outubro 29, 2004

Seus problemas acabaram!

Já disse aqui que a diferença entre alguém burro e alguém inteligente é que o inteligente faz perguntas e fala pouco. Gente burra não pergunta nada e ainda por cima fala pelos cotovelos. Não sei se você, leitor, já notou, mas a Natureza fez questão conjugar à pouca inteligência uma enorme disposição em falar. Uma combinação, para dizer o mínimo, infeliz. Na minha humilde e sempre correta opinião, gente que fala demais é o maior problema do mundo, seguido da fome e do buraco na camada de ozônio.

Mas eu tenho um segredo pra contar pra vocês. Desenvolvi uma técnica infalível para lidar com gente que fala demais. Sério, infalível. Com algum treinamento mental, o iniciado nesse revolucionário método consegue fingir, de maneira imperceptível aos leigos, que está participando ativamente de uma conversa insuportável, mesmo sem prestar quase nenhuma atenção. A teoria é de uma simplicidade assustadora, mas é necessário algum treino para colocá-la em prática.

A idéia é simples. Você sorri, cumprimenta a vítima de logorréia naturalmente e espera que ela desembeste a falar. Toda a vez que houver uma pausa no monólogo (denominadas "pausas estratégicas para intervenção interlocutória"), você repete a última frase que ela disse. Só isso. É só repetir a última frase, às vezes com alguma mudança de entonação, pra não dar na cara, e você cria a ilusão de que está participando da conversa. A aparente simplicidade embute um elevado nível de autocontrole: ao mesmo tempo em que entorpecemos a mente e começamos a pensar em outros assuntos mais relevantes (criacionismo, o sentido da vida ou o cardápio do jantar), precisamos prestar uma atenção mínima à diarréia verbal, para percebermos o momento exato de soltar a frase (ou "teaser" no jargão técnico).

Vejam o exemplo abaixo.

INTERLOCUTOR
- Ô Porfirio! Saudades, rapaz! Faz tempo, hein? E as coisas? (dá um desagradável tapa nas costas)

PORFIRIO
- Tudo tranqüilo. E a família?

INTERLOCUTOR
- A família vai bem! Muito bem! Ontem cheguei em casa e Fulaninha (irmã) estava dormindo no sofá, e meu cachorro latiu por que o vizinho fez barulho na varanda. Minha irmã é um saco. Todo dia ela acorda 5 da manhã pra ir no banheiro e deixa tudo molhado, o tapetinho fica parecendo um pano de chão e (...depois 15 minutos de fala ininterrupta, já perdendo o fôlego..) daí chegou o encanador com aquele macacão ridículo, sabe?, por que o cano estava furado mesmo. (pausa estratégica para intervenção interlocutória)

PORFIRIO (lendo uma revista escondida embaixo da mesa)
- O cano estava furado mesmo.

(Percebam aqui como o "teaser" não diz nada, mas cria a ilusão de uma participação ativa.)

INTERLOCUTOR
- Todo furado! E o cara queria me cobrar os olhos da cara por que a água já estava chegando no vizinho de baixo com todas aquelas goteiras e manchas e (...depois de mais 15 minutos de fala ininterrupta, já meio sôfrego...), bem, aí tive que vender o diabo do carro, todo batido, do jeito que estava. (pausa estratégica para intervenção interlocutória)

PORFIRIO (terminando a leitura de Ascensão e queda do império romano, também escondido embaixo da mesa)
- Todo batido, do jeito que estava...

INTERLOCUTOR
- Ce vê só! Do jeitinho que estava! Claro que o preço foi baixo e o safado do motorista do táxi (...e assim vai...).

Tentem, por que funciona. Juro a vocês que minha vida mudou depois de descobrir a revolucionária técnica. Tenho mais disposição para festas, casamentos e reuniões de família. Tentem, tentem.

Posted by Porfirio at outubro 29, 2004 5:07 PM