Não sei bem quando isso aconteceu, mas faz pouco tempo. Foi meio sem perceber. Talvez enquanto dormia, durante um daqueles sonhos bons (ainda tenho sonhos bons). Sei lá. Mas o que houve foi: perdi a esportiva com as pessoas chatas. De vez. Não dou mais trela. Hoje, só três tipos de gente me interessa: as queridas, as inteligentes e as que me dão dinheiro. Para o resto, adieu. Não retorno nem telefonema.
Pontos de vista. Há quem diga que esse mundo tem coisas belas demais. E que coisas tão belas assim só podem ser feitas por um Deus. O silogismo seria algo como: a existência de coisas belas pressupõe a existência de Deus; Audrey Hepburn existiu e era bela; logo Deus existe.
Eu ouço e não contenho a risadinha. A premissa maior é absurda. Coisas belas não pressupõem nada, a não ser a opinião de um Zé Ruela qualquer. Fico imaginando a Creide, faxineira, olhando para o Zezé di Camargo (assim mesmo, 'di' Camargo) ou para o Daniel Cueca e exclamando, no culto de sexta a noite: 'obrigado Senhor'. E fico imaginando também a interessante polêmica estético-metafísica, em que a existência de Deus seria debatida através do reconhecimento da beleza ou não dos sertanejos. Se o Daniel Cueca é belo, então Deus existe.
A premissa menor também é fraca. O Daniel Cueca é feio, isso é certo, tão certo quanto dois e dois ..., mas não sei se a Audrey era bela. As vezes me parece muito magra. A bem dizer, não sei nem se ela existiu.
Pergunta: e por que Deus não gostaria de fazer coisas muito feias? Não se divertiria com uns monstrinhos, umas deformações? Ele é assim tão legal? Tem bom gosto? Penso que não. Querem saber? Eu acredito que Deus existe porque o Zezé 'di' Camargo existe. O acaso, que tende ao meio termo, não seria capaz de uma tal atrocidade.