fevereiro 17, 2005

Dr. Clélio quer sair do armário

O brasileiro é um socialista de fachada. Somos a favor de políticas sociais e distributivas, mas sonegamos desavergonhadamente impostos. Como meu vizinho, o Dr. Clélio. O Dr. Clélio é médico e deve pesar uns 150 quilos, por baixo. Com voz de barítono, esbraveja em defesa das minorias oprimidas, blasfema os ricos, propagandeia a caridade. Da porta do consultório pra fora, é petista. Defensor das causas sociais. A favor de um Estado atuante, que limite os excessos do mercado. Da porta pra dentro, não emite uma nota fiscal, não declara a própria renda, não registra os funcionários. É um fora-da-lei fiscal. Ele e sua família vivem de um clandestino, porém polpudo e obeso caixa dois. Dr. Clélio é o socialista sonegador, uma figura paradoxal e hipócrita, que exige do Estado uma missão e ao mesmo tempo nega os meios para que ele a cumpra.

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No passado, vivíamos a famigerada inflação. Todos concordam que a inflação é algo pernicioso. Todos, menos o brilhante professor e jurista (sempre eles) Fábio Konder Comparato, cuja emérita inteligência vê na desordem monetária uma causa de desenvolvimento (vide artigo da pág. 02 de domingo do Estadão; no próximo post vou falar disso). A inflação é a manifestação externa de nossa hipocrisia. Sem dinheiro no caixa pra pagar as contas, o Governo se utilizava a saída ilusionista de inventar riqueza. Todo mês pulava um coelho branco da cartola orçamentária da União, pagando jetons aos passantes. Saída imediatista e estelionatária, a inflação ainda assim era considerada solução melhor do que o corte de despesas públicas ou, algo trágico, pôr fiscais na rua cobrando impostos. Sim, porque o verdadeiro brasileiro socialista, como o Dr. Clélio, não paga impostos. O socialista brasileiro, ao mesmo tempo que pede investimentos no social, sonega até o seu último centavo de real, sem um pingo de remorso. E assim seguia a hipocrisia do nacional. O brasileiro fingindo que pagava impostos, o Governo fingindo que gastava dinheiro de verdade.

Após chegarmos a uma inflação de 40% ao mês, que nos obrigava a comprar pão francês com cheque, decidimos parar com a brincadeira. Sem a inflação, o coelho e a cartola, o Governo passou a buscar recursos onde eles de fato existem, ou seja, no nosso bolso. Só no ano passado, o número de autos de infração da Receita Federal (espécie de notificação de cobrança com multa para quem é pego sonegando) cresceu 40%. Este ano, dizem, a coisa vai piorar. Além de cobrar o passado inadimplido, novos impostos estão sendo criados e velhos impostos estão sendo majorados. Confrontado com a óbvia realidade, de que socialismo se faz não com boa intenção, mas com o meu, o seu, o nosso dinheirinho, o brasileiro se vê num dilema. É a favor do Estado, mas contra os impostos. Aos poucos, esse ser bifronte começa a perceber que a brincadeira custa caro e, para valer a pena, tem que apresentar resultados. E os resultados do Estado são greves, pontes rodoviárias desabando, corrupção endêmica etc.

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Sempre disse: cobre imposto de um socialista e ele mostrará a sua verdadeira cara. No jornal, vejo artistas de TV fazendo manifestações públicas contra a carga tributária. Mil entidades de classe se reuniram em São Paulo, não para reclamar da pobreza, da desigualdade, da violência, do imperialismo americano, ou para dizer que um outro mundo - de magia, sonho e fantasia -, é possível. Atores e entidades se reuniram para dar um basta na carga tributária, ou seja, em português claro, para dar um basta no Estado. Para mim, esta é a notícia mais impressionante dos últimos anos, muito mais que a eleição de um outro clientelista nordestino para a presidência da Câmara Federal. Nunca vi algo assim. O liberalismo nunca encontrou espaço no Brasil. O brasileiro liberal sempre foi a verdadeira e única minoria deste país. Discriminada, humilhada, ridicularizada, perseguida. Conheço multidões que se declaram a favor do casamento gay. Filas e filas intermináveis de simpatizantes do comunismo e da raça negra. Agora, me mostre um liberal convicto, ache alguém que seja contra políticas assistencialistas e a favor de um Estado mínimo. Esses praticamente não existem. Eu mesmo só conheci dois gatos pingados, que na faculdade não podiam abrir a boca sem serem repreendidos por colegas e professores.

Repito: os liberais são a única minoria deste país. Eles, sim, merecem um dia do orgulho liberal, uma passeata do orgulho liberal, um grupo de defesa do orgulho liberal.

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Mas o fato é que a conta do Estado está chegando, na forma de medidas provisórias e autos de infração. Eu, você e nem mesmo o socialista brasileiro querem pagá-la. Se, para desgosto do prof. Comparato, a inflação não voltar, a única saída será reduzir o tamanho do Estado, o que me leva a acreditar que, talvez, o futuro reserve mais espaço para os liberais. E nesse dia, o Dr. Clélio, até então socialista sonegador, poderá finalmente ‘liberar’ a franga, sair do armário e dar um belo dum pontapé no traseiro do fiscal da receita que baterá na sua porta.

Posted by Porfirio at fevereiro 17, 2005 9:58 AM