Não há como negar. Às vezes somos tomados de um profundo desânimo, de uma sensação nítida de que as lutas que enfrentamos serão todas, de um jeito ou de outro, perdidas. E o que é pior. Que mesmo se fossem ganhas, ainda assim não teriam valido à pena. A sensação de impotência é a semente do ceticismo.
Diferentemente das crenças otimistas, o ceticismo não chega de enxurrada. Não lava com torrentes as certezas que aparecem na sua frente. Como uma doença da alma, ele mais se assemelha a uma goteira, uma infiltração cuja origem não é identificada. Cada gota de descrença atravessa a parede sólida de certezas e mostra onde estão as rachaduras. Quando nos damos conta, as paredes já estão cheias de bolor, cobertas de um limo verde e trincadas de fora a fora, incapazes de sustentar o telhado.
O que são as religiões, os sistemas filosóficos, as ciências, a moral e os bons costumes senão enormes telhados, sustentados por paredes rachadas e emboloradas?
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E o intelectual é um pedreiro. Seu ofício único é remendar paredes e tapar os buracos e as rachaduras que insistem em reaparecer. De espátula e brocha na mão, o intelectual carrega baldes cheios de complexas hipóteses e se esforça para cobrir com argamassa as fissuras dos edifícios intelectuais.
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Agradeço aos intelectuais porque esse é um trabalho muito chato. Quando chove granizo é bom ter para onde correr. Mas passar o dia enfiado em casa remendando buracos não é lá um ideal de vida. Particularmente, prefiro estar do lado de fora, sem telhado, sem parede, sem lareira. É do lado de fora que conseguimos ver mais longe, apesar de muitas vezes não sabermos bem o que ou onde estamos olhando. E é - com o perdão da má poesia, mas acho a metáfora esclarecedora -, apenas a céu aberto, com todas as luzes apagadas, que podemos ver melhor as estrelas. Deitado no chão de braços esticados, mísero de certezas e coberto por trapos teóricos, o cínico compreende mais.
A verdade está com os indigentes.
Posted by Porfirio at junho 29, 2005 6:21 PM