Intelectuais adoram falar mal de quem corre atrás de dinheiro, de quem é fútil, de quem não lê. Numa mesa de boteco, um crítico literário, um literato criticável, um jornalista e um fotógrafo. Todos tiram um falso sarro da pobre alma que passa em seu Porsche, acompanhada de uma belíssima morena.
- (Intelectual 1 dá um trago no cigarro) O pobre coitado não aproveita a vida.
- (Intelectual 2 com a latinha de cerveja na mão) Nunca leu um livro!
- (Intelectual 3 comendo um ovo roxo) Nunca foi ao teatro!
- (Intelectuais 1, 2, 3 e 4, em coro) É um burro! É um burro!!
No Brasil, intelectual não pode gostar de dinheiro. Mas vejam isso. Tenho a possibilidade de freqüentar os dois lados e garanto que nunca ouvi uma roda de yuppies parar para falar mal de intelectuais. Playboys não tomam conhecimento da intelectualidade. Entre uma e outra taça de vinho australiano, conversam sobre charutos, viagens, mulheres e futebol. Nem todos são estúpidos, garanto, e a maioria aparenta estar muito mais satisfeita com sua condição do que os intelectuais com a sua própria. Quando descobrem que um amigo entrou para um grupo de teatro, pedem notícias e se perguntam em silêncio como alguém pode viver sem a costeleta de vitela à milanesa do Fasano. Há um ar de condolências, mas não de raiva ou ressentimento. Já os intelectuais não. Estes vêm nos playboys uma ameaça à Paz Mundial e à Democracia. Eles têm raiva de playboys, falam mal, xingam, ridicularizam. Demonstram asco por dinheiro, nojo das futilidades e ficam fazendo planos sobre como transformar essas pessoas em algo que preste, como por exemplo um político ativo no parlamento, um bom escritor, um cientista, um padre.
Minha opinião? Pura inveja.
***
Mas o que seria uma pessoa que presta? É dessas que só falam de assuntos grandiloquentes, ou seja, mais um intelectual. E o que é um assunto grandiloquente? Assuntos grandiloquentes são aqueles que se escrevem com letras maiúsculas: o Futuro da Democracia; a Literatura Moderna Brasileira; o Fenômeno Lula; a História do Cristianismo Ocidental; Filosofia e Racionalismo; Conflitos entre Oriente e Ocidente etc. Tudo tão chato quanto pretensioso, convenhamos. São outros os assuntos verdadeiramente legais, que escrevemos com minúsculas mas que mereceriam maiúsculas: o Vestido Novo da Noiva; o Pato com Laranja do Freddy; Charutos; Licores, Vinhos e Vinhos de Sobremesa, o Sonho Erótico que Tive essa Noite etc.
Ah, sim. E o intelectual não fala bem de nada. Ele reclama. Rebaixa tudo que está a sua volta. Aponta na cara de cada um e diz como é baixo, como é fútil. Se fala bem de alguém, é para comparar com o resto e se lamentar "da atual situação das coisas". E então acender um cigarrinho.
Fico feliz que dê câncer.
***
Vou insistir ainda mais.
Intelectuais são muito chatos. Muito chatos. Minha vontade é bater neles, de óculos e tudo. Eu também dou minhas resmungadas e gosto de gente que fala de Literatura, ou que me recomende um bom livro, uma boa peça, um pintor que não conheço. Mas não faço do resmungar meu passatempo predileto. Meu novo lema desta semana é: Chega de lamentos, intelectual! Os escritores são ruins? Deixe que escrevam mal! Ignore! Graças a Gutenberg já se publicaram livros bons o suficiente para que possamos passar o resto da vida lendo, sem repetir uma só linha. Os outros são burros e você é assim tão inteligente? Não é possível que o nosso Albert Einstein de botequim não tenha encontrado umas duas ou três almas com quem possa trocar idéias. O Brasil está perdido, o mundo está afundando no materialismo-comunista, no moralismo-capitalista? Jura mesmo é? Primeiro, não acho. Para mim, você está querendo chamar a atenção. Toma um copo d'água, senta um pouquinho que isso vai passar. E segundo, mesmo se for verdade, não acredito que algo possa ser feito. Um homem contra a História é um lambari nadando contra o curso do rio. Tanto mais idiota quanto maior o esforço.
***
Criei meu mundinho particular, feito de pedacinhos que encontrei de um lado e de outro: vinho australiano, Oscar Wilde, charutos, Vermeer, Shaw, carros esporte e, no centro de tudo, minha noiva. Sou o que chamo de intelectoboy, ou playbectual. Um autista do bom gosto, um viciado em pequenos prazeres. Reúno o melhor de cada lado, e quando me refiro ao melhor, quero dizer o menos sério: Não levo dinheiro a sério, a ponto de passar a minha vida trancado em um escritório, mas também não levo a arte a sério, a ponto de virar mais um insuportável crítico. Compro livros e carros com o mesmo intuito: me divertir. Conduzo os dois sem pretensão de chegar a qualquer lugar. Quero só aproveitar o trajeto e no final encontrar lugares bonitos. Nesse sentido sou burro. Mas um burro feliz e, quero acreditar, um burro que sabe mais da vida do que a maioria.
Posted by Porfirio at março 16, 2004 6:22 PM