dezembro 18, 2003

1. O título deveria ser outro. Sugiro "Estado democrático: uma crítica", já que o nome original diz exatamente o contrário do que o artigo prega. O liberalismo é que é idolatrado e a Democracia é a criticada. Se eu escrevesse um artigo intitulado "Karl Marx: uma crítica" e o concluísse dizendo que os comunistas precisam defender melhor os ideais essenciais de O Capital, aposto que me chamariam de safado, com toda razão, diga-se. Essa discrepância entre título e conteúdo é uma técnica discursiva bastante criticada por O. de C. quando utilizada pela esquerda jornalística, mas o discípulo parece ter ignorado essa lição.

2. O argumento do Tostes nada mais é do que um negativo, uma cópia invertida do argumento de Marx para demonstrar porque as perversas forças capitalistas sucumbiriam ante as angelicais pretensões proletárias. Para Marx, eram os capitalistas que se apropriavam injustamente de parcelas da renda da classe trabalhadora através da mais valia. Essa transferência criaria uma crescente concentração de renda, até o ponto em que a autocontradição e a miséria lumpem fariam o capitalismo ceder ao seu próprio peso. Tostes diz a mesma coisa, segue a mesma direção só que em sentido inverso. A constante expropriação por impostos criaria um fluxo de renda no sentido de expandir o Estado até um ponto indeterminado, oprimindo a iniciativa privada. O artigo só não diz se essa expansão avançaria ilimitadamente ou se ela seria um período de gestação de uma Revolução dos Contribuintes, em que a classe empresarial oprimida pegaria em armas para lutar contra a turba de burocratas.

3. Tostes, como Marx, subestima capacidade das pessoas ditas comuns em escolher o que é melhor para si. Da mesma forma que no capitalismo de Marx a superestrutura (moral, religião, direito) ocultava das pessoas a realidade da espoliação capitalista, na democracia de Tostes mitômanos, demagogos e charlatões enganam os eleitores com promessas de curto prazo. Marx e Tostes, duas inteligências visivelmente superiores, escaparam dessa armadilha e conseguiram ver além das brumas que tapam a visão da patuléia deseducada.

4. Também como Marx, Tostes faz críticas detalhadas ao sistema democrático, mas não é nada bom em oferecer alternativas viáveis. Se a democracia é assim tão ruim, o que fazemos? Anarquia, monarquia, suicídio coletivo em Waco? Acho no mínimo deselegante alguém acionar o alarme de incêndio sem indicar a saída de emergência.

Posted by Porfirio at dezembro 18, 2003 5:47 PM