senso. O Governo não sabe recolher impostos, não sabe prestar serviço de telefonia, de saneamento, de transporte, de educação, de saúde, mas vai saber matar?
Como o mercado é sempre mais eficiente, poderíamos adotar a pena de morte após privatizar o Judiciário. Câmaras de arbitragem competiriam no mercado da Justiça. Com o darwinismo social, prevaleceria a que executasse menos inocentes.
Ontem, orgulhoso, saí para passear com meu Parkerson-Maraolo. Mal comparando, este sapato está para os outros calçados assim como a Ferrari está para o resto dos carros. Ao meu lado, minha estonteante noiva, usando preto, minha cor feminina favorita, e fazendo cafuné no meu cocuruto, do alto do seu um metro e oitenta.
Tem dias que eu me acho o máximo...
Por que será que as mulheres ficam mais belas vestindo preto? Vocação para o luto?