janeiro 28, 2004

Antes de ser líder revolucionário e barbeiro, mantive uma movimentada banca de advogados. A advocacia é uma profissão engraçada. São encanadores, mas se vendem como literatos. Para ser advogado não basta um diploma de Direito e a aprovação pela OAB. É também preciso ter escrito má poesia. Todo bom advogado já fez má poesia na vida. Você já escreveu má poesia? Não? Sinto muito, não podemos contratá-lo, foi o que ouvi na minha primeira entrevista de emprego. Daí lá fui eu rimar amor com flor para incluir no meu currículo. Não transcreverei o poema, claro, já que alguns leitores podem não ter um banheiro por perto. Mas o fato é que dias depois estava empregado, graças a dois versinhos de segunda mão.

Mas não é só a poesia que é ruim. A prosa segue de perto e é sofrível. Advogados escrevem do mesmo jeito que nossos avós decoram suas casas. Imaginem o velhinho olhando para o canto da sala empoeirada: Gertrudes, este flamingo de louça ficaria bem ao lado do abajur oriental, não? Não, não ficaria, vovô. Seria um horror. E aquele leão de bronze e a cortina de seda bordada então, se fosse eu tocava fogo. Tão demodê quanto um flamingo de louça ou um leão de bronze é, por exemplo, uma citação em alemão ou francês em uma petição. Não há só línguas mortas. Há também as moribundas, faladas, mas com um pé na cova. Falar francês datou e citar em alemão é uma das coisas mais bregas que um escritor pode fazer, até porque ninguém mais fala nada de inteligente nesses idiomas e a mera intenção de intimidar (cuidado comigo, hein rapaz, que eu falo francês!) fica revelada. Revelar uma intenção é das coisas mais indiscretas e constrangedoras que uma pessoa pode fazer. Por isso, cada vez que lia uma frase francófila em um livro de Direito, minhas bochechas ruborizavam e um forte odor de fungos entrava pelas minhas narinas, como se tivesse em minhas mãos um alfarrábio farelento e amarelado. Um argumento inteiro em francês soava pior ainda. Parecia imediatamente burro, até prova em contrário. Je pense que... Amigo, você não pense coisa nenhuma, entendeu?

Como a casa da maioria dos avós, os textos dos jurisconsultos cheiram a bolor e estão entulhados de quinquilharias, palavras até então esquecidas em gavetas, expressões fora de moda. Ao abrir um desses livros, sentimos aquele constrangimento natural de quem, sem saber o que dizer ao anfitrião, fica inventando desculpas enquanto acha horrorosa uma residência visitada pela primeira vez. Com toda licença. Oh, que beleza essa coleção de conetivos! Uma graça. Todos enfileiradinhos, parágrafo por parágrafo. E essa citação em latim, hein? Combina mesmo com aquele tapete de oncinha. Em muitas oportunidades tentei explicar aos colegas que locuções como outrossim, consoante, dessarte e não obstante não combinam com nada, como o abajur oriental de minha vó Gertrudes. Sem sucesso, claro. Também posei de Aristóteles e tentei explicar que a repetição de um mesmo argumento quatro vezes não o torna mais verdadeiro do que se o explanássemos uma só vez. Em vão. É por essas e outras que os luminares de Estocolmo não entregam um prêmio Nobel do Direito. Eles antecipam, com razão, que nenhum jurista jamais vai dizer nada de verdadeiramente útil para a humanidade. Nem vale a pena criar a premiação. Flamingos de louça, abajures orientais e tapeçarias de oncinha não merecem prêmio Nobel. Merecem, no máximo, os elogios de uma tia velha e senil.

Posted by Porfirio at janeiro 28, 2004 5:24 PM