Faz tanto tempo que eu nem sei bem por onde começar. O que eu posso dizer é que nesses últimos meses continuei meus esforços para me aproximar ainda mais do meu ideal elitista-cético-alienado. Com o mundo do jeito que anda, acho justo alguém querer ser alienado. Nada mais incômodo do que a realidade, um lugar em que sou obrigado a tomar vinhos argentinos ao invés de franceses e, ofensa maior, a comer foie-gras de pato e não de ganso. Só os loucos toleram a realidade.
Enfim. Ganhei algum dinheiro, com todos os inconvenientes e desconfortos inerentes a essa atividade. Em compensação, gastei boa parte dele na Europa em uma interessante pesquisa científica que estou desenvolvendo, com o seguinte título: qual o melhor spaghetti ai ricci da Sicília? Conheci o ricci (ouriço) na culinária japonesa, na forma de sushi, e nunca me ocorreu que ele daria um bom molho de macarrão. Coisa de gênio, tanto que, segundo me disse um barista da Catânia, o molho foi inventado por Leonardo da Vinci, logo após o fracasso do seu modelo de helicóptero.
Como sou um cara legal e muito preocupado com a igualdade de informação neste mundo moderno e globalizado, me adianto e digo a vocês que o melhor ricci é o do Don Camilo, em Siracusa, restaurante impecável construído num pequeno e irretocavelmente reformado palácio do séc. XIV. O dono do Don Camilo tem um Phd em óleo de oliva e sua tábua de queijos foi eleita a melhor da Itália em 1997. Cada um desses títulos isoladamente considerados vale mais do que um Nobel de Literatura e um Pulitzer juntos.
Além do Don Camilo, Siracusa tem outras delícias, como, por exemplo, imaginar Platão sendo vendido como escravo por Dionísio I após cometer diversas cagadas como rei-filósofo. Diz a lenda que os amigos de Platão tiveram de fazer uma vaquinha para comprar o filósofo e garantir sua liberdade. Gosto de pensar nessa história como verdadeira, porque ela é um exemplo eloqüente da distância entre teoria e realidade e um lembrete para apaziguar um pouco as pretensões de alguns intelectuais. Se Platão tivesse inventado algum molho para pasta eu teria mais respeito por ele.
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A partir de agora pretendo escrever algo pelo menos uma vez por semana, até porque não há meio mais agradável para se alienar do que a literatura. Isso, claro, se não me chegarem às mãos algum lote de trufas ou uma dúzia de escargots.
Posted by Porfirio at junho 8, 2006 5:20 PM