fevereiro 18, 2004

A crônica de futebol é o gênero literário do brasileiro. Os alemães inventaram a dissertação filosófica e os franceses o ensaio? Pois bem. Nós somos os gloriosos inventores da crônica futebolística. Se fazer arte é mentir, então os cronistas de futebol são os maiores artistas que existem, insuperáveis no ofício de transformar uma situação inacreditavelmente desagradável em uma lorota, em uma balela com ares de poesia rasteira. É um gênero medíocre? Sim, claro, como tudo por aqui. Imaginem se o maior gênero literário da Inglaterra fosse a crônica de rugby? O mundo seria um lugar pior, seria como o Brasil.

Digo isso porque compareci a um jogo de futebol neste último domingo. São Paulo 1 X Corinthians 0. Fui de fraque e cartola, acompanhado de minha hipnótica noiva (em seu longo vestido negro), meu parkerson-maraolo nos pés e girando graciosamente minha bengala predileta. Minha família se orgulha de não praticar qualquer tipo de esporte ou atividade física pelas últimas quatro gerações. Ostentamos na sala nossas polainas e travesseiros, gastos de tanta inatividade, como troféus conquistados a duras penas (de ganso). Tenho um irmão de treze anos que é fanático por futebol e pediu, no seu décimo aniversário, um par de chuteiras de presente. A surpresa foi tanta que mandamos fazer um exame de DNA no menino, para confirmar a paternidade. Com o positivo na mão, demos o presente e hoje frequento ocasionalmente alguns jogos, só para agradar aos pequenos. Vocês que estão acostumados com Nelson Rodrigues, Juca Kfouri e Armando Nogueira falando das cabeçadas fulgurantes, dos passes angelicais, dos dribles desconcertantes e das bicicletadas atléticas, preparem-se. Esta será a primeira crônica futebolística que narrará a verdade. De maneira poética, como toda a crônica, mas a Verdade.

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O jogo começava quatro da tarde. Duas horas antes uma fina garoa já cobria o estádio. Na chegada, os sinais de paz no futebol e diga não à violência indicavam que aquele lugar fora palco de inúmeras batalhas campais, em que visigodos e ostrogodos se enfrentaram para defender suas bandeiras e a honra de onze pessoas que ganham a vida correndo atrás de uma bola. O aroma doce de churrasquinho de gato inebriava os torcedores e o som constante de um carro de som protestando contra o aumento do preço do ingresso preenchia o ambiente. Enquanto desviava dos carrinhos de lanche, dos musculosos cavalos da polícia montada e do esterco que espalhavam pela calçada, fui abordado por um esbelto cambista, que tentou me vender por quinze reais ingressos que pude comprar por dez, cinco minutos depois na bilheteria. Evitei-o por instinto, como quem desvia por puro reflexo da canelada de um rápido adversário.

Compramos os ingressos e nos aproximamos felizes e sorridentes da entrada do estádio. Após passar por uma revista com detectores de metal e ser apalpado em minhas partes íntimas por um robusto negão de dois metros, eu, minha elegante noiva e meus irmãos entramos no estádio, com o peito cheio daquela esperança que só o verdadeiro e fanático torcedor tem. Fomos logo procurar um lugar e sentamos ao lado de um cândido senhor, de bermuda jeans e sem camisa, que logo nos informou ser da Mooca. A candura daqueles cabelos logo explodiu em pura energia, no exato momento em que o juiz entrou em campo. A partir de então, eu e meus irmãos (de treze e onze anos) tivemos uma fascinante aula de proctologia e anatomia, enquanto o velhinho sugeria ao bandeirinha diversos lugares em que ele poderia introduzir o seu instrumento de trabalho. Mas o melhor estava por vir. A torcida só começa seu espetáculo de massa, de uma calorosa euforia coletiva, quando o jogo se inicia. Aí vem o balé das cusparadas, que passam fulgurantes por sobre nossas cabeças, como estrelas cadentes em direção ao descampado adversário, logo abaixo. As cusparadas cintilantes foram seguidas por uma saraivada de sacos de mijo, arremessadas com sincronia e arranjo tão perfeitos, que fariam Sir George Solti ter pipocos de inveja. Flutuando no ar, os dourados sacos de mijo atravessavam o espaço aéreo, criando a ilusão de que aquele era outro planeta, um planeta com dezenas de sóis amarelos, um planeta singular, o planeta futebol.

E o jogo, ah o jogo. A grama verde sendo revirada pelos vigorosos chutes. As ágeis caneladas, os elásticos puxões de camisa e os sempre surpreendentes tapas na cara, dados pelas costas do juiz. O que expressa melhor a índole do brasileiro do que as pequenas deslealdades que festejamos todas as quartas e domingos no futebol? Sim, porque é um jogo de deslealdades acrobáticas, de safadezas discretas, em que cada jogador trapaceia à sua maneira e, o que é mais belo, em que os jogadores, unidos em busca da vitória a qualquer custo, trapaceiam coletivamente. No início do confronto os dois times se enfrentaram como soldados destemidos, mas, assim que um gol é feito, começam os tombos. Uma atrás da outra vêm as simulações de falta e as teatrais quedas. Na primeira, na segunda vez a gente olha tocado, acreditando piamente que o atacante teve a tíbia esmigalhada na última dividida. Eu realmente acreditei, a ponto de tirar do bolso meu lencinho de seda e secar as lágrimas que escorriam em homenagem à carreira do jovem atleta, cujo fim prematuro acontecia ali, bem na minha frente. Cinco minutos depois, quando o mesmo jogador, após ser retirado de maca em pura agonia pelos para-médicos, voltou ao campo todo serelepe, percebi que a beleza da coisa não está só nas jogadas, mas também nas "jogadas" que perfazem o árduo caminho para a tão sonhada vitória.

Quando o jogo acaba o espetáculo continua. O time visitante teve de ser escoltado pela polícia até a entrada do vestiário, desviando de toda a sorte de detritos arremessados pelas duas torcidas. O velhinho da Mooca continuava lá, destilando a sua insatisfação pela derrota em um sãopaulino da arquibancada inferior, que devia pesar algo em torno de 150 quilos. O tamanho avantajado fez com que torcida corinthiana lhe desse o carinhoso apelido de saco de merda, apelido que o hilário velhinho fez questão de gritar incansavelmente durante uns vinte minutos, até a saída do estádio. Lá fora, os cavaleiros da polícia montada ainda nos aguardavam, provavelmente para impedir que o saco de merda fosse espancado pelos ostrogodos em meio ao esterco da calçada. E tudo mais continuava lá: o cheiro de churrasquinho de gato, o protesto pelo preço do ingresso, o carro de som ensurdecedor, os cambistas, os carrinhos de lanche, os sinais de paz no futebol e diga não à violência etc., etc.

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Isso é o futebol, meus caros. E as crônicas desse esporte são o gênero literário mais rasteiro já inventado.

Posted by Porfirio at fevereiro 18, 2004 11:21 AM