Entrei e saí da Europa fazendo conexão em Madri. Na ida, graças ao atraso da bagagem, o que seriam duas horas acabaram virando cinco, tempo suficiente para tentar ir atrás de um sanduíche de presunto cru ibérico e investigar a adega de uma lojinha na sala de embarque. Já no aeroporto, antes mesmo de sobrevoar a Córsega até Roma, pude constatar que a grandeza de um país se mede por dois fatores: riqueza e tradições.
O maior sinal de riqueza da Espanha é a civilidade do aeroporto de Madri. Também acho que falar em civilidade de um aeroporto é o mesmo que falar na elegância de um matadouro ou na classe de um lava rápido. Mas a graça do aeroporto de Madri é que ele faz de tudo para não parecer um aeroporto. Não há balcão para olhar aviões, tipo de lugar que pressupõe que todos que estão ali nasceram em Birigui e nunca andaram de elevador. Quem olha muito tempo para um avião parado deve sofrer de algum grau de autismo, imagino eu. Outra coisa que chama atenção é o fim daqueles anúncios (atenção senhores passageiros etc. etc.) em alto falante. Todos os corredores têm uma TV de plasma com a programação dos vôos e um aviso de que não há chamada oral para os analfabetos, que, presumo, devem ter sido abolidos do país.
Reina um certo silêncio no aeroporto de Madri, uma calma respeitosa bem adequada aos que, como eu, se sentem face-a-face com a morte antes de embarcar num avião.
Quanto às tradições, entrar numa loja de produtos típicos e encontrar uma bandeja de jamón ibérico de bellota dá uma inveja danada. O jamón ibérico é feito de uma raça de porcos semi-selvagens que tem a pelagem e as unhas dos pés pretas (por isso o nome 'pata negra') e que se alimenta exclusivamente de bellotas, uma espécie de castanha que dá na Estremadura. O teste para saber se um presunto cru é bom é bastante simples. Basta ficar mastigando a fatia sem pressa por alguns minutos. O bom presunto tem pouco sal e vai se dissolvendo até desaparecer. O mau é salgado pra diabo e se transforma numa espécie de chiclete de sebo sem gosto definível, que deve ser ou engolido (para seu desprazer) ou cuspido de volta no prato (para o desprazer da sua acompanhante). Façam um teste com o da Sadia e vocês vão entender do que eu estou falando.
Visitar uma loja de produtos espanhóis e tomar uma taça de Marqués de Murrieta, acompanhada de algumas fatias de jamón ibérico de bellota, foi um contraste intolerável para quem havia passado a manhã anterior no saguão de Cumbica, admirando um impensável tucano esculpido em cristal de rocha. O tucano, talhado em pedra cor-de-rosa, estava ao lado de uma camisa da seleção brasileira e vinha rodeado por seis garrafas de cachaça, numa espécie de mandinga involuntária em favor do hexa na Alemanha. Mesmo sem querer, talvez o arranjo representasse a única coisa realmente típica do brasileiro, a mandinga, uma mistura de superstição ingênua com misticismo oportunista, a analogia perfeita do caráter de um povo condenado à irracionalidade e ao atraso.
Reclinado numa poltrona couro e vendo o sol seco atravessar a meia taça de vinho em minha mão, a única coisa que pude fazer naquele momento foi lamentar profundamente por quem somos, enquanto esperava a fatia do presunto terminar de se dissolver em minha boca.
Posted by Porfirio at junho 16, 2006 5:46 PM