O que é uma buzina? Numa definição ingênua, é um dispositivo de aviso urgente instalado em veículos automotores. A buzina é para ser usada em momentos de perigo iminente. É um sinal de alerta, um último e desesperado recurso para chamar a atenção de outros veículos ou transeuntes que se encontrem em rota de colisão.
Isso, claro, no resto do mundo. No Brasil, a buzina não tem nada a ver com segurança, com colisão, com transeunte, com perigo iminente. A buzina é o grande veículo nacional de expressão de sentimentos. O brasileiro vê na buzina um meio de manifestar publicamente sua felicidade, suas aflições pessoais, seu descontentamento com o resultado de uma eleição, com o seu salário, com um jogo de futebol e, também, com a dona de casa que parou em fila dupla na frente da escola do filho. Buzinamos quando estamos felizes e quando estamos tristes. Buzinamos em apoio e em protesto, em comemoração e em desagravo. Buzinamos para dizer olá, para cortejar uma moçoila, para chamar a namorada, para avisar o porteiro de nossa chegada e para pedir para abrir o portão. Na verdade a gente buzina pra tudo, menos para avisar um desconhecido de um perigo iminente, como um assaltante. Daí nós saímos de fininho, porque ninguém é trouxa nem louco. De dispositivo de segurança, a buzina no Brasil foi transformada em um meio de expressão.
Fenômeno interessante é o buzinaço. O buzinaço, como a coxinha, o pastel de pizza e o abadá, é também uma criação genuinamente brasileira. Consiste num surto coletivo em que vários motoristas saem de carro buzinando pela cidade, em prol de alguma causa qualquer. Nunca ouvi falar de um buzinaço em Londres, contra a adesão ao Euro, ou em Bagdá, protestando contra a permanência das tropas americanas. Já no Brasil, tudo é pretexto. Já vi buzinaço contra o mosquito da denge, em defesa dos perueiros, contra o imposto de renda e em favor dos anjos (!?). Um buzinaço pode ser planejado, mas muitos surgem espontaneamente. Algumas pessoas só de ouvir uma buzina tocar já tocam pavlovianamente a sua própria, disparando uma reação em cadeia que avança até limites ignorados. Há relatos de um rapaz em São Paulo que num sábado buzinou para um amigo na rua, e acabou involuntariamente disparando um buzinaço que só terminou na manhã da segunda-feira seguinte.
Eu tenho lá minhas teorias sobre a função catártica da buzina. Acho que ela desempenha um papel psiquiátrico neste país. Posso dar exemplos. Um conhecido de um conhecido meu entrou em depressão dias depois da buzina de seu carro ter quebrado. A leve depressão rapidamente se transformou em tendência suicida e em seguida adquiriu traços de um marcado comportamento psicótico. Procurou um terapeuta. No início, nem paciente nem doutor tinham associado a quebra do equipamento sonoro aos sintomas. Isso, até que o coitado avançou desesperado sobre um taxista que o levava para casa, só para apertar a buzina do carro. A buzina, me disseram, tocava o hino do Vasco da Gama. Depois dessa foi internado. Vocês não sabem, mas há uma clínica em Guaratinguetá para os buzinômanos anônimos. A clínica fica afastada da cidade, para evitar que os internos ouçam o tráfego. Ali é proibida expressamente a entrada de veículos porque, dois anos depois da fundação, um caminhão de suprimentos buzinou em frente ao portão, causando um surto coletivo em que os internos atearam fogo aos colchões. Quando os bombeiros chegaram, os buzinômanos roubaram os carros pipa, ligaram as sirenes e começaram a buzinar por todo local, enquanto a clínica ardia em chamas. Foi uma noite dos infernos, que só acabou com a chegada da tropa de choque da Polícia Militar, munida de tapa-ouvidos especialmente desenvolvidos para esse tipo de operação.
Por isso, meus caros, todo cuidado é pouco. Quando você der aquela buzinadinha inocente, só para aborrecer o motorista da frente, pensando que é isso?, eu paro a hora que eu quiser, lembre-se de que: (i) você pode involuntariamente desencadear um buzinaço de dimensões catastróficas; (ii) você já pode ser um buzinômano em estado terminal; e (iii) ninguém mais na rua é responsável pelo seu problema pessoal com o motorista da frente; deixe as pessoas em paz.
Posted by Porfirio at fevereiro 12, 2004 10:47 AM