janeiro 6, 2004

Algo que nunca entendi é o porquê de estudarmos os gênios da literatura universal diluindo-os em um momento histórico ou um contexto social, duas das expressões mais odiosas que já se inventou. Penso que os gênios são gênios exatamente porque escaparam do seu momento histórico e contexto social para escrever alguma coisa que ultrapasse essas condicionantes. Até porque, claro, se não tivessem escapado não teriam chegado até nós. Se essas escolas literárias servem para relacionar os gênios com seus colegas menos talentosos ou com o ambiente ordinário de que eles tentaram a todo custo fugir, então elas só dão ênfase ao acidental e negligenciam o essencial das obras.

Um bom curso de literatura faria exatamente o contrário do que se vê por aí. Mandaria os alunos procurarem nos livros os trechos que mais os agradam, não por razões acadêmicas, mas apenas porque são engraçados, poéticos etc. Depois os alunos justificariam suas escolhas de maneira pessoal. O curso desprezaria tudo que fosse contextual e histórico, depuraria os excessos até chegar ao singularíssimo, ao íntimo, ao privativo. O bom escritor fala ao pé do ouvido, confidencia. Muita gente reputada ficaria pelo caminho, dissolvidas em modas literárias e em panfletagem política. Feita a raspagem, os alunos perceberiam que esse singularíssimo não é explicável por teorias ou contextos. É uma questão de gosto, e o curso serviria não para ensinar teoria literária, mas para para ajudar cada um a fazer a sua lista de prediletos.

Posted by Porfirio at janeiro 6, 2004 4:37 PM