Azael de Jericó vivia no Vale do Jordão e era pastor de ovelhas. Diz a lenda que era também um cara inoportuno. Cutucava a bunda das pessoas com seu cajado e sempre dizia ter esquecido a carteira na hora de pagar a conta. Todos brigavam com Azael. Cala boca, Azael! Fica quieto, Azael! Tu é uma besta, Azael!! E Azael, como todo sem-noção, ficava chateado.
Um dia, sentado em uma mesa de bar e cansado das aporrinhações, Azael rogou uma praga sobre cinco de seus amigos ali presentes. Estendeu seu cajado de pastor e, invocando poderes ancestrais, disse em aramaico: Vocês se julgam muito espertos, não? Muito espertos! Pois bem, seus manés! Então vocês e seus filhos, e seus netos, e os filhos dos seus netos, e os netos dos bisnetos, e assim até o fim dos dias, serão as pessoas mais sábias do mundo! (risos maquiavélicos)
Dizem que, ao terminar, Azael caiu da cadeira, bêbado como um gambá. Na hora ninguém deu muita bola. Era a quinta vez que Azael, chumbado de vinho, tentava rogar a mesma maldição, sem sucesso. Mas o fato é que daquela vez a coisa tinha funcionado. E, desde então, todos os cinco pobres amigos e seus descendentes, até os dias de hoje, carregam dentro de si um ilimitado saber e passaram para a história conhecidos como "os filhos de Azael".
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Você, leitor ignorante, pode nunca ter ouvido falar dos filhos de Azael. Mas com certeza conhece um deles.
Uma amiga minha, por exemplo, é filha de Azael. Ela sempre tem razão. Sério, sempre tem. Não importa o assunto, não importa a situação. Uma vez, essa amiga e seu namorado se perderam na ida para uma pizzada. Lá pelas tantas, cansado das voltas, o namorado sugeriu virar à esquerda. Minha amiga disse não, não vai dar certo, com uma certeza metafísica, dessas que só os filósofos, os bêbados e os cônegos têm (tenho uma teoria de que estes últimos nada mais são do que filósofos-bêbados, mas deixem pra lá). Veja. Ela nunca tinha estado naquele lugar antes, nunca pôs os pés em bairros afastados. Mas, claro, ela tinha razão. Viraram à esquerda e caíram numa avenida cheia de borracharias, sem retorno.
Uma outra vez perguntei a essa amiga qual a raiz quadrada de 2.401. Fácil: 49. E qual o nome da lua de Plutão? E ela, sem tirar os olhos da TV: Caronte. O mesmo acontece com nomes de pessoas, datas de aniversário, fatos históricos, pratos do cardápio e afluentes do Amazonas. Não importa a discussão, ela sempre tem razão.
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Outro descendente direto daquela histórica mesa de boteco é o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Além de conhecer epistemologia, retórica, lógica apodíctica, biologia, física quântica, nutrição, veterinária e engenharia aeroespacial, dizem que o homem nunca se perdeu em São Paulo nem jamais errou uma receita de bolo. Ele sempre tem razão. Pergunte e verá. Por que o comunismo deu errado? Qual o conceito de Justiça? Quais as razões da queda de Roma? Qual a posição do homem no universo? Qual o propósito da criação? O que é melhor para fritar um bife à milanesa, manteiga ou azeite? Tudo, o homem sabe tudo na ponta da língua, sem titubear.
Falando assim você, o mesmo leitor ignorante, pode até achar que é algo bom essa coisa de estar sempre certo. A pessoa é vista como inteligente, passa no vestibular etc. Mas não é. Invariavelmente o ser amaldiçoado irrita a todos em sua volta. Sai com pecha de metido, pedante e arrogante. Sofre perseguições e todos os mortais que vez e outra dão suas escorregadas, como eu e você, se remoem de inveja e torcem para que o tal pise na bola uma só vez.
Mas desista, viu. Isso nunca vai acontecer: é a maldição.
Dizem (deve ser mais uma das lendas, imagino) que uma noite Olavo de Carvalho sentou na cama e, logo após arrumar os óculos e fazer sua oração, pensou: minha mulher está me traindo. Por um momento desejou estar errado. Não estava, é claro. Nosso filósofo sempre está certo e o garboso par de chifres lhe era tão infalível quanto a certeza da existência de Deus, do equívoco do darwinismo ou da relação entre as FARC e o governo Lula. Durante a noite, pessoas como minha amiga, o Olavo de Carvalho e um antigo vizinho de minha vó Elza, chamado Stanyslau, todas vítimas desse mal ancestral, choram baixinho, implorando para estarem erradas uma só vez. Naquela noite, o pobre Olavo chorou, amaldiçoou Azael e fez mais uma oração, pedindo a Deus que lhe abençoasse com a mais pura ignorância.
Nunca foi atendido.
Posted by Porfirio at agosto 10, 2004 7:08 PM