Não quero ficar me lamentando por aqui. Dizer que estou trabalhando há 11 dias sem folga e que nesta semana fiquei até meia noite e meia no escritório, todos os dias. Mas o fato é que essa rotina anda destruindo meu bom-humor e, portanto, minha capacidade de escrever bons textos. Bons textos só podem ser escritos por pessoas bem-humoradas e ninguém que trabalha dezesseis horas por dia sonha em desfrutar de um humor elevado. O trabalho em excesso massacra a alma e a transforma numa maçaroca amorfa e mal-cheirosa, incapaz de uma ironia fina ou de uma boa piada.
Falemos do grande e do pequeno escritor. Uma platéia não agüenta cinco minutos de alguém reclamando sem parar, mas pode ficar horas e horas ouvindo boas piadas. Há quem diga que reclamações são profundas e piadas são superficiais, partindo da questionável premissa de que o mundo é um lugar ruim e que, se você está de bom humor, é porque não prestou atenção suficiente. Claro que quem diz isso é um desses ranzinzas mal-humorados, que não sabem dançar, adoram filosofia alemã e detestam gravatas italianas. Ou seja: gentinha. Os bem humorados ouvem as reclamações enquanto bebericam seu chardonnay, beliscam esgargô e tentam inventar aforismos mais engraçados que os do Wilde. Meu tipo de gente.
Desgosto particularmente de escritores profundos nesse sentido abominável. Prefiro os engraçadinhos. É um erro achar que bom-humor é sinal de ignorância. Muito pelo contrário. Essa coisa de reclamar o tempo todo é um claro sinal da crença, muitas vezes inconsciente, de que com argumentação algo pode ser mudado. A crença mais idiota e alienada que existe. Já a ironia é própria das almas desiludidas que, cientes da natureza imutável das coisas, se resignam a tirar um bom sarro. Incluo-me, ou tento me incluir, nessa segunda categoria. Sou um desiludido e luto para preservar meu bom-humor, que muitas vezes resiste apenas graças às brincadeiras e mimos intelectuais de outras almas que, assim como eu, também estão se esforçando para encontrar alguma diversão nesta vida.
Posted by Porfirio at março 24, 2005 10:52 AM