Passam-se os meses, os anos. Não recebe nenhuma carta. Não escreve nenhuma carta. Começa a ler nas horas vagas, ou seja, o tempo todo. Shaw, Wilde, Swift, Berlin, Goiaba. Tolstoi, Soares Silva, Huxley, Pound, FDR. No seu quarto de hotel, saraus com Shakespeare. Cada soneto, cada peça. Participa de corridas de carros na costa Amalfitana. Vai a exposições. Vai a teatros. Pula de pára-quedas (uma vez e quase tem um enfarto). No verão, o champagne é sempre gelado e o fois gras familiar. No inverno, o melhor Hennessy na frente de belas lareiras. Os anos continuam passando. A variedade de gravatas no mundo o impressiona: já se foram seis translações e todo dia uma diferente.
E então, numa tarde ensolarada, sentado em uma das varandas da Villa San Michele em Capri, uma ponta de tristeza cutuca as certezas do narrador. Estava esquecido, largado no mundo, como aqueles soldados de elite, jogados com um cantil e um canivete no meio da Floresta Amazônica (tudo bem, tudo bem, não foi uma boa comparação...). Tanto dinheiro gasto com efemeridades! Uma vida inteira de aparências! A busca cega do prazer material! De tudo que é apenas belo, do luxo vazio e existencialmente despretensioso! Todas essas quinquilharias em troca da única chance que o Universo nos deu de realizar algo!
A felicidade do narrador estava abalada pela primeira vez. ¿Aquilo tudo valeria mesmo a pena? ¿Será que, na verdade, e bem lá no fundo, ele não seria a pessoa mais triste e mais miserável do mundo?
[Continua...]
Posted by Porfirio at julho 27, 2004 9:44 AM