Era um grupo de guerrilha revolucionária, conhecido por GL (Grupo da Liberdade). O objetivo era implantar o liberalismo na América Latina. Tinham se conhecido no dia seguinte à vitória do Lula para a Presidência. Quando souberam do resultado, os 7 membros fundadores tiveram a mesma idéia: correr até o Empório Santa Maria para defendê-lo da invasão comunista. O Santa Maria, para quem não sabe, é o melhor mercado de São Paulo, um empório de iguarias importadas freqüentado por quem tem muito bom gosto e algum apetite (além de dinheiro). O Santa Maria seria, nas palavras de um deles, o último bastião de resistência da elite capitalista do Brasil:
- Você acha mesmo que eles virão?
- Podem até tentar, mas não vão conseguir. O empório está cheio de armadilhas.
- Armadilhas?
- Espalhamos pistache na porta principal. Quem entrar por ali vai escorregar e cair de cabeça no chão. Aí os soterraremos com pacotes de 3 quilos de polenta italiana. Temos tudo planejado.
- E o que você está fazendo deitado no chão, com esse salmão na cabeça?
- É camuflagem.
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O empório não foi invadido, mas o grupo que lá nasceu continuou a se reunir. O líder usava o codinome Miltão, em homenagem a Milton Friedman, o economista. Todas as reuniões eram realizadas na sede do movimento, um iate de 80 pés atracado em alguma das ilhas de Angra dos Reis. O nome da ilha nunca foi revelado, dizem, por medo de represálias do Governo Federal. As esposas dos rebelados, no entanto, desconfiavam que o esconderijo se prestasse a outras práticas menos nobres, como estripetizes e bebedeiras. Mas o fato é que os 7 compareciam mensalmente à sede para discutir as formas de ação do grupo, o futuro do liberalismo e para pegar um solzinho, se desse tempo.
Antes do início de cada reunião, Miltão, de sunga e copo de uísque na mão, gritava o lema do movimento ("liberdade, nem que seja na marra!!"), que era repetido por todos em um entusiástico coro, inclusive pelas meninas de topless que vez e outra apareciam. A composição do grupo era heterogênia e os membros só se conheciam pelos codinomes. Além das meninas, tinha o Miltão, que era economista formado em Chicago, dono de uma consultoria para investidores estrangeiros. Marcos, Leo e Campos (este em homenagem ao Roberto) eram advogados, donos de grandes escritórios. Cacique e Bilão (únicos que tinham uma relação fora do grupo) eram sócios em um fundo de ações e o Mauro, podem acreditar, era jornalista. Todos - com exceção do jornalista, claro, e das meninas de topless - eram ricos e ganhavam dinheiro graças ao livre mercado.
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O grupo logo começou a enfrentar problemas. Um dos que apareceu foi o do financiamento.
Como conseguir dinheiro para a causa? No início pensaram em assaltar algum banco. Mas o problema é que os donos de todos eles eram amigos ou conhecidos de alguém do grupo. Não dava para assaltar um conhecido, além do que o movimento simpatizava com a atividade bancária, essencial para o bom funcionamento do mercado. Ia ser um tiro no pé. Pensaram também em seqüestrar um embaixador qualquer e mantê-lo em cativeiro até o pagamento de um resgate substancial. Mas o Cacique observou que não era muito coerente para um movimento que defende a liberdade manter alguém preso em cativeiro em nome da causa. Mesmo que esse cativeiro, como sugeriram, fosse uma suite-master do Renaissance.
Bilão, que trabalhava no mercado financeiro, deu a idéia de transformar o grupo em uma S/A, abrir o capital e emitir ações no mercado mobiliário. Assim o movimento poderia se sustentar daquilo que ele mesmo defende, o livre mercado, pagando pelas atividades libertárias e ainda por cima dando um exemplo prático de sucesso empresarial. A idéia foi bem recebida no começo, mas foi logo abandonada por causa do nome. O GL teria que virar GLS/A e poderia ser confundido com alguma entidade ativista gay, o que, definitivamente, não era o caso. Além disso, para emitir ações na bolsa o GLS/A teria que informar o endereço de sua sede em Angra e publicar balanços anuais, o que impediria as despesas com as meninas e o uísque, unanimemente reconhecidas como essenciais para a causa libertária.
A solução encontrada foi provisória. Dividiriam as despesas na proporção do poder aquisitivo de cada um. O Miltão cederia o iate e o Marcos pagaria o diesel. O Cacique e o Bilão trariam as meninas, sem sutiã, para economizar. O Leo e o Campos entrariam com o uísque 15 anos. E o Mauro ficaria encarregado do amendoim japonês.
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Mas o grande problema foi identificar o tipo de ação terrorista compatível com a causa libertária.
Da mesma forma que não dava para seqüestrar ninguém em nome do capitalismo-liberal, também não dava para roubar, invadir propriedades, extorquir ou matar em nome da liberdade. Toda e qualquer atitude terrorista seria uma contradição aos ideais do grupo. Essa incompatibilidade afastou a maioria das propostas, como uma do Campos, que tinha conquistado a simpatia do grupo, de colocar bombas nos prédios projetados pelo Niemeyer. São feios, mas têm dono, dizia o Leo. Miltão, o único solteiro (na verdade divorciado), pensou numa inofensiva passeata com trezentas mulheres de topless na Av. Paulista, pedindo a autonomia do Banco Central e a entrada do Brasil na ALCA. Os demais membros, todos bem casados, não aceitaram por razões óbvias.
Dizem que para converter um país ao comunismo é necessário prender metade de seus cidadãos e explodir um terço dos seus prédios. Para convertê-lo ao capitalismo, basta espocar uma champagne. Inspirados por essa frase anônima (que está pendurada na sede do grupo), hoje os membros do GL resumem suas atividades basicamente a sair no iate do Miltão, tomar sol e beber uísque 15 anos cercados de belas garotas. Pode parecer pouco, mas essas ações angariaram mais adeptos à causa do capitalismo-liberal do que os homens-bomba conseguiram para a causa palestina. O que, cá entre nós, era mais do que esperado. Afinal, mais vale uma safada na mão do que 12 virgens no paraíso.
Posted by Porfirio at novembro 3, 2004 5:56 PM