setembro 22, 2004

Relato de viagem

Pois é. Desculpem o sumiço. Foram três semanas viajando a trabalho nos EUA, aquele país canalha que invade nações pelo simples prazer de fazer a guerra. A viagem me tocou fundo e me fez repensar diversos dogmas. Eu era um liberal democrata, mas após rever de perto a mal sucedida experiência americana mudei de idéia. Voltei com meus ideais socialistas revigorados e com a viva intenção de libertar a América Latina do jugo capitalista.

Os EUA são um péssimo país para se viver e a cada dia piora. Sério. É uma nação terrivelmente desigual e por detrás dos sitcoms, do consumo exorbitante e dos parques temáticos há uma população profundamente infeliz, que só não foge com suas lanchas offshore para a Europa porque lá o diesel é mais caro. Um terço da população americana é composta de especuladores inescrupulosos que investem dinheiro em busca do lucro fácil. Outros dois terços são de empregados que trabalham para os especuladores. A exploração é tão descarada que não faltam ofertas de empregos para as pobres vítimas do capital. A cada esquina há uma oportunidade de ser espoliado por um empregador ganancioso, recebendo um salário vil que mal dá para pagar a casa em Beverly Hills e o Rolls Royce conversível, iguais aos do patrão.

Tanta ganância cria enormes diferenças entre classes sociais. Os EUA têm três delas. Há os que vivem bem, os que vivem otimamente bem e os que vivem em uma riqueza inimaginável. Estes últimos são uma minoria de privilegiados, que ganham dinheiro fácil as custas dos que vivem bem e otimamente bem. Tomam banho de leite de cabra todo dia, namoram atrizes de Hollywood, dirigem carros italianos cor de rosa e usam cortes de cabelo extravagantes, como o do Donald Trump. Os que vivem otimamente bem exploram os que vivem bem, custeando com o produto da espoliação suas viagens para a Europa e para a Ásia e seus carros europeus de cores mais tediosas, como preto e prata. Já os que vivem bem, coitados, não têm a quem explorar. São resignados a uma vida de servilismo, com férias de apenas 15 dias na Flórida ou Havaí, ou em ilhas próximas, como Barbados e Jamaica. Pior de tudo, são obrigados a dirigir carros japoneses ou, o que é mais humilhante, carros coreanos com menos de seis cilindros.

Outro golpe é o de que os EUA são o país das oportunidades de riqueza. Sei, sei... Quase todo dinheiro que ganhei em São Francisco com trabalho suado perdi em poucas horas nos cassinos em Las Vegas, nas roletas e nos elásticos das calcinhas das dançarinas de bar. Tentei explicar para a minha noiva que a culpa de minha ruína era do sistema financeiro internacional, e que a tanga de rendas vermelha amarrada na minha cabeça, flagrada numa foto dentro do Venitian, era um sinal de protesto contra o FMI. Cega pela propaganda ianque, ela não se convenceu. Preferiu acreditar na falsificação grosseira de uma certidão de casamento 'drive thru' entre eu e a dançarina Kelly Mary Jones, que, por coincidência, havia me emprestado a tanga da foto.

Em NY fiz questão de explorar a fundo o capitalismo em todas as suas nuances perversas, não importando o quanto isso me custasse. Me hospedei em um hotel na Central Park South, com vista para o Central Park. Caminhei pela Quinta Avenida até a Saks, meca da burguesia, e comprei um par imperialista de gravatas Charvet. Na volta, parei no The Pierre para um chá de maracujá com lima, e provei alguns sanduichinhos de caviar, para matar as saudades da mãe Rússia. No fim da tarde, atravessei o parque pelo reservatório até a Central Park West, com uma passadinha no Met para ver quem faria a Carmen da temporada de óperas que se iniciou no dia 20 último. Tudo isso, claro, por motivações estritamente político-científicas.

Sentado na mureta do chafariz do Met, pensei nos pobres americanos e na vida sofrida das sociedades de consumo. Uma ponta de piedade perfurou meu peito e decidi voltar e contar a todos as atrocidades que presenciei. É triste, tudo é muito triste. Mas, no fundo, ainda há uma esperança de que isso um dia vai mudar.

Posted by Porfirio at setembro 22, 2004 1:25 PM