julho 20, 2006

Arte não pode ser engajada e a sua politização é o maior dos crimes lesa-cultura que existe. O único fim da arte é a própria arte. Se ela vem contaminada de ideais não estéticos perde a sua identidade, como uma dessas batatinhas fritas sabor bacon, que não é mais batata frita nem chega a ser bacon. Se eu vou a uma peça de teatro, não me importo com as inclinações políticas do autor e não estou interessado em ouvir sua opinião sobre assuntos cotidianos. Entro ali para ter um contato com uma beleza irresponsável, intangível e abstrata. Não me fale em realidade dentro do teatro. Eu conheço a realidade. Todo dia de manhã eu acordo na realidade, tomo café na realidade, trabalho, janto e durmo na realidade. Arte realista é uma contradição em termos e a única coisa que espero de um artista é que ele me iluda, que ele minta para mim descaradamente.

Encenar uma peça de teatro sobre a realidade é mais ou menos a mesma coisa que organizar um jantar de gala, convidar cinqüenta pessoas e servir arroz com feijão. A platéia come arroz com feijão todo dia e a promessa de um grande banquete cria apetites para pratos imaginários, como uma lagosta taitiana regada a molhos filosóficos espessos, acompanhada de pequenas frases de humor doce e levemente ácido. Arroz com feijão é nutritivo, não nego, saudável, é verdade, e exatamente por isso se come em casa de segunda a sexta, e não em ocasiões especiais. Quando chego ao teatro e me deparo com um texto em que o marido de classe média reclama aos berros da perda de um emprego, aí sim me sinto enganado, exatamente porque ninguém ali teve o cuidado de se preparar para mentir para mim, apresentando um mundo elegante, sofisticado e engraçado. Lá estou eu, acompanhado de minha bela esposa, de terno, gravata e talheres de prata na mão, degustando um impensável mexidinho com farinha.

Posted by Porfirio at julho 20, 2006 4:26 PM