Quarto de dormir. Porfirio está deitado na sua cama, enrolado em lençóis de algodão egípcio e abraçado a um travesseiro de penas de ganso, que imagina ser a sua noiva. Acorda com fome e estica o braço até a pequena mesa de canto.
- (Tocando o sininho freneticamente) Phipps! Phipps! Traga meu chá e os pãezinhos!
- (Phipps entra com a bandeja, os jornais e um estranho papel) Senhor.
- Obrigado, obrigado. (Com o papel na mão) O que é isso?
- Um artigo, senhor. Imprimi esta manhã do site o indivíduo.
- Indivíduo? Já não te disse para largar dessas bobagens?
- Achei que o senhor gostaria. É bastante interessante. Fala da fé, da razão e de como a ciência se tornou uma religião moderna, em que as pessoas acreditam cegamente. Como os antigos devotos da Idade Média acreditavam no catolicismo.
- (Esfregando os olhos) Oh sei, sei. Religião moderna... Sabe, Phipps. Não há nada mais deselegante do que alguém que tenta aumentar seu próprio conceito rebaixando os que estão à sua volta. Essa sua explicação basta para que eu nem toque nesse papelucho barato. Religião moderna? Não diria tanto. Você já encontrou algum cientista entoando cânticos em louvor à teoria da relatividade? Ou construindo catedrais em homenagem às supercordas?
- Não, senhor.
- Pois então. Até onde sei bons cientistas não idolatram suas teorias. Apenas as discutem. Se estiverem certas, muito bom, se estiverem erradas, lata do lixo. Dizer que um comportamento assim equivale à fé religiosa é um despautério, principalmente para aqueles que têm mesmo uma fé religiosa.
- Me permite uma palavra, senhor.
- À vontade, meu caro.
- O que está dito aqui é que as pessoas vão ao dermatologista porque acreditam que ali encontrarão a cura de que precisam. Apesar de não entenderem nada de dermatologia, eles crêem que um dermatologista é capaz de mostrar o caminho da salvação. Isso é fé, uma fé, se me permite, tão "cega" quanto a dos clérigos, senhor.
- (Rindo) Fascinante, Phipps! Segundo o papelucho a dermatologia virou religião! E o que os dermatologistas idolatram? As frieiras de Deus? (Pega um pãozinho com geléia) Mas me diga uma coisa. Quando aparece uma brotoeja em um lugar, digamos, inadequado, esse seu colega, você e até mesmo os padres, que andam cada vez mais suscetíveis a esse tipo de infortúnio, preferem ir ao dermatologista do que à Igreja, não?
- Parece que sim, senhor.
- Mas se é tudo a mesma coisa, pergunto então a vocês o porquê da escolha. Particularmente, imagino que não tenha nada a ver com fé, mas sim com a pomada Canestem e seus efeitos milagrosos (risos). Sabe, Phipps. É compreensível um certo misticismo nas classes baixas, até porque eles não têm dinheiro para pagar dermatologistas e vivem cheios de frieiras e coisas piores. No entanto, acho profundamente herético uma pessoa de posses freqüentar a Igreja. Um rico na Igreja é uma aberração. Viola ao mesmo tempo os princípios católicos e materialistas.
- Os ricos também têm direito à salvação, senhor.
- Ricos não precisam ser salvos, Phipps. A não ser de suas ex-mulheres e de seus advogados.
- Tem razão, senhor. Mais chá?