novembro 11, 2003

Goethe, ou Rousseau, ou Bandeira (o Manuel, não o Celso Antônio, por favor), não me lembro mais, disse: enquanto na cozinha se falava de pessoas, na sala discutiam-se idéias. É meio preconceituoso, mas muitas vezes quem quer dizer algo de importante, sem ter que se explicar demais ao ponto das pessoas perderem o interesse, deve cometer uns excessos. Nada mais desinteressante do que falar de pessoas, da vida alheia.

Disse isso por que mesmo? Ah, sim, lembrei meu ponto. O Direito é coisa de madames fofoqueiras metidas a intelectuais. Vejam os livros, as teses jurídicas. Ninguém discute fatos, ninguém estuda a porca realidade. O que faz o jurista? Lê outros juristas. Os juristas são os únicos estudiosos que têm por objeto de estudo a si mesmos. Discutem uns aos outros, citam-se, comparam-se, concordam, divergem, competem. Enquanto isso, do lado de fora, olhando através da janela, uma rota realidade espera por um pouco de atenção, uma esmolinha, um cuidado, até um aceno. Dentro, os causídicos enfastiam-se em um banquete de citações empoeiradas e palavras gastas. Há juristas que dão as costas para a realidade. Outros dão tchauzinho, como quem dissesse 'espera um pouco que eu já vou'. E a realidade fica lá, coitada, salivando, aguardando um naco de atenção...

Estou exagerando? Não, não estou. Vejam as teses, as infindáveis dissertações e os chatíssimos tratados. Uma coleção de citações de outros juristas que concordam com o autor. Shopenhauer escreveu 'Como vencer um debate sem ter razão', prefaciado pelo Olavo de Carvalho, que, digam o que disserem, entende algo de retórica. Lá estão as técnicas para se trapacear em uma discussão. Quase caí para trás quando percebi que a maioria é praxe na academia jurídica.

O Direito (e aqui vai mais uma frase de efeito) é uma ciência de falácias! O que é o argumento ad hominem ou o ad verecundiam senão uma fofoca barata, um fuxico de donas de casa. 'Não é pra falar nada, mas vocês já viram o que o Pontes de Miranda disse sobre tal coisa? Nem te conto...". "Ah, sim, sim. Mas o Prof. Junqueira não concorda com isso não."

O Direito é uma ciência de fuxicos.

Posted by Porfirio at novembro 11, 2003 6:27 PM