Ontem, desci a rua da barbearia até um restaurante japonês. Esse restaurante é um achado e sempre que meu dia permite escapo pra lá atrás dos torôs (uma parte nobre do atum, espécie de filé mignon) e das vieiras (o molusco que vive dentro da concha da Shell). O torô é a melhor carne de peixe que existe, sério mesmo. Nos EUA chega a ser tão caro que existem contrabandistas especializados na mercadoria. E as vieiras são pérolas macias e luminosas de comer, com um gosto particular, diferente de tudo que estamos acostumados. Ela não parece carne, não parece peixe, não parece fruto do mar ou vegetal. A vieira é o único alimento do mundo que não permite analogias.
Mas lá descia eu a rua quando me ocorreu uma verdade rodrigueana, dessas que fazem o sujeito levantar o dedo indicador e falar sozinho no ponto de ônibus. A verdade é esta: o maior sinal da decadência da intelectualidade brasileira é a completa ausência de escândalos. Não escândalos de corrupção envolvendo dinheiro público (nisso somos bons), mas escândalos de costumes, escândalos culturais. Também não me refiro ao escândalo padrão Gerald Thomas, em que uma peça monótona tenta se salvar com a entrada no palco de uma velha paralítica de 92 anos pelada. Refiro-me, é bom deixar explicadinho, à Idéia Escandalosa, ao Conceito Escandaloso. Falo daquele ponto de vista que se choca frontalmente com o que as pessoas estão habituadas a pensar, com a middle class morality de Shaw, com a conventional wisdom de Keynes.
Vejam se vocês concordam ou não comigo. Não é trabalho do intelectual ficar repetindo e justificando o que todo mundo já pensa. Quem agrada aos outros é o comerciante, que tem a obrigação de atender o gosto do freguês. O intelectual tem o dever de mostrar o outro lado, de pensar diferente. O intelectual deve perseguir a classe média e ser perseguido por ela. Sua obrigação é escrever livros maledicentes, que façam as pessoas cuspirem no chão após dizer que acham tudo aquilo um absurdo, sem saber explicar exatamente o porquê. Os intelectuais não podem ter partido, agremiação ou clube. Têm que ser expulsos dos jornais, banidos das associações. O intelectual verdadeiro tem o primeiro dever de ser ele próprio. De se exagerar exponencialmente e de banir do seu espírito tudo o que é vulgar e convencional, até chegar a uma singularidade última e definitiva. Não há nada mais chocante e escandaloso do que um indivíduo pleno de si mesmo.
Eu respeitaria mais o Gianotti e o Comparato se, por exemplo, eles fossem flagrados numa suruba com 12 anãs acrobatas. Ou, sei lá, se fossem pegos vestidos em batas roxas, sacrificando cabras em um sítio a 90 km de São Paulo. Se fornicar com 12 anãs não é um sinal inequívoco de brilhantismo intelectual, pelo menos mostra que o homem tem lá suas inclinações pessoais, que não são o resultado monótono e previsível da média da opinião pública. Diogo Mainardi disse que o nosso intelectual padrão, mesmo quando é radical, é radicalmente a favor das obviedades. O Gianotti, por exemplo, é radicalmente a favor do fim da pobreza. Eu não. Gosto de pobres. Acho eles divertidos, especialmente aqueles que cospem fogo nos semáforos. Darcy Ribeiro fazia defesas inflamadas da superioridade da cultura do Brasil, segundo ele a Roma do mundo pós-moderno (detesto essa expressão pós-moderno, que está no meu rol de palavras odiosas como acalentar, destarte e arvorar-se; ignorem-na e troquem por atual ou contemporâneo, ok?). Comparato é radicalmente a favor do fim da exploração do povo brasileiro, que eu, só por birra, acho justa e defendo com unhas e dentes.
Certa ou errada, é impressionante como ninguém aqui é a favor da guerra do Iraque. Ninguém, nenhuma alma penada, acha que a cultura indígena é atrasada e que, ao invés de ganhar reservas, os índios deveriam ser - deixe-me ver como direi isso de uma forma deselegante -, civilizados o mais rápido possível. Ninguém é a favor do estado mínimo ou do Bush. As opiniões dos intelectuais brasileiros são exatamente as mesmas dos pedreiros brasileiros, só que com um vocabulário mais rico. E o máximo que eles conseguem fazer para nos escandalizar é produzir uma peça em que Hamlet é punk e mata Polônio com um lança-chamas.
Posted by Porfirio at agosto 5, 2005 7:39 PM