Na faculdade de ciências sociais (curso de antropologia) defendia que o trabalho da Funai e dos antropólogos fosse o de civilizar os índios o mais rapidamente possível. Dar escola, roupas, ensinar uma profissão, português, matemática. Poderiam também recolher os artefatos, tabas, arcos, flechas, cerâmicas, redes e abrir um museu.
Um museu de coisas, não de pessoas.
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Riam de mim alunos e professores, mas riam com raiva. Eu também ria deles e os debates eram divertidíssimos porque, não sei se vocês sabem, os cientistas sociais estão entre as figuras mais ignorantes da galáxia. Eram dez, doze contra um e eu invariavelmente ganhava. Eu dizia ser uma piada de mau gosto criar reservas culturais, onde grupos antes isolados poderiam viver como se ainda não tivessem entrado em contato com o homem branco. A aculturação é um processo que não fica sob nosso pretensioso controle. Uma vez descobertos, os índios vão querer usar tênis e bonés, dirigir caminhonetes e assistir televisão. Mantê-los em reservas sob a pecha de incapazes é prolongar um estágio de aculturação muito sofrido, em que se perde uma identidade sem ganhar outra em troca. O ideal seria apressar a passagem de um estágio para o outro e diminuir o sofrimento a um mínimo. Garantir a inserção social, como diriam lá no PT. Estranhamente, o que a Funai faz é o contrário. Ela prolonga indefinidamente esse período intermediário, condenando os índios a uma espécie de limbo cultural onde, em dado momento, nem eles sabem mais o que querem.
Na época aprendi que eram comuns os suicídios entre os pobres coitados. Para as cabeças sociológicas, a culpa era da civilização ocidental e as mortes uma espécie de prova das teorias rousseaunianas sobre a superioridade do estado de natureza. De minha parte, sempre vi nos suicídios um protesto inconsciente contra a humilhante condição de objeto vivo de estudos antropológicos.
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Outra discussão que tínhamos era sobre a necessidade de preservar a cultura dos índios. Há aquelas especulações sobre remédios ancestrais, cura para a AIDS, ervas medicinais etc. Não sou ornitólogo nem entomologista, mas faço aqui uma aposta: se a cura para AIDS sair de alguma das tabas dos índios cinta-larga, penduro as chuteiras.
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Concluindo. Não me espanta em nada a brutalidade e a violência que se vê nesses lugares. Como no caso da morte por mutilação e incineração de mais de 30 garimpeiros em Espigão d'Oeste. O lugar é uma verdadeira terra de ninguém. Os índios são obrigados a continuar caçando minhocas com lasca de bambu e são considerados incapazes pela Constituição Federal. Já a reserva, apesar de riquíssima em diamantes, não pode ser explorada por ninguém, da tribo ou do garimpo. Ou seja: são duas hordas de miseráveis sentadas sobre uma mina de dinheiro, em um lugar em que as regras do Código Penal não se aplicam.
Quem pensou nisso merecia um prêmio, não acham?
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Sou a favor do fim das reservas indígenas. Ou então, se preferirem continuar preservando formas arcaicas de vida, deviam transformar a FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP) e a Funai em reservas de inimputáveis.