Vou contar um segredinho para vocês. Fim-de-semana passado estive no Rio, incógnito com minha noiva. Na sexta-feira jantamos no Cipriani, restaurante do Copacabana Palace. De entrada, dividimos um creme de lentilhas com ovas. De secondo escolhi codorna com ameixas. Ela, lasanha de lula. O Cipriani é o restaurante mais belo do Brasil, um dos mais charmosos do mundo. No seu salão retangular, as mesas se estendem ao longo de uma ampla janela de vidro, com vista para a piscina e os chafarizes. O maître, delicadíssimo, educadíssimo. Não fosse o Ricardinho Mansur tagarelando na mesa ao lado (e, além de tudo, desacompanhado da bela Luana), o jantar teria saído perfeito.
Jorginho Guinle foi velado no Copa. Também quero. Ou melhor. Como bom paulistano, quero ser velado no Fasano. Deitado no sarcófago, tentarei escutar pela última vez as conversas de meus grandes amigos, o tilintar das taças e talheres, as risadas, os violinos ao fundo. Ficarei quietinho ouvindo as fofocas (não se preocupem, levarei os segredos para o túmulo, literalmente) e tentarei aspirar o aroma das trufas e dos perfumes femininos.
No meu velório, por gentileza sorriam, inclusive você, minha noivinha linda. E façam um delicioso brinde, todos com as taças cheias de vinho tinto, em meu nome. E, por favor, não rezem. Nunca fui de nepotismos e não pretendo que minha alma chegue no céu por recomendações de terceiros. Não sou um modelo de santidade, mas também nunca meti os pés pelas mãos. Se Deus existir, faço questão de acertar contas pessoalmente com ele, digo, Ele. O que eu diria? Bem. Primeiro, que eu realmente, no fundo no fundo, não acreditava. Afinal, que Deus é esse capaz de criar coisas tão repulsivas quanto a peste negra, os terremotos e o churrasquinho grego? E essa história do pecado original? Por que logo uma maçã, redondinha, vermelhinha? Se Sua Magnanimitude tivesse escolhido uma jaca, as coisas talvez tivessem saído diferentes.
Claro que Deus puxaria uma lista de todos os pecados que cometi, desdaquela vez em que olhei a empregada trocar de roupa pelo buraco da fechadura (conterei a risadinha quando Ele tocar no assunto), até a véspera da minha morte, quando toquei a buzina do carro no estacionamento do Pão de Açúcar, só pra ver a velhinha derrubar o pacote de compras.
***
Agora imaginem se Deus me saísse com essa:
- (Risos) Fui Eu!
- Como?
- (Risos) É! Fui Eu quem fez a velhinha passar ali bem na hora! Sabia que você ia aprontar! (Risos). E o buraco da fechadura? Você realmente acreditou que a moça ia tirar o sutiã bem ali na frente, por puro acaso? (Risos) Esses detalhes têm o Meu toque pessoal. Um temperinho, entende? Dei todas as dicas para você acreditar em Mim. Você é que não queria!
- Sua Magnanimitude só pode estar brincando.
- Brincando? (Risos) O tempo todo! (Risos e mais risos, já meio ensandecido)
- Mas e essas calamidades, essas tragédias? Muita gente morre à toa.
- (As risadas diminuem rapidamente) Olha. A peste negra fiz num dia em que acordei de mau humor. Acho que Me excedi um pouco, é verdade. Mas churrasquinho grego é uma delícia! Você já experimentou um que tem lá na Praça da República?
Aí tudo ficaria claro pra mim. Um Criador piadista que gosta de churrasco grego. Nesse eu consigo acreditar.
Posted by Porfirio at março 25, 2004 3:02 PM