novembro 5, 2004

Posteridade

- Sabe que o senhor às vezes é genial.
- Eu?!! (Porfirio, visivelmente insatisfeito com o comentário, tenta arrumar o cabelo e ajustar o nó da gravata) Genial?? Como assim?? (olha no espelho procurando algum defeito) Phipps! Eu sou saudável e belo demais para ser um gênio!
- Não quis dizer isso, senhor. Quis apenas elogiar o seu senso de humor, sem ofende-lo é claro.
- Mas acabou ofendendo, Phipps. Acabou ofendendo. (arruma o cabelo e ajusta a gravata mais uma vez) Gênio... O que você está insinuando? Já sei! São essas novas gravatas italianas! São tão feias assim? (desfaz o nó e tira a gravata)
- Não, senhor.
- (Porfirio olha feio enquanto procura uma nova gravata) Á! É o novo corte de cabelo!
- Não não, senhor. Cabelos curtos combinam com o verão.
- Então eu não entendo... Qual a razão desse comentário desagradável?
- Nenhuma em especial, senhor. Eu apenas quis (...) me permite uma pergunta, senhor?
- Sim, mas cuidado com o que vai dizer...
- Os gênios não podem ser belos e saudáveis?
- (Porfirio explode em risos) Phipps! (risos) Belos e saudáveis! (risos e mais risos)
- Não compreendo, senhor.
- (risos) Á, Phipps. (enxuga lágrimas dos olhos com um lencinho) Os gênios são sempre feios, meu amigo. Sempre. São horrorosos, descabelados e mal vestidos. Não usam gravatas de seda, nem sapatos italianos. Não dirigem conversíveis, nem comem ostras. E são, além de tudo, uns grosseirões. Um gênio é uma figura oposta à de um gentleman. Se não for, há algo de muito errado ou com a sua genialidade ou com a sua sofisticação. Um gênio é invariavelmente um ser mal-educado e indiscreto. E ter um arroubo de genialidade é a maior gafe que se pode cometer na vida. Sabe de uma coisa, Phipps? A genialidade não me atrai em nada. Na verdade na verdade, evito a todo custo ser brilhante.
- Mas, se me permite, ao que me consta o senhor admira os grandes homens. Ontem mesmo o senhor não estava cantarolando Mozart, imitando Papageno aos pulinhos na varanda da sala?
- (intrigado com a bisbilhotice) Estava sim. Por sinal, onde estão os meus sininhos?
- Na terceira gaveta à direita, senhor. E anteontem mesmo não o flagrei às gargalhadas com o Marido Ideal, lá na biblioteca.
- Não era o Marido Ideal. Era o Burgeois Gentilhomme.
- Sim, Burgeois Gentilhomme. Agora me diga, senhor, com sinceridade. Esses pulinhos e gargalhadas não são sinais de uma admiração verdadeira?
- Com sinceridade, Phipps? Tem certeza? Você sabe que todos os grandes crimes foram cometidos por pessoas que resolveram ser sinceras, não?
- Sei, senhor. Mas são ou não sinais de admiração?
- São claros sinais de admiração. Admiração pelas obras, não pelos autores. Quanto mais grandiosa a obra, mais desprezível o autor. O problema é o seguinte, Phipps. Todo grande gênio sofre de uma disfunção ótico-mental: sua excelente visão para as distâncias do tempo o impede de enxergar as coisas mais imediatas. O pobre coitado escreve romances atemporais, mas não consegue pagar a conta de luz. Cria sistemas filosóficos inteiros, mas não inventa uma boa cantada para conquistar a mulher amada. Os gênios são assim, hipermétropes intelectuais. São capazes de contemplar paisagens inalcançáveis, mas passam a vida de canelas roxas, tropeçando desajeitadamente em degraus, tapetes e mesinhas de centro. De que adianta ter um binóculo, se a humanidade vive dentro de uma quitinete?
- (risos contidos) Mas e a tentação de produzir grandes obras para a posteridade, senhor? De ser lembrado pelas gerações futuras?
- (faz uma careta e começa a colocar uma outra gravata) Pra que desperdiçar a sua vida criando obras que só serão compreendidas um século depois, quando já vamos ter batido as botas? (com o dedo indicador balançando no ar) Esse é o problema. Por ser incompreendido, o gênio ganha pouco, come mal e bebe pior ainda. As mulheres os desprezam, já que a mulher é o animal mais pragmático que existe e o gênio o seu oposto: um ser desprendido de tudo o que realmente importa na vida. O gênio sacrifica o seu presente em prol de uma posteridade que ele não vai conhecer. Em prol de completos desconhecidos. E a posteridade é uma multidão anônima, que fica exigindo antecipadamente invenções para facilitar as suas vidas, livros para se divertirem e quadros para decorarem suas casas. Um bando de insolentes preguiçosos, isso sim, essa tal posteridade. (termina o nó da gravata)

Entra a noiva de vestido longo.

- Estamos atrasados, amor. Que demora é essa? Resmungando sobre a posteridade de novo?
- (manda um beijinho para a noiva) Veja você, minha querida. Eu não trabalho nem para ajudar meus melhores amigos, mas o velho Phipps quer me convencer a trabalhar para a posteridade!!! (risos)
- Não foi isso, senhor...
- A última coisa que quero é ser brilhante. Toda vez que tenho uma grande idéia, finjo que nada aconteceu. Guardo o pensamento só para mim, ao lado das meias Gallo, ali, na segunda gaveta, logo abaixo dos meus sininhos de Papageno. Depois disfarço e saio assobiando. Posteridade... Vai saber quem serão essas pessoas? E se forem um bando de nazistas truculentos? E se virarmos uma civilização de vagabundos, racistas ou maníacos pedófilos?
- Vamos embora, amor?
- Onde está minha cartola? (coloca a cartola) Adeus, Phipps. E se alguém da posteridade ligar, diga que saí para desperdiçar meu tempo com coisas fúteis.

Posted by Porfirio at novembro 5, 2004 5:52 PM