Os adultos que gostam de literatura são os poucos sobreviventes do massacre que professores promovem durante os longos sete anos de ginásio e colegial. Nas aulas de português e literatura, quando chegava o temível momento da interpretação do texto, me entrincheirava sob a carteira, tremendo e rezando para que o professor não notasse a minha presença e não executasse à queima roupa os escritores que tanto amava, no paredón das teorias cretinas sobre escolas literárias. Camões foi espancado na minha frente, por uma turba composta pelo narrador onisciente, pelo eu poético e pela Flora, minha professora de português. Desacordado, foi então afogado nas águas mornas do Quinhentismo e nunca mais se levantou (Minto. Outro dia ele deu sinais de vida num livrinho de sonetos, que encontrei largado numa estante R$ 3,99 da Saraiva). Machado e Eça foram reduzidos a fenômenos sociológicos pelo dito Realismo. Eça sofreu uma tentativa covarde de esfaqueamento pelas costas, planejada e executada pela concepção acadêmica do romance de tese, que ainda anda por aí em apostilas de cursinho, solto e serelepe, desfrutando da impunidade que reina neste país. Machado foi atropelado pela narrativa não linear, que perdeu o controle do seu carro e o pegou na calçada da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Os dois se recuperaram rápido, mas sofreram escoriações feias.
Posted by Porfirio at janeiro 6, 2004 4:39 PM