Por curiosidade resolvi comprar o livro “Triângulo no ponto”, de autoria de S.Exa. o Min. do STF Eros Grau. Pra quem não conhece (ignorante!), o ministro é professor titular da Universidade de São Paulo, foi indicado para a mais alta corte do país pelo Presidente Lula e o “Triângulo” é seu primeiro romance. Vocês sabem que sou um reles barbeiro com uma quedinha pela literatura e que por isso mesmo, como diria o saudoso cel. Ponciano de Azeredo Furtado, não sou homem de intromitências em assuntos de alta questionação, talqualmente a crítica literária. Mas a leitura do “Triângulo” foi tão impactante na minha vida que não consegui segurar o comichão e acabei anotando algumas observações sobre este livro singular, que gostaria de dividir com vocês.
Seguindo um caminho mais fácil, transcrevi as partes do texto e coloquei meus humildes comentários em seguida. Pros incrédulos e demais discípulos de São Tomé, tomei o cuidado de indicar a página do livro, facilitando a vida de quem quiser consultar os originais pra tirar a coisa a limpo. É tudo verdade. Já o título do post é uma sugestão do FDR e uma homenagem ao Millôr, que, apesar de ser apenas bacharel pela Universidade do Méier (nota “C” no Provão), me serviu de inspiração na sua resenha ao “Marimbondos de fogo”, o livro que quando a gente larga não consegue mais pegar.
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Pra começar, uma coisa que chama atenção é o fato da narrativa ser marcada por uma constante repetição de palavras. No início me pareceu algum tipo de erro de revisão, mas a gente acaba percebendo que a gagueira é um cacoete de estilo, que o autor deve considerar charmoso. Vejam esse trecho, por exemplo, que introduz na trama a personagem Alexandre: “Um rapaz de vinte e dois, vinte e três anos, bem-feito de corpo, másculo como pode ser um rapaz de vinte e poucos anos. Um rapaz que, embora não sendo o rapaz da terapia, gosta mesmo, como ele, é de ser tocado por outro homem”, pág. 70. Entenderam o que eu quero dizer? E esta penetrante reflexão sobre o terrorismo: “O que é o terror, raiz do terrorismo? O movimento ou a reação ao movimento? O terror que aterrorizava Xavier era o terrorismo da reação”, pág. 55. Deixando de lado o paradoxo tostines (é o terror que causa o terrorismo, ou o terrorismo que causa o terror?), o trecho é praticamente um trava-língua. Repita se for capaz: o terrorismo do terror aterrorizava os terroristas.
Mais? Falando de um quadro do Manet, Olympia: “Há aí três elementos: a nudez, a iluminação e nós que as surpreendemos, nudez e iluminação. Há a nudez e a iluminação que está no lugar mesmo em que nós estamos, de modo que é o nosso olhar que, abrindo-se sobre a nudez de Olympia, a ilumina”, pág. 132. Rocambólico. Parece disco quebrado. Mas a minha preferida é essa passagem em que o autor cria um alter-ego pra escrever a segunda parte do romance, uma coisa meio metalinguista-fróidiano-socrática: “Tentei escrever como ele suporia que eu escrevesse se estivesse a escrever esta parte final do Triângulo no ponto”, pág. 114. É mole?
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Além da gagueira, outro aspecto divertido são os chavões literários, aquelas frases que você já deve ter lido umas duzentas vezes, só no verão passado. Aos exemplos: “Ainda sinto o cheiro do seu corpo”, pág. 14. Convenhamos que é um comentário digno do Sidney Sheldom ou daqueles Sabrina da vida: ainda sinto o cheiro do seu corpo, após uma tórrida noite de amor ao luar, etc.etc. Ou este: “Aconteceu em um mês de maio”, também da pág. 14. Não é implicância não. É brega para diabo. Parece título de novela na Globo: Aconteceu em um mês de maio, com Cauã Reymond, Marcello Anthony e Grazi (ex-BBB); a nova novela das seis. “Eu era jovem”, pág. 18, e “nós éramos jovens”, pág. 99. Essa é universal e só perde pro “era uma vez” (ou, como dizem os americanos, once upon a time). Meu avô começava todas as suas estórias com essa abertura: eu era jovem e ainda nem tinha casado com a sua avó; bons tempos aqueles...
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Outro ponto alto do livro são as pérolas de filosofia judiciária, um mistura meio indigesta de axiomas político-filosóficos de botequim e expressões jurídicas: “Amor é posse, sempre temporária, frágil, resolúvel”, pág. 26. Modéstia à parte, já havia pensado numa teoria possessória do amor. Amantes entrando com usucapião e esposas/maridos traídos com reintegração de posse etc.etc. Mas a patente é do ministro, que publicou primeiro. “O futuro é indisponível”, pág. 13, e “o futuro daquele instante era indisponível, como todos os futuros. Costa dispôs do futuro, apostou na liberdade”, pág. 89. Confesso que dessa não sei nem o que falar. Convenhamos que “futuro de um instante” não faz muito sentido. E se o futuro era indisponível, então como é que o Costa dispôs dele em troca da liberdade?! E tem mais: para o tal do Costa, esses intelectuais não passam da “síntese acabada da contrafação da ética da qual se fazem arautos” pág. 103. Se alguém te xinga desse jeito na rua você tem que responder: “é a mãe, filho duma égua!” E, finalmente, pra fechar com chave de ouro: “A globalização é como a primavera ou o inverno”, pág. 98. Lindo isso, não?
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E, claro, tem as passagens apenas ridículas, as minhas prediletas. “A memória dessa tarde é aprazível”, pág. 12. Aprazível pra mim é nome de remédio: enchi a cara ontem, nego; preciso de um aprazível urgentemente. Que tal essa, sobre o talento poético da personagem Xavier: “Os versos saem metálicos, em proporções acabadas, sem se abrirem para a continuidade do poema. Saem versos surrealistas, tipo ‘se o bonde vier cheio/eu me penduro nos teus seios’”, pág. 60. Bem. Esquecendo o non-sense da tal “abertura para a continuidade do poema”, sorte nossa que pelo menos esse bonde não veio de Portugal, que rima com... enfim, que rima com outras partes penduráveis do corpo humano.
Ou essa: “Xavier cunhou frases significativas, tipo ‘o olho, o ovo e o testículo do touro’, a fim de que quem ouvisse essas palavras pudesse completar algum sentido.”, pág. 68. Pra começar, “a fim de que quem” é cacofonia de doer o ouvido. Uma batida de automóvel soa melhor. Fora que, se a frase ‘o olho, o ovo e o testículo do touro’ já é considerada significativa (do que, data venia, ouso discordar), por que alguém iria completar nela algum sentido?
E o que vocês me dizem dessa passagem: “Antes fantasiava com Sílvia, a fantasia, aliás, fora construída para ser vivida por Sílvia, Olivier e outros nela, dentro dela, fazendo de tudo nela. Sílvia pentapenetrada...”, na sugestiva pág. 69. É brincadeira? Fiquei imaginando como seria possível a pentapenetração se as mulheres normais têm apenas dois buracos e uma boca, até que me lembrei das orelhas e das duas narinas. É isso aí, dona Sílvia! Agora é chamar o Dunga e mandar brasa rumo ao hexa!
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Não é impagável? Juro que não me divertia assim desde a minha primeira leitura do Pigmaleão de Shaw. Eu poderia fazer anotações no livro inteiro, porque cada parágrafo guarda seus encantos e detalhes. Um exemplo é a página 12, onde me deparei com o seguinte trecho, no qual a personagem Rogério lembra da noite em que foi abandonado pela pentapenetrada Sílvia. Coisa poética, de arrancar lágrimas dos olhos:
“O tempo passa com a lembrança recorrente daquela noite e a convicção, que assumi desde o primeiro instante, naquela noite, de que Sílvia não era dialética. Dialética fosse, a minha Sílvia, e compreenderia que a cada negação do nosso amor o nosso amor estaria sendo suprassumido, hegelianamente, cada vez mais nosso amor. Decididamente, Sílvia carecia de paciência histórica. Manteve alguma, durante certo tempo. Mas não era tal, essa paciência, que pudesse ser qualificada como histórica. E assim foi que, uma noite, Sílvia partiu. A paciência que a notabilizara uma tarde, o mar batendo em nossos pés, ela a perdera. Sílvia perdera a consciência histórica.”
Segue o mesmo trecho com meus comentários entre colchetes:
“O tempo passa [o tempo voa, e a poupança Bamerindus...; péssimo esse lugar comum] com a lembrança recorrente daquela noite e a convicção, que assumi desde o primeiro instante, naquela noite [não entendi essa repetição, mas tudo bem], de que Sílvia não era dialética [e isso é lá adjetivo para se descrever a mulher amada?]. Dialética fosse [inversão xeiquespiriana está fora de moda há uns 200 anos], a minha Sílvia [claro que é sua; eu é que não ia pegar essa baranga], e compreenderia que a cada negação do nosso amor o nosso amor [meio concretista essa parte] estaria sendo suprassumido, hegelianamente [sem comentários...], cada vez mais nosso amor [ele realmente acredita que essas repetições têm algum efeito estilístico...]. Decididamente, Sílvia carecia de paciência histórica [a minha paciência histórica também já vai acabando...]. Manteve alguma, durante certo tempo. Mas não era tal, essa paciência, que pudesse ser qualificada como histórica [afinal, é ou não é histórica?]. E assim foi que, uma noite, Sílvia partiu [já vai tarde...]. A paciência que a notabilizara uma tarde, o mar batendo em nossos pés [bonito isso, hein?], ela a perdera. Sílvia perdera a consciência histórica [e nós o fôlego, ministro].”
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Pois é. Como eu dizia, poderia fazer anotações no texto todo, mas é claro que essa coisa de comentar dá muito trabalho e eu não tenho tanto tempo de sobra assim, como um ministro do STF, pra gastar com essas bobagens. Mas sem abandonar os merecidos encômios, e já na condição de discípulo literário e profundo admirador do grande romancista, me atrevo a escrever uma singela e humilde homenagem ao autor, no estilo inaugural dessa obra fundamental da literatura pátria, como forma de expressar a minha admiração:
“Inicialmente, deve-se esclarecer que meu coração palpita de emoção irrevogável, irretratável e irreversível, equiparável apenas à felicidade experimentada quando degustei uma taça 'superbes' de Chateux Lafite 75, em Cap d'Antibes. Destarte, a supracitada felicidade me atingiu no peito naquela tarde, quando compulsei seu romance pela primeira vez, o sol reincidente esquentando minha face túmida, o vento intempestivo remexendo meus cabelos sedosos, naquela tarde, enquanto as suas poéticas palavras em meu espírito entravam para não mais sair, salvo com ordem liminar de despejo. Ó êxtase, ó musa da literatura, que dá provimento a tantas poesias e romances, como naquela tarde, cabelos ao vento, face túmida. Termos que, pede-se deferimento. Atenciosamente.”
Posted by Porfirio at fevereiro 27, 2008 6:35 PM