Tenho o que os ingleses chamam de mocking spirit (numa tradução livre, leve e solta: espírito zombeteiro). Um tirador de sarros que sempre vê o lado ridículo de tudo, porque tudo tem um lado ridículo. Se você me coloca numa mesa com oito pessoas, eu vou imediatamente ficar sério e fechar a boca. Por dentro, porém, estarei observando atentamente o ridículo de cada um, medindo os exageros, computando as tolices, contabilizando as bobagens, tudo anotado no meu bloquinho mental.
O moralista é ridículo, o relativista é ridículo. O católico é ridículo, o protestante, o mormom e, claro, os ateus são ridículos. O executivo, o jornalista, o escritor e o advogado são ridículos. O cientista é ridículo e o filósofo também. O filósofo é prato cheio, está repleto de detalhes ridículos. O cigarro no canto da boca. O cabelo desgrenhado. As pausas entre os discursos (como quem diz preparem-se para uma grande verdade) e, óbvio, os próprios discursos são todos, sem exceção, ridículos. O poeta então é um ser de um ridículo absoluto. Tem exatamente os mesmos detalhes do filosofo (que já é o que há de ridículo) e as mesmas preocupações, só que ainda por cima faz rimas.
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Confessem. Não há nada mais ridículo do que algo pretensamente sério que tenha um lado ridículo. A ridicularidade da coisa contrasta com a parte dita séria, tornando o conjunto todo ainda mais ridículo. E o pior é que as únicas coisas que não têm um lado ridículo são aquelas que são ridículas por inteiro, como na comédia. Aí o ridículo fica sem graça, porque não há contrastes e não há a patetice de tentar ser sério e acabar sendo ridículo. O cara assumidamente ridículo, como eu, chega e diz: eu sou ridículo. Faz uma piadinha, tropeça num degrau, cai sentado e ponto final. Como você ri de uma coisa dessas? Se pensar bem, é até um pouco trágico. Às vezes me dá até vontade de chorar.
Pois é. Esse é o nosso mundo, gente: a comédia é trágica e a tragédia é engraçada. Um mundo patético.