outubro 20, 2004

O dinheiro, o dinheiro

O trabalho embrutece. Enquanto somos crianças vivemos de favores e doações, e por isso acreditamos na caridade humana, apesar de não sermos, enquanto crianças, nada caridosos. Depois que ficamos mais velhos descobrimos que a prosperidade vem da oportunidade e que o homem próspero é, por definição, um oportunista. Também descobrimos que vida deve ser bem gerenciada, e que o cálculo preciso dos custos e receitas está na raiz da riqueza e da felicidade. Assim, descobrimos que o homem próspero e feliz, além de oportunista, é também um calculista, e dos frios.
Amadurecer é começar a trabalhar e a grande, talvez única, diferença entre um adulto e uma criança é que o primeiro depende de seus próprios meios para viver e o segundo vive da generosidade dos outros. O adulto vive do amor próprio e a criança vive do amor alheio. Em diferentes proporções e com diferentes graus, amadurecer significa sair de um estágio de ingenuidade contemplativa para uma nova posição, em que a caridade e o altruísmo desempenham um papel quase irrelevante, solapados pelas necessidades prementes e pelas cotoveladas que damos e levamos em busca de algum espaço. Essas cotoveladas são o trabalho da vida adulta. E é uma pena termos que trabalhar para conseguir dinheiro. Sim, por que o dinheiro, principalmente o dinheiro fácil, ganho sem muito esforço, abre o espírito, refina os modos e financia educação. Mas o dinheiro ganho com trabalho duro é amaldiçoado. Vem contaminado com ganância e avareza, é o produto do embrutecimento de nosso espírito e o prêmio final pelo consumo de todo nosso precioso tempo.
Foi Fernando Pessoa (me corrijam os literatos) quem criou o banqueiro anarquista. Acusado de ser uma contradição ambulante - não há nada menos anárquico do que ter um banco - o banqueiro anarquista se defendia dizendo que o dinheiro escraviza o homem e que a única forma de se libertar dessa obsessão era possuindo-o em grandes quantidades. O que em parte coincide com a lição de meu herói predileto, o velho Alfred P. Doolittle, que em My fair lady tentou negociar por dinheiro a sua própria filha. Diante da proposta vil, o Prof. Henry Higgins pergunta se o velho Doolittle não tinha alguma moral. "Moral? I can't afford it!". Nesta última frase, quatro palavras que valem um tratado sobre o ceticismo.
O dinheiro é uma espécie de lixa bem fina, que em mãos erradas arranha coisas belas, mas nas mãos certas apara as arestas de nossa educação e reduz as imperfeições de nosso caráter. O problema é que as pessoas desperdiçam a maior parte do seu tempo atrás de riquezas, e se esquecem de aprender como gastá-las.
Sofisticação exige muito dinheiro e pouco trabalho, eis a última das contradições de nosso tempo.

Posted by Porfirio at outubro 20, 2004 12:05 PM