Dúbio era a pessoa mais indecisa do mundo. Dizem que seu parto levou 72 horas, já que ele não decidia se devia mesmo nascer. Enquanto outras crianças choravam porque queriam leite, ou colo, ou um chocalhinho, Dúbio era um nenê quieto e contemplativo. Tinha pernas e braços fortes, mas seu caráter padecia de uma poliomielite mental, que o paralisava.
Dúbio cresceu trancado dentro de casa, acuado pelas incertezas. Desde as ordinárias: Quem namorar? Onde comer? Até as filosóficas: Quem sou eu? Qual o sentido da vida? Deus existe? Num campeonato internacional de indecisão, Dúbio tirou primeiro lugar ao ficar em dúvida se deveria mesmo se inscrever. E a vida, como Dúbio percebeu logo, era feita de escolhas, que desfilavam todos os dias em sua frente, minuto a minuto, envenenando seu espírito. Não conseguia decidir nada, por mais que tentasse. Não saia de casa. Não punha os pés nas ruas.
Um dia, porém, cansado do isolamento, Dúbio resolveu sair. Não sabia pra onde, mas pela primeira vez estava decidido a sair. Vestiu sua única roupa, o único paletó, cinza escuro. Amarrou seu par de sapatos e saiu. O dia estava claro e duas nuvens passeavam no céu. Qual era a mais bela? Não conseguia escolher, mas estava feliz, decididamente feliz.
Sempre tinha olhado para as escolhas como enigmas diabólicos, como dilemas infernais insolúveis, como forças destruidoras de futuros alternativos. Agora todo um universo de possibilidades estava à sua espera e ele transpirava de ansiedade e palpitações. Antes viver uma só realidade do que uma infinidade de sonhos. Agarrado nessa certeza fundadora, Dúbio ergueu o queixo e olhou o céu sem medo. Aquela é a nuvem mais bela, pensou. E enquanto atravessava a rua contemplando a beleza da nuvem escolhida foi atropelado por um caminhão de mudanças.
Nas contas finais de uma vida, a única coisa certa para Dúbio foi a morte.
Posted by Porfirio at outubro 10, 2005 6:09 PM