Closet. Porfirio está de pé em frente ao espelho, terminando de se arrumar. Dirige toda a sua atenção ao nó da gravata, que após três tentativas insiste em sair torto. No chão, diversas gravatas e pares de sapatos espalhados. Sua noiva está sentada na ponta da cama do casal se divertindo com a leitura de Major Barbara. Ao seu lado, um pequeno bar com garrafas de conhaque e licor sobre uma bandeja de prata.
- (Porfirio) As gravatas de um homem são um resumo de sua personalidade. Donde podemos concluir que um homem sem gravatas é um homem sem personalidade. Minhas gravatas são todas vivas, sofisticadas e alegres. Mas são também bastante rebeldes e se recusam a fazer o nó como quero.
- (Phipps) Os jornais, senhor.
- (Porfirio aponta para a poltrona Luis XV, onde os matutinos devem ser largados, enquanto termina o nó) Não há nada mais tedioso do que as novidades que lemos nos jornais, Phipps. Tudo que acontece é tão previsível. Detesto jornais. Além do que, só falam de política e economia, dois assuntos extremamente indiscretos. (Olhando para a sua noiva) Esta flor combina com a gravata, amor?
- (Levantando os olhos do livro) Combina tão bem quanto nós dois.
- Ah! Então devo estar impecável. Gosto de andar impecável. Como não tenho grandes idéias, preciso impressionar com as roupas. (Olhando para Phipps) Onde está meu Porto? É intolerável trazer os jornais desacompanhados de algo para se embriagar. Quer estragar o meu dia?
Phipps vai até o bar e despeja o tawny em uma pequena taça de cristal tcheco. Porfirio termina o seu nó da gravata e espeta a flor em sua lapela.
- Perfeito! (Pega a taça e vira num só gole) Obrigado, Phipps, agora estou pronto para a leitura. (Senta na poltrona com um dos jornais nas mãos, começa a sussurrar enquanto vira as folhas) Esquerda, direita. Direita, esquerda. Quanto mais leio mais me convenço que a melhor qualidade de um político é ser ambidestro. Mas onde estão as fofocas? Oh, sim, aqui. Veja, Phipps, finalmente um assunto digno de uma roda de cavalheiros: o casamento gay. O que você acha disso?
- Não sei o que pensar, senhor. Me parece um assunto delicado.
- (Cheirando a flor em sua lapela) Sem dúvida, Phipps. É delicadérrrrimo (risos). Brincadeira, brincadeira. Você sabe que sou preconceituoso e, pior, que tenho orgulho dos meus poucos preconceitos. Uma pessoa sem preconceitos é uma pessoa sem defesas. Com os gays não é diferente, sou cheio de preconceitos. Se um restaurante é freqüentado por gays, já gosto sem nem mesmo ter ido visitá-lo. Quase sempre a comida é excelente, o serviço ótimo e, melhor de tudo, nunca há crianças. As festas também são as melhores. Melhor bebida, melhor comida, melhor música. Imagine então as festas dos casamentos gays. Talvez sejam as únicas dignas de serem freqüentadas.
- Mas o senhor é a favor das festas ou dos casamentos?
- Sem casamentos não haverá festas, correto?
- Correto.
- Então sou a favor dos casamentos. Ser contra um casamento por razões morais é um tanto contraditório. Um casamento é assunto doméstico, não público. É algo de uma insensatez tão grande, que só duas pessoas completamente apaixonadas estariam dispostas. Por que não permiti-lo? Que cada um aprenda com seus próprios erros, não? Escute o que te digo, Phipps. Esses liberais que se dizem contra o casamento em breve vão querer determinar a cor de minhas cuecas.
- E a adoção, senhor?
- Eles querem adotar crianças?
- É o movimento natural. Casar, ter filhos...
- Mas isso estragaria tudo! Gays são muito inexperientes com crianças, alguém precisa avisá-los. Os restaurantes, as festas. Esses eventos custam muito dinheiro, o mesmo dinheiro que será perdido com fraldas sujas, pomadas e educação de qualidade. Educação de qualidade... Que desperdício! (Olhando para a noiva) Nós decidimos não ter filhos e gastar tudo em champanhe e caviar, não é meu bem?
- (Revirando os belos olhos negros na direção de Porfirio) Se for Beluga, não me oporei nem um pouquinho, amor (faz um biquinho e manda um beijo doce).
- Beluga, claro. Servir caviar finlandês é praticamente uma ofensa pessoal. E os pobres meninos? Pense, Phipps. Se com uma mãe já é difícil, imagine duas! É isso. Sou a favor dos casamentos, mas contra a adoção.
- Não há aí uma incoerência, senhor.
- Talvez. Mas a incoerência é um pecadilho permitido a dois tipos de gente: aos grandes homens e aos advogados. Eu, infelizmente, me enquadro na segunda categoria.
- É uma afirmação injusta. Tenho muita admiração pelo senhor.
- É para isso que eu lhe pago bem, Phipps.