Porfirio está de pé na sala de estar. Sua noiva e seu pai estão sentados em um sofá de couro capitonê. A noiva segura nas mãos uma almofada de veludo vermelho como se fosse um bebê de colo.
- Quando você vai arrumar um emprego decente? Já conversei com sócios de diversas bancas da cidade. Todos mostraram-se interessados em contratá-lo.
- Pra que o trabalho, pai? O trabalho denigre. Distorce a moral, deforma o caráter. Transforma a todos em contadores. Além do que, já tenho o dinheiro de que preciso e já conquistei a mais bela mulher. (Acena para noiva e dá um sorrisinho) Não é pra conquistar mulheres que as pessoas vão atrás de dinheiro? E não é pra ganhar dinheiro que as pessoas trabalham? Pois então. Não faz sentido algum pegar uma estrada para se chegar em um lugar em que você já se encontra.
- Detesto esse seu jeito de falar. Diz as maiores bobagens com ares de verdade absoluta. Mas a verdade é sempre a verdade, não importa como seja dita. E a mentira sempre será mentira, mesmo revestida das palavras mais belas.
- Excelente, pai! Essa mentira foi dita com tão belas palavras que quase me convenceu de sua verdade. Meus parabéns. Mas veja. Eu acredito apenas na verdade da beleza. E como a beleza é inconstante e subjetiva, a verdade também é. A verdade reluzente de hoje empalidece no dia seguinte. E uma mentirinha opaca às vezes resplandece em uma verdade incontestável. E o melhor é que a verdade é também democrática. Como a bunda, todo mundo tem a sua. Eu tenho uma, você tem outra, cada qual feliz e satisfeito. Se a verdade fosse uma só, o mundo seria um lugar mais triste. Alguns poucos andariam garbosos de suas certezas, seguidos por multidões de indecisos, pedintes de uma esmola de convicção.
- Não é possível que você acredite nisso!
- Claro que acredito. Pelo menos até esta manhã. Só não digo que se trata de uma verdade absoluta por que estaria me contradizendo. Por isso, acho que amanhã vou mudar de idéia apenas para continuar tendo razão (risos). É verdade que não existem verdades? Talvez sim, talvez não. Mas o fato é que sempre há os que querem ser donos da sabedoria, legítimos proprietários da virtude. Eu não. Faço o contrário. Digo a cada um o que querem ouvir, que têm razão, que estão certos. E assim distribuo a verdade em porções iguais e sem cobrar nada, contribuindo para a justiça social deste país.
- (Com ar de indignação) Despeitado!
- Tem razão, pai.
- (Olha feio para Porfirio e começa a remexer nos bolsos) Andei conversando com dois ou três deputados.
- (Com os olhos arregalados) Do Parlamento?!
- (Tira um cachimbo de um dos bolsos e começa a colocar fumo de pêssego) Sim, do Parlamento. Se esse seu talento para o falatório vazio tem alguma utilidade, deve ser ali.
- (Visivelmente desesperado; a barbatana da camisa espetada para fora da gola) Eu não suportaria, pai! Seria a morte! Você não está falando sério! (Olhando para a noiva) Viu! Não falei que ele era cruel! (Volta-se para o pai) Tantos anos de estudos para acabar no Parlamento! Você sabe que mandar um filho para o Parlamento é o mesmo que admitir o fracasso de sua educação. Você não está preparado para admitir que fracassou comigo, está?
- (Acende o cachimbo e dá umas baforadas) Acho que sim. Você começa a acreditar que fracassou com um filho quando ele abandona a moral, os bons costumes, se recusa a trabalhar, gasta perdulariamente o dinheiro arrecado pelo trabalho árduo de três gerações e só fala de frugalidades.
- A filosofia não é uma frugalidade, pai. (Vira-se para a noiva e fala em tom de confidência) Mas o resto é verdade.
- Realmente a filosofia não é uma das frugalidade. É só a mãe de todas elas. Mas como disse, andei falando com dois ou três parlamentares sobre você. Convenci-os de que seria um excelente assessor. Sua função será escrever discursos, participar de reuniões e comícios, orientar debates. Seu dom para o palavreado inútil será de grande utilidade.
- Ah não, pai. Tenha piedade desta pobre alma soberba. O Parlamento é um lugar inóspito para espíritos como o meu. Não me importo com mentiras até por que não acredito em verdades, mas o mau gosto é intolerável. Nobres colegas, ao menos mintam com classe é o que eu diria em meus discursos. E, por favor, chega de falar em soberania ou igualdade social. Ninguém agüenta mais. Pelo menos eu não agüento mais. Além disso, parlamentares são propositadamente confusos. Dizem que disseram o que não foi dito. E desdizem o que disseram e não poderiam ter dito. Desdizer o que foi dito e dizer o que não foi dito é o trabalho do parlamentar. Num lugar assim você nem sabe como discordar de alguém. Não, não. Eu não toleraria trabalhar em um lugar em que não se consegue nem mesmo discordar dos outros com alguma propriedade.
- (Risos) Apesar de tudo, ainda te acho engraçado, filho. Mais uma razão para acreditar na sua carreira como parlamentar. Você vai ver que lá todos são muito engraçados. Às vezes, as diferenças entre parlamentares e comediantes são tão sutis, que não sei se estou assistindo ao Comedy Channel ou à TV Senado. Sempre me confundo...
- É fácil, pai. No Comedy Channel as gravatas são menos coloridas.
- (Risos)