Na sala do chá, Porfírio está sentado à mesa do café, aguardando o serviço. Sobre as largas tábuas de carvalho, dois belos tapetes persas vermelhos estão estendidos em paralelo, as franjas douradas se tocando. Ao lado da lareira apagada, duas almofadas de veludo. Sobre uma delas descansa Tião, o buldogue da família. Phipps entra com uma bandeja de prata. Carrega dois bules, um jogo de xícara e dois delicados pratos de porcelana.
- Bom dia, senhor.
- Bom dia, Phipps. Você viu? Mais uma manhã de sol, dessas que imploram para não irmos ao trabalho.
- Mas o senhor não trabalha.
- Claro, exatamente porque nesta terra faz muito sol. Climas tropicais não são adequados ao trabalho. Apenas ao relaxamento e à indolência inconseqüente e improdutiva. Este país nasceu como uma colônia penal, mas nossa vocação sempre foi a de colônia de férias.
- Mas quando estávamos em Londres o senhor se recusava a trabalhar por causa do frio.
- Que também é inadequado ao trabalho. É engraçado como o trabalho é inadequado para quase tudo. É indiscreto e inoportuno. As pessoas falam em oportunidade de trabalho, mas temos aí uma das mais divertidas contradições em termos. O trabalho é sempre inoportuno. É o tipo de coisa que não combina com nada. Na verdade, trabalho só combina com cavalos. Não com os de raça, é claro. Não acha, Phipps?
- Claro, senhor.
- Ótimo, adoro que concordem comigo logo pela manhã. A tarde é mais adequada para as discórdias. Trouxe as torradas e o queijo chèvre?
Phipps coloca o prato, o copo e a xícara, dois garfos, duas facas e uma espátula de patê à frente de Porfírio. Serve as torradas, o queijo chèvre e o chá de frutas vermelhas. Porfírio esfrega as mãos.
- A comida sempre melhora meu humor (dá um gole na xícara de chá). Mas mudando de assunto, ontem compareci a mais uma das festas da Teresa.
- A bela ruiva?
- Sim, a bela ruiva. A bela ruiva e suas tediosas festas. É engraçado como as pessoas gostam de parecer íntimas umas das outras em ocasiões sociais. Abraçam estranhos. Beijam desconhecidos. Se Stalin chegasse naquela recepção, ganharia imediatamente um apelido (Tatá), uma taça de porto, e sentaria na sala de charutos para ouvir piadas. Nessas festas as pessoas tornam-se íntimas de qualquer um que apareça, o que nos dá um novo exemplo divertido de contradição em termos: a intimidade pública.
- Mas a intimidade pode ser boa quando oferecida às pessoas certas.
- Como? (Porfírio morde uma torrada com chèvre)
- Eu disse que alguma intimidade, para com as pessoas certas, pode ser boa. Não sei se o senhor concorda mas...
- Phipps, Phipps. A intimidade quase nunca é algo bom. Ter intimidade é se sentir à vontade, é se mostrar. É (fazendo trejeitos de uma pessoa estúpida) a liberdade de ser quem a gente é. Não vejo vantagem alguma em ser quem a gente é o tempo inteiro. Às vezes me canso de mim mesmo e procuro me evitar a todo custo. Nem sempre gosto de quem sou e a idéia de sair por aí me exibindo, ainda mais para pessoas que admiro, é desagradável (dá mais um gole de chá). Você costuma se despir na frente de pessoas estranhas?
- Não, senhor.
- E na frente dos amigos?
- Só quando estritamente necessário.
- Então. As formalidades são as vestes do caráter. Você não pode simplesmente sair por aí arrancando as calças de sua personalidade na frente dos outros. A não ser que seja estritamente necessário.
- Mas quando quer, o senhor consegue se soltar um pouco.
- Quando quero ser inconveniente, Phipps. Entenda uma coisa. As formalidades são delicados mecanismos desenvolvidos após séculos de convívio social, com o fim exclusivo de nos proteger uns dos outros. Quando pedimos licença, evitamos um esbarrão. Quando convidamos uma garota para jantar, a poupamos de um assédio. Quando vestimos uma gravata, demonstramos respeito e consideração para com os outros. Só as gravatas salvaram mais vidas neste mundo do que todos os pacifistas juntos. Por isso tudo, quanto mais gostamos de alguém, mais cuidadosos e formais temos que ser. Já com as pessoas que desgostamos, estas sim merecem conhecer nossos defeitos, excessos e caprichos, ou seja, merecem toda a nossa intimidade.