fevereiro 3, 2004

Tento todo dia ser um rapaz tolerante. Me esforço de verdade. Mas às vezes não dá. Na capa de um jornal desta semana lia-se a notícia de que 244 fiéis foram pisoteados até a morte durante o haj, uma peregrinação anual muçulmana a Meca. Vejam bem, 244 mortos e, estava lá, o mesmo número de feridos. Aí alguém me pergunta: mas o que é esse haj? Olhem, não sei bem. Só ouvi que o ponto culminante foi o apedrejamento de pilares (!?) que representam o diabo (!!??) por mais de dois milhões de fiéis (!!!!). Lida a matéria a gente fica imaginando a cena. Dois milhões de muçulmanos atacando pedras em uma colunata que representa o capeta. Claro que boa coisa não ia dar.

A notícia me causou um certo inconformismo, ainda mais depois de ler a declaração do Ministro Saudita para Assuntos de Peregrinação (não é piada) e Apedrejamentos (é piada), Iyad bin Amin Madani. Todas as precauções foram tomadas para evitar um incidente desse tipo, mas esse é o desejo de Deus. Precauções foram tomadas? Que tipo de precauções podem ser tomadas numa situação dessas? Filas com senhas para um apedrejamento civilizado do capeta? Estilingues com protetores e mira laser? Capacetes nos fiéis das primeiras filas? Pedras emborrachadas? E outra coisa que não me entra na cabeça. Se era o desejo de Deus matar 244 fiéis naquela tarde, de que adiantariam os dispositivos seculares de proteção providenciados por bin Amim? Imaginem a bizarra situação. Deus sentado na cadeira assistindo ao haj enquanto come pipocas.

Agora vai. Vai, pisa na cabeça dele! Vai!! Ué? Mas o que é aquilo? Droga, um capacete!!

Discutir se era mesmo o desejo de Deus pisar na cabeça de 244 incautos, que, por sua vez, tiveram a excelente idéia de se juntar a outros 1.999.756 iluminados para atacar pedras no capeta, não é ponto. Entrar em uma tal discussão me faria tão biruta quanto os próprios. O ponto aqui é imaginar o Ministro para Assuntos de Peregrinação, bin Amin, tomando precauções para evitar que a vontade de Deus seja atendida. Eu não entendo bem isso. Como é que um sacerdote pode adotar providências para que a vontade de Deus não se realize? Se era um desejo Divino, evitar o pisoteamento de inocentes não seria pecado?

Sim, sim, seria pecado. Mas aí vem o outro e diz: bin Amin tentou mas não conseguiu; Deus é onipotente. Bem. Na minha humilde e correta opinião, essa coisa de livre arbítrio e onipotência não parece funcionar nas religiões. Se Deus é onipotente, então não temos arbítrio algum, muito menos para pecar. Se não é onipotente, então não é Deus. É no máximo um subgerente encarregado da supervisão do departamento de seres irracionais e fenômenos geológicos do Universo. A resposta padrão a essa crítica é que Deus é onipotente, mas nos deu o livre arbítrio. Ou seja, Ele quis que nós não nos submetêssemos à Sua vontade. Pra que? Apenas para nos punir quando nós não nos submetêssemos à Sua vontade.

Enfim, vai entender...

Posted by Porfirio at fevereiro 3, 2004 7:49 PM