junho 21, 2005

Entrevista de Friederich A. Hayek a Porfirio Caetano das Neves

A entrevista abaixo me foi gentilmente concedida pelo espectro de Friederich Hayek, há questão de três semanas. Sentado num pequeno banco do Green Park, o Prof. Hayek me contou que gosta de passar suas tardes assustando jovens socialistas da London School of Economics. "Nada como a expressão de um socialista-ateu ao ficar cara a cara com um espírito-liberal".

Hayek também gosta de ler os jornais e, nas noites de quinta-feira, se esgueira pelas vielas da Marshall Library of Economics, em Cambridge, atrás das últimas novidades da política e da economia. Novidades mesmo são poucas, diz ele.

Rodopiando a bengala sobre o próprio eixo e estalando de quando em quando os pequenos dedos esbranquiçados, o Prof. Hayek me confessou, um tanto constrangido, que nada na modernidade o havia espantado, com exceção do skate e do zíper.

A conversa foi muito agradável. Fora o chapéu e os bons modos, poucos detalhes denunciavam que aquele senhor viveu na década de 1940. Abaixo, alguns dos melhores trechos.

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Prof. Hayek, o mercado e a livre concorrência são soluções justas para a sociedade?

É significativo que uma das objeções mais freqüentes à concorrência é que ela é cega. Convém lembrar, entretanto, que, para os antigos, a cegueira é atributo da deusa da justiça. Se bem que a concorrência e a justiça pouco mais tenham em comum, ambas são dignas de elogio justamente por não admitirem discriminação entre as pessoas. A impossibilidade de prever quem será bem-sucedido e quem fracassará, o fato de recompensas e perdas não serem distribuídas segundo um determinado conceito de mérito ou demérito, dependendo antes da capacidade ou da sorte de cada um - isso é tão importante quanto sermos capazes de prever, na feitura das leis, quem em particular sairá ganhando ou perdendo com sua aplicação. E a circunstância de, no regime de concorrência, o destino das diferentes pessoas ser determinado não só pela habilidade e a capacidade de prever, mas também pelo acaso e a sorte não torna isso menos verdadeiro.

Qual o charme do planejamento econômico, que encanta gerações e gerações? No Brasil, até hoje temos um Ministro do Planejamento. É um tanto démodé, não?

O conceito de planejamento deve a sua popularidade em grande parte ao fato de todos desejarmos, obviamente, tratar os problemas ordinários da forma mais racional possível. Neste sentido, se não for um completo fatalista, todo indivíduo será um planejador; todo ato político será (ou deveria ser) um ato de planejamento, de sorte que só haverá distinção entre o bom e o mau planejamento, entre um planejamento sábio e previdente e o míope e insensato.

É verdade. Só que nesse sentido o planejamento parece até algo bom.

Mas não é nesse sentido que nossos entusiastas de uma sociedade planejada atualmente empregam esse termo; tampouco é apenas nesse sentido que será necessário planejar se desejarmos a distribuição da renda ou da riqueza dentro de um determinado padrão. O que nossos planejadores exigem é um controle centralizado de toda a atividade econômica de acordo com um plano único, que estabeleça a maneira pela qual os recursos da sociedade sejam conscientemente dirigidos a fim de servir, de uma forma definida, a finalidades determinadas.

Mas então qual seria o papel do Estado? Existe um papel para o Estado?

O funcionamento da concorrência não apenas requer a organização adequada de certas instituições como a moeda, os mercados e os canais de informação - algumas das quais nunca poderão ser convenientemente geridas pela iniciativa privada - mas depende sobretudo de um sistema legal apropriado, estruturado de modo a manter a concorrência e a permitir que ela produza os resultados mais benéficos possíveis.

Há quem diga que na globalização só sobreviverão os grandes monopólios industriais, com tecnologia e know-how para atuarem em escala global. Isso é verdade? A globalização é uma causa concentração de riquezas? Esse processo precisa ser regulado ou interrompido?

(risos) Esta idéia provém, sobretudo, da doutrina marxista da concentração da indústria, embora, como tantas idéias marxistas, seja agora cultivada em muitos círculos que a receberam de terceira ou quarta mão e ignoram sua origem. Não contestamos, naturalmente, o fato histórico do crescimento progressivo dos monopólios durante os últimos cinqüenta anos e a restrição cada vez maior do campo em que reina a concorrência. Muitas vezes, porém, exagera-se bastante a amplitude do fenômeno.

Posted by Porfirio at junho 21, 2005 4:54 PM